quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A Graça Comum e o Mandato Cultural levam ao mundanismo?


Muitos acusam Abraham Kuyper e o denominado “Neocalvinismo” de introduzirem o mundanismo no seio da igreja quando explicitam o conceito de Graça Comum e a doutrina do Mandato Cultural. Antes de entrar no mérito da questão é importante fazer algumas considerações conceituais e históricas, mesmo que introdutórias.
A alcunha “neo” adicionada ao termo calvinismo refere-se ao movimento iniciado por Abraham Kuyper na Holanda, no século XIX, ao contextualizar as doutrinas reformadas, mormente as calvinistas, à realidade do seu período. Kuyper evidenciou algumas doutrinas que estavam nas entrelinhas ou foram pouco comentadas por Calvino, como o conceito de Graça Comum e do Mandato Cultural. A Graça Comum é definida, de modo geral, como as bênçãos de Deus derramadas a todos os seres humanos, independentemente de suas crenças. O favor de Deus para com todos os seres humanos limita a atuação do pecado no mundo e distribuí diversos dons e talentos para a humanidade. Já a doutrina do Mandato Cultural é conceituada como o mandamento de Deus proferido ao homem, nos capítulos iniciais de Gênesis, para dominar e sujeitar a natureza, e cultivar e guardar o jardim. Este mandato está diretamente relacionado à idéia de produzir cultura, envolvendo todas as esferas sociais da humanidade.
Após estas considerações iniciais, adentremos ao questionamento aduzido pelos críticos do Neocalvinismo contra as doutrinas supracitadas. A crítica baseia-se, de modo geral, que a introdução destes conceitos leva a igreja ao mundanismo. A idéia é que ao aceitarmos que os ímpios podem realizar coisas boas e que os cristãos devem atuar na transformação das estruturas sociais, estaremos negando a antítese existente entre os filhos de Deus e os filhos da perdição, negando a doutrina da depravação total e levando a igreja a um ativismo social, tirando o foco do evangelismo e do segundo advento de Cristo.
Desculpe-me a expressão, mas estes argumentos são uma completa tolice. Primeiro, a doutrina da Graça Comum, tão evidente nas Institutas de Calvino, mesmo que não rotulada com este nome, não nega a antítese, já que apenas reconhece que toda verdade procede de Deus. A negação desta doutrina nos leva a muitos problemas, já que grandes feitos produzidos por ímpios como a cura de doenças, técnicas avançadas de agricultura, grandes obras literárias e etc, deverão ser, inevitavelmente, atribuídos à pecaminosidade humana ou ao diabo, o que é ridículo. Calvino nos adverte em suas Institutas que ao não reconhecermos a verdade aonde quer que ela esteja estaremos correndo o risco de sermos insultuosos para com o Espírito Santo de Deus. Segundo, dizer que a Graça Comum é contrária a doutrina da Depravação Total é na verdade assinar um atestado de superficialidade com relação às doutrinas Reformadas! A Depravação Total não afirma que tudo que é produzido pelo ímpio é necessariamente mau e que o ser humano é absolutamente depravado, mas que o pecado afetou todas as áreas da existência humana, tornando o ser humano cego para a realidade de Deus, já que após a queda morremos espiritualmente. O ímpio, pela graça de Deus, pode produzir coisas boas, mesmo que por motivações equivocadas e não reconhecendo que seus talentos provêm de Deus. Em terceiro lugar, o Mandato Cultural não leva ao mundanismo, ao contrário, leva a “desmundanização” do mundo, perdoem-me o neologismo. Este mandato não tem como objetivo transformar o mundo para acelerar a volta de Cristo, como asseveram alguns, já que este foi proferido bem antes do primeiro avento. O fulcro do Mandato Cultural é a reconciliação de todas as esferas da vida, possibilitada pela obra vicária de Cristo, com a vontade original de Deus para a sua criação. Logo, a busca do cumprimento deste mandato não leva a um ativismo mundano da igreja, mas sim a verdadeira missão da fé cristã, que é a glória de Deus! Esta missão envolve todas as esferas da vida humana, inclusive o evangelismo. Devemos salientar que a busca por transformação não nos leva a crença de conseguirmos um mundo perfeito aqui e agora, já que esta perfeição só será alcançada na segunda vinda de Cristo. Entretanto, sabemos que o Reino de Deus já é chegado e nós cristãos somos seus cidadãos e embaixadores, logo não podemos nos conformar com as injustiças deste mundo, mas atuarmos, como base em Cristo, para que todas as coisas glorifiquem a Deus. Não podemos fechar os olhos para todo o mal existente e apenas esperarmos o segundo advento. Isto é uma crueldade, já que as necessidades e os problemas são prementes.
Logo, estas doutrinas, ao contrário do que seus críticos afirmam, não levam ao mundanismo, mas o evita, já que temos uma compreensão de mundo integral, fundada no logos que é Jesus Cristo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A alienação da juventude evangélica


"O potencial de jovens para missão beira proporções épicas. A igreja - que só tenta mantê-los ocupados para não irem às quebradas - está vacilando e prejudicando-os, no que diz respeito ao que Deus quer para as suas vidas. Vamos investir neles: treiná-los e mostrar o campo que clama por obreiros."
A frase acima foi proferida por Walter McAlister, bispo da Igreja Cristã de Nova Vida, em uma rede social. E foi de tamanha valia que me fez refletir sobre a realidade atual da juventude evangélica e arriscar escrevendo sobre. Ora, arrisco-me à medida que faço também parte desta juventude, que cresce na mesma voracidade em que acaba.

Potencialmente capazes, biblicamente ignorantes
"Eu vos escrevi, jovens, porque sois fortes, e a palavra de Deus está em vós, e já vencestes o maligno" I João 2:14
Já disse Salomão que a glória do jovem é sua força, mas que esse deveria ser disciplinado - nas palavras originais, açoitado - para ser purificado do mal (Pv 20:29-30).  A importância da disciplina é clara. Mais ainda é a da instrução. Assim como a Israel dos tempos de Oséias, a Igreja de Cristo  - e especificamente a mocidade - está sendo destruída por falta de conhecimento (Os 4:6). Mesmo com o todo o vigor da juventude, a prática missionária se torna simples ativismo religioso sem o conhecimento da palavra de Deus.

Juventude alienada
Evento gospel realizado em Belo Horizonte
Por mais ofensiva que pareça esta expressão, não encontrei palavra melhor que alienação para descrever o  que está ocorrendo com grande parte da mocidade evangélica. O evento acima foi realizado no início do ano por uma denominação pentecostal, em comemoração ao aniversário da emissora de rádio administrada pela igreja, e reuniu cerca de 13 bandas para mais de 13 horas de show.
Não estou, assim, declarando alienados os participantes dessa programação. Longe de meu objetivo! Contudo, haviam nele elementos que induzem a um pensamento antibíblico. Explico: em algumas músicas e principalmente nas orações "fortes", que prometiam o esquecimento de pecados, estava arraigada a chamada doutrina da Confissão Positiva (leia mais). Tal doutrina aniquila a soberania de Deus, enaltece o homem e valoriza mais a palavra humana que a própria Bíblia. Heresia completa! E pela falta de conhecimento bíblico, nós (jovens) aceitamos de braços abertos e lágrimas nos olhos todo esse carnaval de emoções e sensações, acreditando ser isso o "mover de Deus".
Assim, alguns me perguntam: mas por que alienação? E respondo: porque não participar desse tipo de programação se tornou pecado. Não ouvir exclusivamente música gospel se tornou pecado. Não ser conivente com práticas antibíblicas se tornou pecado. E não há texto e interpretação bíblica que mude tal opinião.
Eis que chega o ponto crítico: a juventude que outrora lotava as igrejas com vigor e ardor em seus corações, começa a sucumbir. Eventos, músicas vazias e momentâneas "experiências" com Deus já não são suficientes para preencher seu coração. Desanimados, desligam-se da igreja. Em muitas vezes, para nunca mais voltarem.

Revertendo o processo
Inúmeras estratégias são empregadas para tentar reverter a evasão. Mais eventos, pequenos grupos, etc.  Mas creio que nenhuma delas obterá sucesso senão trouxer uma mudança de cosmovisão. Ora bolas, como é possível alcançar a juventude pelo evangelho de Cristo quando se tem uma cosmovisão com resquícios de neopentecostalismo? Torno a dizer: creio que somente quando extirparmos todo resquício desse tipo de teologia dentro das igrejas - principalmente na liturgia-, veremos um caminho.
Nós, jovens, necessitamos de um cristianismo autêntico que nos guie, através da Bíblia, em todas as áreas de nossa vida.
Líderes eclesiásticos! É preciso repensar a maneira de lidar com a juventude. Ministérios não são agências de eventos nem seus dirigentes, promoters. É preciso parar de criar cópias "gospel" de tudo o que existe no mundo e entender a Bíblia como uma palavra transformadora. É preciso se desvincular do objetivo de crescimento numérico explosivo. Como disse John W. Robbins, o "crescimento, como um objetivo, é a ideologia da célula de câncer. O verdadeiro evangelismo tem um objetivo diferente: a propagação da verdade de Deus". É preciso investir tempo em educação, em organização, em relacionamento e, obviamente, em disciplina.
Jovens! É preciso sair de nossos guetos eclesiásticos. Temos que explodir as quatro paredes da igreja local e agir sim, no grande templo que é o mundo. É preciso que entendamos que muitas de nossas práticas não condizem com a vontade de Deus, revelada nas escrituras, e abdiquemos delas. É preciso entender que fomos feitos a imagem e semelhança de Deus (Gn. 1:26) e que a criação é essencialmente boa (Gn 1:31), e mesmo corrompida pela queda (Gn. 3:17)  é reconciliada com Cristo (Cl. 1:20). Por fim, é preciso aproveitar a criação de Deus (Ec. 2:24;8:15) ouvindo boas músicas, indo bem nos estudos, trabalhando o melhor que pudermos e glorificando a Deus com todas estas coisas.

Conclusão
Sendo assim, vemos que a situação da juventude é deveras preocupante. Cabe aos líderes fazerem sua parte nessa luta, pranteando, orando e trabalhando. E a nós, jovens, deixo um trecho do hino da mocidade presbiteriana. Que Deus nos abençoe!
Juventude cristã, avante!
Empunhando o pendão real,
Com fé no comandante,
Venceremos todo o mal!
“Sê testemunha” - disse o Senhor.
Falemos sempre de Jesus, sem temor!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

POR UMA NOVA DEFENESTRAÇÃO

Por André Storck



Defenestração de Praga
 Poucos episódios da história me impressionam mais do que as Defenestrações.  Defenestrar é oriundo de um radical comum da palavra janela que em francês se diz fenêtre e em italiano, finestra. Defenestrar é o ato de jogar algo ou alguém pela janela, significa, mais especificamente, lançar para fora da janela uma pessoa com a intenção de assassiná-la. Raríssimas vezes na história humana a revolta e rebelião populares contra a tirania de maus líderes culminaram numa defenestração, ou seja, poucas chegaram ao ponto de literalmente jogar janela afora uma súcia de governantes indesejados. É claro que nem todos os casos de defenestração são nobremente motivados, haja vista o da criança Isabella Nardoni na cidade de São Paulo em 2008.

Na verdade, existem três grandes episódios de defenestração na história. As duas defenestrações de Praga, de 1419 e de 1618, ambas estopins dos conflitos entre católicos e protestantes. E ainda a Defenestração de Miguel de Vasconcelos, em Portugal, 1640. Esta última ocorreu porque o defenestrado, sendo português, apoiava a dominação da dinastia filipina (espanhola), o que despertou o ódio de seus compatriotas.

Contudo, com a permissão do leitor, gostaria de dar um enfoque especial nas defenestrações de Praga e depois construir um paralelo com os dias de hoje.

O reformador protestante Jan Hus – seguidor das ideias do professor de Oxford e precursor das reformas protestantes, John Wycliffe – foi seguido por diversos simpatizantes por toda a região da Boêmia, seus seguidores foram chamados de hussitas. Uma das principais bandeiras de Hus era a doutrina do Sacerdócio Universal dos Crentes, pela qual defendia que todo o cristão possuía - por intermédio de Cristo - o acesso a Deus, o que resulta numa espécie de dessacralização da função eclesiástica ao de certa forma sacralizar todas as atividades humanas, do açogueiro ao governante. Jan Hus foi morto na fogueira em 1415 após ter sido declarado herege pela Concílio de Constança. Todavia, os seus seguidores permaneceram fiéis e suas ideias foram reproduzidas em parte por Lutero e Calvino no século seguinte.

Relata-nos a história, que no dia 30 de julho de 1419, os hussitas protestavam em frente a Prefeitura de Praga onde se encontravam os membros do conselho governante da cidade, os quais, se recusavam a por em liberdade alguns companheiros hussitas, presos por motivos religiosos. Uma pedra teria sido lançada de dentro do prédio contra a procissão. Os manifestantes, irados, rapidamente invadiram e tomaram o prédio jogando pelas janelas os sete membros do conselho que caíram sobre as lanças do povo. Essa foi a primeira defenestração de Praga. Após isso, o povo ainda atacou os monastérios da Igreja Católica. Iniciou-se, desse modo, a guerra dos camponeses hussitas contra a nobreza e o clero corrupto.

A segunda defenestração de Praga ocorreu em 1618, quando a nobreza tcheca protestante, descontente com a falta de liberdade religiosa e com a dominação católica, lançou pelas janelas do Palácio Real de Praga, os representante do rei católico Fernando II.

Vivemos no Brasil dias que clamam por novas defenestrações. Explico-me. Tanto a política quanto o meio religioso encontram-se completamente desacreditados da população. Políticos e pastores são as classes que mais inspiram a desconfiança e a repulsa nacional e ainda sim, ambos acreditam serem capazes de transformar a nação para melhor. Posso até acreditar nessa possibilidade de mudanças por intermédio da política e do movimento religioso, pois ambos são grandes forças de coesão e influência social, mas não sem antes promovermos algumas boas defenestrações.

Foco-me na religião, mais especificamente nos protestantes. Para aqueles que acreditam que o Evangelho é a verdade de Deus para salvação do homem, quão grande tristeza é perceber a dimensão da corrupção e a danosidade das heresias que contaminam a igreja evangélica brasileira. Pastores, celebridades e outros líderes embebedados pelo poder ou pelo dinheiro fácil enganam milhões de fiéis e maculam o nome de Cristo. Tolhem a liberdade e a consciência de uma multidão de crentes. Não se importam com as verdades bíblicas ou com a transformação efetiva da sociedade. Se os membros da igreja já se vestem diferente, falam em línguas estranhas e dão o dízimo já está tudo uma maravilha, estão satisfeitos! Pouco importa se a sociedade está definhando em miséria, luxúria e bebedices.

Precisamos defenestrar logo toda essa corja de falsos pastores e líderes os quais ao invés de morrerem em defesa da Palavra, estão dispostos a matarem a Palavra para viver às custas do engano das ovelhas. A situação de podridão do meio evangélico chegou a tal ponto que a matéria putrefata não pode mais ser restaurada, a defenestração é a única alternativa restante.

Neste ponto da leitura, muitos dos que precisam ser defenestrados estarão fortemente incomodados, e por falta de argumentos decidirão atacar o autor do texto, dizendo: “Nossa! Isso parece espírito de rebeldia. O autor está sendo muito radical, o autor está incitando o ódio, a violência e o homicídio.”

A esses respondo que a defenestração que defendo não é nos moldes das de Praga, precipitando janela afora de nossas igrejas os pastores, apóstolos, “paipóstolos”, bispos e presbíteros corruptos por atividade ou por conivência (sim, corruptos por conivência). Por mais que esses enganadores do povo talvez mereçam a pena capital eu não estou fazendo apologia ao homicídio. Na verdade, acredito que a defenestração da qual necessitamos hoje é uma defenestração intelectual que deve ser guiada pelo Espírito Santo.

Precisamos enquanto cristãos reformados, defenestrar de nossas mentes as vontades da carne, o orgulho, a avareza, o egoísmo, a luxúria. E não somente isso, precisamos arremessar para longe de nossa consciência biblicamente radicada, doutrinas heréticas que impedem que os cristãos possam atuar dentro da sociedade em todos os seus rincões, porões, escolas, repartições públicas, boates e hospitais de forma a influenciá-la e transformá-la com o verdade divina. Podemos começar nossa defenestração com a divulgação das esquecida doutrina do Sacerdócio Universal dos crentes como fazia Jan Hus. Precismos atirar fora a ideia equivocada que confunde a espiritualidade com uma microética cristã, a qual ensina que o cristão espiritual é aquele que chora no culto, levanta os braços no louvor, deixa o cabelo comprido, não se preocupa muito com a aparência, usa saia longa, gravata azul e só canta música gospel. Não importando se se dedica de verdade aos estudos, se o seu trabalho é exemplar, se sua conduta é proba, se é um cidadão honesto pagador de tributos ou se é um bom pai, por exemplo. Essa noção deturpada de espiritualidade só enclausura os cristãos em um gueto gospel totalmente alienado da sociedade a qual clama por transformação de princípios e de caráter. É essa a defenestração que defendo, a defenestração do pecado, dos conceitos equivocados e das heresias, por meio do estudo da Palavra de Deus, pela retomada do Sola Scriptura.

Respondida a primeira objeção, imagino que outros leitores – muitos dos quais também precisam ser defenestrados – um pouco mais letrados tentem combater a ideia do artigo com argumentos aparentemente bíblicos. Esses provavelmente dirão: “o autor do texto ao defender a defenestração dos líderes religiosos esquece-se de que toda a autoridade é posta por Deus e que devemos submissão e respeito às mesmas. Não há como defenestrar somente as ideias, alguns líderes serão defenestrados com elas.”

Com esses eu concordo em parte. Sim, alguns líderes serão jogados para fora da Igreja, posto que não são dotados de humildade para reconhecerem seus erros, pedirem perdão e recomeçar. Não são capazes, pois não são crentes regenerados e preocupam-se unicamente com o seu “bolso”. O destino desses é a defenestração seja em vida ou na morte.

Todavia, sou obrigado a discordar daqueles que insinuam haver desrespeito ou insubmissão às autoridades na minha tese. Sabemos que devemos respeito e obediência a toda autoridade, posto que todo poder advém do nosso Deus. Todavia, como Calvino magistralmente ensinou em conformidade com o Apóstolo Paulo, a partir do momento em que essas autoridades se colocam em posição de explícita desobediência para com a preceitos de Deus, devemos resistir. Imagine se os reformadores não tivessem combatido o poderio papal e desafiado a Igreja Católica em suas heresias? Ou se Jesus, em obediência às autoridade judaicas tivesse parado de anunciar o evangelho e realizar sinais? Infelizmente na igreja brasileira qualquer crítica é facilmente tida como rebeldia ou falta de submissão,  isso é resultado de uma herança cultural maldita acostumada ao déspota populista que atende com gracejos à vontade geral e que torna inócua as últimas palavras da declaração que todo o presbiteriano faz em sua pública profissão de fé: prometo obedecer às autoridades da igreja enquanto estas permanecerem fiéis às Sagradas Escrituras.

Precisamos orar, clamar a Deus por purificação e santificação; precisamos estudar e ler a Bíblia; precisamos sair da igreja e mostrar como o evangelho é na prática, seja no trabalho, na escola ou família e, por fim devemos defenestrar aquilo que pudermos esperando pacientemente pelo dia em que Deus decidir nos usar como fiéis defenestradores de tudo aquilo que por hora não conseguimos, mas que Ele desejar expelir de sua Igreja e de nossas vidas. Que Deus nos ajude.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O Cristão e a política

Por André Storck

               É comum surgir em muitos uma instintiva repulsa ao ouvir falar de política. Alguns a consideram inútil, outros, corrupta e por isso, ainda há aqueles mais extremados que acreditam na incompatibilidade dela com a vida cristã honesta.
Entretanto, há muitos que sabem magistralmente usar da política para manterem a sociabilidade e uma agradável e positiva imagem pública. A política de que trato aqui refere-se exatamente ao “eu-político” existente dentro de cada um de nós.
           Não há pecado em procurarmos ter uma boa imagem entre nossos amigos, família e irmãos, pois isso é dar o bom exemplo, como Cristo nos instruiu a fazer. Devemos, porém, ficar em alerta para evitarmos os excessos e a falsidade.
Ora, o exagero na busca pela manutenção de imagem social positiva leva-nos a sermos exageradamente políticos e, como todos os políticos, acabamos buscando pela aprovação de tantas pessoas quanto for possível. Acabamos por praticar a politicagem - movimento que nos leva irremediavelmente ao comportamento de apoio às maiorias e aos mais fortes - iremos sempre concordar com eles e constantemente tomaremos partido à favor das posições por eles assumidas. Faremos isso para obtermos nossa aprovação e manter uma imagem agradável.
Ocorre, porém, que não raras são as vezes em que a maioria está errada, é preconceituosa, invejosa e egoísta. Existe melhor exemplo do que a maioria que condenou Jesus e libertou a Barrabás?
Devemos cuidar e vigiar, pois se nos tornarmos demasiadamente políticos estaremos sempre do lado da multidão, inclusive nas vezes em que ela errar. Daí vêm todos os males da política porque iremos abrir mão de sermos honestos; abriremos mão de amizades antigas; abriremos mão de amar verdadeiramente para amarmos por conveniência no interesse de termos os aplausos da pluralidade. E o pior, abriremos mão da verdade. 
               Calvino deu-nos um excelente exemplo em Genebra, quando preferiu ser expulso e se exilar na cidade de Estrasburgo, do que ser obrigado a abrir mão das verdades bíblicas para dar lugar aos interesses políticos dos membros do conselho municipal. É triste pensar na quantidade de líderes evangélicos que hoje nem sequer tituariam em escolher abrir exceções para o cumprimento das verdades cristãs com a intenção de continuarem "bem na fita" ou de "fazer bonito para o povo ver".
Quando em meio a uma multidão você se junta a ela e grita por Barrabás ou clama pelo nome de Jesus? E quando toma decisões, você age como Pilatos, ao clamor do senso comum?
Que o “eu-político” de cada um filie-se ao partido de Cristo, deixando de lado nossas vaidades e buscando amar e respeitar o próximo.

Não seguirás a multidão para fazeres o mal; nem numa demanda falarás, tomando parte com a maioria para torcer o direito”.Ex. 23:2
Disse Jesus: “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis.” Jo. 13:34

E então, que tipo de político você é?

sábado, 30 de julho de 2011

Calvino, Genebra e o fim dos tempos!


Muitas vezes olhamos para o mundo e pensamos: Não tem jeito. O que vemos? Vemos pessoas se alienando através da mídia, vemos pessoas passando fome, vemos jovens perdendo suas vidas com práticas que destroem seu corpo e sua mente. E não é só isso, vemos uma proliferação de igrejas corruptas, seitas apóstatas e crentes que ao verem tais situações se omitem. Muitos de nós pensamos: “é o fim dos tempos! É o sinal!” e não fazemos nada para mudar a situação, Afinal, é esta a vontade de Deus e estes são os teus planos! Eu também pensava assim, mas será que esta forma de pensar está correta?
Desde o dia em que Jesus subiu aos céus, as pessoas aguardam ansiosamente a sua segunda vinda! Já se perdeu as contas de quantas vezes agendaram a segunda vinda (geralmente o fazem nos finais de século e milênio...)! Afinal, por que tanta vontade de ver Cristo novamente? Simples, desde Adão o mundo vive em uma “disposição mental reprovável” (Rm 1:28~32), de tal forma que sempre houve pecado, morte e desespero. Ao ver isto a igreja deve sim clamar por Cristo! Mas não devemos apenas clamar por Cristo, mas devemos também seguir o seu mandamento de sermos “Sal na terra” e “Luz no mundo”.
Ao ler um pouco sobre o ministério de Calvino em Genebra, no livro “Venha o Teu reino”, pude refletir um pouco sobre o mandamento de ser sal na terra. Conhecemos Calvino muito por sua brilhante teologia, mas pouco o conhecemos pelos seus feitos em Genebra. Vejamos primeiro como era a Genebra pré-calvino: Uma igreja corrupta, que literalmente vendia a salvação, uma situação desesperadora na área social e na área econômica e ainda havia a possibilidade de uma invasão a qualquer momento. Assim como hoje, e como sempre, o pecado reinava em todas as áreas da vida, e a apostasia era talvez, maior que a de hoje.
Calvino simplesmente restaurou Genebra. Seu instrumento? A Palavra de Deus! Através das conversões, as pessoas ficaram mais interessadas em ler a palavra de Deus, de forma que as pessoas não só aprenderam a ler como ensinaram os seus filhos a ler e a perseverar nos caminhos de Deus. Calvino erradicou a pobreza com propostas de distribuição de reino, e fixando a taxa de juros para 4%. Seu ministério foi marcado pela dissociação entre o estado e a igreja, sendo desta forma, um dos primeiros a efetivamente “instaurar” um estado laico (bem diferente do estado moderno, concordo). Ele ensinou as pessoas sobre como o evangelho é integral e faz parte de todas as áreas da vida, ensinando que Deus concedeu a cada um a sua vocação, e que cada trabalho é feito para a glória d’Ele, colocando em prática o que mais tarde seria chamado de ética protestante. As pessoas foram ensinadas a se defender, ao mesmo tempo que foram ensinadas que somente o Senhor dos senhores é que pode defendê-los! Calvino conseguiu resolver, no território de Genebra, muitos problemas que a maioria dos Humanistas e secularistas perdem o sono tentando resolver!
É claro que a estadia de Calvino como pastor de Genebra foi marcada de erros e acertos, e nem tudo durante o seu ministério foi bom. Mas é inegável o progresso que a cidade teve, e que o caso de Genebra foi um exemplo maravilhoso da transformação que a palavra de Deus e a atuação do Espírito Santo podem fazer em uma sociedade inteira! Genebra foi a luz da Europa, brilhando em cima do monte, como a primeira cidade totalmente reconstruída sobre a égide do evangelho!
Hoje em dia vemos a sociedade em decadência e pensamos é sinal do fim dos tempos, não tem mais concerto – A mesma desculpa dada por muitos cristão na época da reforma. Devemos ao exemplo de Calvino, ver a situação do mundo atual e clamar por Cristo, mas não apenas clamar, mas também Agir por Cristo. Devemos seguir o exemplo de Calvino e tentar reformar a nossa sociedade e a nossa igreja no Evangelho de Cristo! É possível? Com um mandamento de Deus de sermos sal e luz, e com o Espírito Santo ao nosso lado, quem poderá dizer que é impossível?

Yuri R. Fernandes

fontes:
Venha o Teu reino, da editora Jocum
Calvino e a resistência ao estado, de Armando A. Silvestre, editora Mackenzie.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Escatologia e Visão de Mundo

por Leonardo M. Verona


O tema escatologia vem ganhando destaque nos últimos cinquenta anos, mormente no evangelicalismo brasileiro. Vários livros com esta temática foram lançados no Brasil. Entretanto, apesar deste crescente interesse, a escatologia ainda é vista, de maneira geral, como um tema desnecessário, que serve apenas para satisfazer a curiosidade das mentes mais aguçadas. Mas o que muitos não sabem é a estreita relação entre a nossa compreensão escatológica e como nós cristãos encaramos o mundo, seja individualmente ou como igreja.
O termo “escatologia” deriva de duas palavras gregas: "eschatos" e "logos". "Escathos" significa última, e "logos" estudo. Então podemos entender escatologia como um estudo acerca das últimas coisas. Contudo, quando serão os últimos dias? É um período reservado somente para o futuro? Qual a relação entre este mundo e o vindouro? Haverá uma continuidade?
A grande maioria dos evangélicos brasileiros têm respondido estas questões com o entendimento de que os últimos dias acontecerão apenas num período ainda futuro. E após este tempo o mundo será completamente destruído, não havendo nenhuma continuidade entre este mundo e o mundo porvir. A implicação deste entendimento escatológico será o desprezo pelo mundo presente. O raciocínio é o seguinte: já que o mundo será totalmente destruído, como cristãos não precisamos ter compromisso algum com a realidade presente. E é exatamente isto que está ocorrendo na prática. A igreja evangélica brasileira tem desprezado a realidade, ao definir seu escopo apenas em questões “espirituais”. Para muitos evangélicos, somente a reunião com os irmãos na igreja local diz respeito ao "eschaton". O trabalho, a política, a economia e etc, são vistos apenas como um mal necessário, já que ainda estamos neste mundo. Deste modo, os cristão brasileiros perderam a capacidade de influenciar e transformar a realidade. Porém, será que esta é a compreensão apresentada nas Escrituras?
Ao analisarmos as Escrituras, especialmente o ministério de Jesus nos Evangelhos, veremos que a mensagem principal do nosso Senhor era o Reino de Deus. Em diversas passagens Jesus disse que “o tempo está cumprido e o Reino de Deus está próximo”, como em Marcos 1.15. A expressão “o tempo está cumprido” denota que o Reino veio na própria pessoa de Jesus. Em outro versículo, Mateus 12.28, Jesus afirma: “É chegado o Reino de Deus sobre vós”. Esta passagem das Sagradas Escrituras mostram claramente “que Jesus mesmo inaugurou o Reino de Deus cuja vinda tinha sido predita pelos profetas do Antigo Testamento.” [1] Há aqui então uma superposição de duas eras. “Cristo com a sua ressurreição e ascensão inaugura a nova era, o Reino de Deus já está presente entre nós, entretanto, não em sua plenitude. O mundo futuro entrou na era presente sem aniquilá-la.” [2] A implicação desta verdade é que já podemos gozar na era presente de várias bênçãos do Reino vindouro conquistadas por Jesus no calvário. Entretanto, o Reino de Deus ainda não está em sua plenitude, pois ainda “temos que lutar contra o pecado, ainda temos que resistir ao diabo e ainda vamos morrer.” [3] Está é a denominada “tensão entre o já e o ainda-não”.
A partir da perspectiva bíblica apresentada, podemos inferir que os “últimos dias” começaram com a primeira vinda de Cristo. É a chamada “Escatologia Inaugurada”. Cristo inaugurou o Reino de Deus e a igreja deve agir conforme esta revelação. Como cristão, devemos entender que o escopo da igreja é muito mais amplo que buscar a salvação individual e reunir-se esperando a nova criação. O Reino de Deus diz respeito a nada menos do que TODAS as coisas (Cl 1.20). Então, não devemos entender a relação entre o mundo presente e o vindouro como uma descontinuidade absoluta. Mas, que “há tanto continuidade como descontinuidade entre este mundo e o vindouro. A graça não destrói a natureza, mas restaura.” [4]
A luz destas verdades, podemos concluir que uma correta interpretação escatológica nos leva a uma cosmovisão que não despreza a realidade presente. Os cristãos devem trabalhar para fazer o Reino de Deus presente neste mundo, seja na arte, na política, na economia, na ciência, em todas as esferas da vida! “Temos de fazer o melhor para produzir uma cultura genuinamente cristã” [5], mas com a consciência de que nunca teremos um mundo perfeito até que Cristo volte. Gostaria de terminar com um poema de George Herbert:
"Ensina-me, meu Deus e Rei,
A te ver em todas as coisas,
E, em qualquer coisa que eu fizer,
A fazê-lo como para ti
."

Referências:
[1] HOEKEMA, Anthony. "A Bíblia e o Futuro"
[2] Idem
[3] Idem
[4] Idem
[5] Idem

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Criação, Queda e Redenção

C S Lewis, autor de As crônicas de Narnia disse algo muito interessante:"Eu acredito no cristianismo como acredito que o sol nasce todo dia. Não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo tudo ao meu redor.".
Esta frase é interessante, por que fala uma verdade que está se perdendo nas igrejas contemporâneas: O cristianismo é uma forma de se ver o mundo. Este é um dos fundamentos da essência do cristianismo.
Sabe-se que no inicio criou Deus os céus e a terra, e durante a criação criou Deus o homem que foi feito a sua imagem e semelhança. Neste primeiro momento, o homem foi o mordomo da natureza. Nos primeiros capítulos de gênesis, Deus ordena que o homem cuide da natureza, trabalhe sobre a terra. É o chamado mandato cultural. Sim, quando Deus manda o homem cultivar, está implícito que devemos criar cultura, um conjunto de relações sociais, desenvolver as melhores técnicas para se cultivar o jardim, encher e povoar a terra.
Mas eis que o homem caiu e pecou. E através de um pecado surgiu todos os outros. A partir da queda em Adão e Eva, todos os homens se tornam pecadores, não pelo pecado deles, mas pelo pecado de cada um. Carregamos o "gene" da maldade de tal forma que está escrito em romanos 3.10-18:

"Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.
Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus.
Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.
A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios;
Cuja boca está cheia de maldição e amargura.
Os seus pés são ligeiros para derramar sangue.
Em seus caminhos há destruição e miséria;
E não conheceram o caminho da paz.
Não há temor de Deus diante de seus olhos."

Tal queda afetou o homem em todas as áreas de sua vida, pois todas elas passaram a ser afetadas pelo pecado. O homem foi afastado de Deus. Mas o próprio Deus se Fez carne por nós. E através de sua Graça soberana e segundo o beneplácito de sua vontade ele reconciliou consigo todo aquele que nele crer, e juntamente com eles, todas as áreas da vida.

Paulo afirma no primeiro capitulo de sua carta aos Colossenses, nos versículos de 15 a 20, que Jesus é senhor na criação e na redenção, e que com ele TODAS as coisas foram reconciliadas:

“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse. E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.”


Esta ideia de que Por meio de Jesus, todas as coisas foram reconciliadas, é que deve ser o norte da vida de um cristão. É por meio desta verdade que devemos ver o mundo, e tentar transformá-lo. Devemos nos lembrar de Cristo e ver a criação sendo liberta das amarras da queda, restaurando a vontade original de Deus.
Hoje em dia vemos igrejas tentando se fechar para o mundo, criando uma cultura gospel, uma cultura isolada. Na verdade, se levarmos em conta que em Jesus também é restaurado o mandato cultural, é certo que o cristão deve agir na cultura, nas artes, nas ciências, na economia em todas as áreas da vida a fim de transformá-la.

Esta é a mensagem cristã. Uma mensagem de transformação, não só da vida individual, mas também da sociedade. O amor de Deus não se restringe a nossa eleição e salvação, mas também ao mundo, a natureza e a todas as áreas que lhe aprouve nos mandar fazer a sua vontade.
Para tornar clara esta ideia, tem uma musica que gosto muito, do grupo Palavrantiga, que ilustra bem a tríade CRIAÇÃO-QUEDA-REDENÇÃO.





Yuri Ribeiro Fernandes.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Homossexualismo, cristianismo e laicidade


Já há algum tempo a causa GLBT tem ocupado especial espaço nas discussões da mídia, na política e no meio acadêmico. Na sexta-feira, 17 de junho, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou, após intenso debate e com votação apertada (23 votos a favor, 19 contra e 3 abstenções), uma resolução destinada a promover a igualdade dos indivíduos independentemente da orientação sexual. No Brasil, os grupos de defesa dos direitos dos homossexuais têm lutado em todas as instâncias pela efetivação dos direitos que a Constituição garante a todos os cidadãos. Esta empreitada tem sensibilizado grande parte da sociedade civil. A violência contra os membros da comunidade GLBT ganha destaque estratosférico nos meios de comunicação, basta observar, por exemplo, que - embora estatísticas recentes apontem a ocorrência de cerca de 137 homicídios e 41 estupros por dia no Brasil[1] - a atenção da mídia costuma se voltar durante semanas para um único caso de lesão corporal contra um homossexual. A causa homossexual nunca comoveu tanto quanto agora.
No entanto, nessa legítima batalha pelo reconhecimento de seus direitos, os movimentos homossexuais incomodam grupos religiosos e conservadores que, por força de dogmas históricos, se opõem com veemência às reivindicações da chamada “agenda gay”. No dia 1º de junho, uma manifestação contra o PL 122 (projeto de lei que visa criminalizar qualquer tipo de discriminação contra homossexuais) e contra a decisão do STF (que um mês antes reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo) reuniu cerca 25 mil evangélicos e católicos em frente ao Congresso Nacional. Os manifestantes entregaram para o presidente do Senado um abaixo-assinado com mais de um milhão de assinaturas contra a aprovação do citado projeto de lei. A Marcha para Jesus em São Paulo reuniu outros 5 milhões que se manifestaram no mesmo sentido. No dia 22 de junho, a PEC 23/2007 que visava acrescentar ‘orientação sexual’ no rol das vedações a discriminação da Constituição do Estado do Rio de Janeiro, foi rejeitada pela Assembléia Legislativa do Estado após intensa campanha contrária por parte dos eleitores religiosos.
A acentuada interferência cristã em temas pontuais da política e da atividade legiferante nacional tem levado alguns ateus, agnósticos e materialistas seculares a evocarem a proteção do princípio da laicidade contra a maioria religiosa da população. Existe, entretanto, um grande desconhecimento acerca do conteúdo jurídico desse princípio. A literatura jurídica nacional sobre o tema da laicidade é escassa e as definições populares dadas ao Estado laico tendem a se confundir com o Estado ateu.
A laicidade prevista no art. 19 da CF/88 diz respeito tão somente à separação legal entre igrejas e Estado, este não possui religião oficial e garante a igualdade dos cidadãos de todos os credos perante a lei. A interpretação equivocada da abrangência da laicidade pode levar-nos a repetir erros históricos ao confinar a religião somente dentro dos templos ou exaltá-la à arrogante função de legitimadora do Estado.
Nenhuma pessoa séria e em sã consciência nega o direito dos homossexuais de serem tratados com base na dignidade humana, igualdade e respeito como qualquer outro cidadão hetero. Por outro lado, nenhum homossexual honesto, com pleno domínio das faculdades mentais, nega o direito das pessoas de professarem sua fé e participarem das liturgias de sua crença. Então, qual o motivo de tantas controvérsias e desavenças? De onde vem tanto desentendimento e discórdia?
A problemática que envolve o tema reside na falta de um verdadeiro diálogo entre as partes. A causa da ausência de uma comunicação saudável entre os envolvidos é a adoção de pressupostos absolutizados por ambos os lados. Ao perfilhar preconceitos, tanto os grupos homossexuais quanto os religiosos impedem o que o debate seja arejado e afastam a possibilidade de consenso.
Para melhor elucidação, há exemplos de ambos os lados: primeiro a postura preconceituosa de muitos cristãos que consideram todos os homossexuais pecadores pervertidos que precisam de “umas boas palmadas” – como defende certo deputado federal. Por sua vez, muitos homossexuais (e até mesmo heteros simpatizantes da causa gay) adotam postura igualmente intolerante ao classificarem toda pessoa que emita opinião contrária aos interesses GLBT de homofóbica. Aliás, o termo “homofobia” tornou-se o grande mantra repetido maliciosamente para tentar impor silêncio ao saudável e natural debate que deveria ocorrer em uma democracia.
Além de impedir o diálogo, as posturas intransigentes acirram os ânimos impedindo, assim, a exposição racional das opiniões. Quando um pastor grita aos membros de sua igreja que os homossexuais são inimigos do cristianismo e filhos do demônio, ele induz os fiéis a um comportamento sectário, preconceituoso e homofóbico. Os pseudo-cristãos que agem dessa forma olvidam-se de um dos principais mandamentos do Cristianismo: Amai ao próximo como a si mesmo².Deste modo, conseguem a proeza de construir uma doutrina que é, ao mesmo tempo, herética para o cristianismo e criminosa para o Direito.
É em razão desse tipo de comportamento que muitas pessoas trocam as bolas e também se tornam intolerantes e anticristãos, chegando ao cúmulo de culpar o monoteísmo pela ausência de fraternidade entre os homens. Outros - com parco conhecimento das doutrinas cristãs Romanista e Reformada - utilizam-se de textos do cânon veterotestamentário bíblico (que estabelecem pena de morte para pessoas que pratiquem atos homossexuais) com fito de condenar o cristianismo. Tais textos, dizem respeito às leis da nação de Israel milênios atrás e são de cunho meramente histórico, não normativo. A Bíblia não deixa dúvidas de que os cristãos devem portar-se segundo a retrocitada Lei de Cristo, diversas vezes repetida nas Escrituras³.
A tendência de parte do movimento gay em classificar as pessoas nos estereótipos pré-determinados de “homofóbicos” ou “anti-homofóbicos” é outro complicador, pois obriga todos a chamar de homofobia fatos que não o são. Por exemplo, a repulsa espontânea e natural que muitos heteros sentem ao imaginar a relação de duas pessoas do mesmo gênero, não implica necessariamente nenhuma postura hostil contra os homossexuais enquanto pessoas. Aliás, trata-se de um sentimento que muitos homossexuais também têm pelo intercurso hetero, sem que ninguém os taxe de “heterofóbicos”4
O cristianismo bíblico ensina que a prática de ato homossexual não é agradável perante Deus5 e ressalta o fato de que é anatomicamente não natural, mas preceitua ao mesmo tempo que os homossexuais devem ser amados e acolhidos. Não é possível criminalizar este pensamento, sob pena de violarmos o princípio constitucional pétreo garantidor da liberdade de consciência e crença. Todavia, é também insustentável para um Estado Democrático de Direito que os homossexuais sejam tratados como cidadãos de segunda classe, sem acesso a direitos básicos e essenciais. Não titubeamos em afirmar que a dignidade da pessoa humana deve balizar o exercício do direito à liberdade de expressão.
   É preciso atentar para as pressuposições impeditivas do salutar debate democrático, a fim de possibilitar a construção de um acordo que resguarde tanto o direito de crença e religião quanto a efetivação dos direitos fundamentais para os homossexuais. Ou fazemos dessa forma, ou a questão será resolvida pela lei do mais forte, que instituirá algo parecido com uma cristocracia - para “curar” e catequizar homossexuais; ou com uma homocracia – para salvar os religiosos de si mesmos e corrigir seus supostos “atrasos” ideológicos.

André Storck

1.         Dados retirados do site do Ministério da Justiça. Mapa da violência no Brasil 2011: http://portal.mj.gov.br/data/Pages/MJEBAC1DBEITEMIDDD6FC83AAA9443839282FD58A5474435PTBRNN.htm
2.         Evangelho segundo Mateus, capítulo 22, versículo 39.
3.         Carta de Paulo aos Romanos 10:4. Carta de Paulo aos Gálatas 3:23-25 e 6:2. Carta de Paulo aos Efésios 2:15. Evangelho segundo Mateus 22:37-40 entre outros.
4.         Idéia cunhada por Carvalho O. -  http://www.olavodecarvalho.org/semana/070329jb.html
5.         Nesse sentido: Carta de Paulo aos Romanos 1:18-32. Primeira Carta de Paulo ao Coríntios 6:9-10. E o princípio que se extrai de Levíticos 18:22 e 20:13, que deve ser interpretado segundo a Lei de Cristo, condenando-se o ato em si, mas amando as pessoas.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Glutões e Anorexos

Como nós cristãos devemos nos relacionar com a cultura? Devemos absorver tudo sem nenhum critério, já que tudo é diversão? Ou devemos rejeitar toda cultura, menos a produzida por cristãos? Existem aqueles cristãos que absorvem todos os tipos de produção cultural, desde músicas, filmes, novelas... E por considerarem esses entretenimentos apenas como diversão, aceitam tudo sem nenhuma espécie de crítica, afirmando: “Eu só quero me divertir! Você não deveria levar isso tão a sério! É apenas uma música!” Podemos chamar este tipo de cristão de “glutão cultural”.Entretanto, há “a manifestação dois reinos antagônicos, um fundado no amor de Deus e no amor a si mesmo e ao próximo, e outro fundado no poder de Satanás, na idolatria e no egoísmo humano.” Como cristãos, não podemos desprezar esta antítese e sermos coniventes com toda e qualquer produção cultural que desrespeite os princípios do Reino de Deus. Pois como nos é dito em 2 Coríntios 6:14 “Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunhão, da luz com as trevas?”Por outro lado, alguns cristão rejeitam absolutamente qualquer produção cultural feita por não-cristãos. E afirmam: “Devemos ser separados! Tudo que o ímpio produz é pecaminoso! Escutar música secular é perda de tempo!” Esses podemos denominar de “anorexos culturais”.O problema dessa atitude é esquecer-se da maravilhosa doutrina da Graça Comum. A doutrina afirma, em linhas gerais, que Deus na sua misericórdia, por meio do Espírito Santo, concede favor aos ímpios para que eles possam produzir coisas boas, já que o Sol nasce tanto para bons, quanto para maus (Mt 5.45). Como afirmou Calvino “Se reputarmos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade, a própria verdade, onde quer que ela apareça, não a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus. Ora, nem se menosprezam os dons do Espírito sem desprezar-se e afrontar-se ao próprio Espírito.” (Inst., II, 15). Além do mais, os anorexos culturais correm o risco de ser tornarem alienados em relação aos outros e ao contexto que vive, e muitas vezes aceitar de forma acrítica várias heresias com o “rótulo” de cristãs.
Portanto, não devemos ser nem glutões, nem anorexos culturais, mas adotar uma posição equilibrada pautada nos princípios da Palavra de Deus, ou seja “...tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento.” (Fp. 4.8)



Leonardo M. Verona

Fonte: Cinema e Fé Cristã, Brian Godawa, Ultimato

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Cosmovisão: Vai uma ai?

Cosmovisão. Querendo ou não você tem uma e tem que aprender a conviver com isso. Muitas vezes, ou melhor, na maioria das vezes as pessoas não têm ideia de que tem uma cosmovisão. Mas afinal, o que é uma cosmovisão?
O termo teria surgido com Kant, em sua obra Critica do Julgamento. Kant utilizou o termo Weltanschauung (Welt significamundo e Anschauung significapercepção), para designar a capacidade do homem de intuir o mundo a medida em que ele é aprendido pelo sentidos. Mas com o tempo, tal conceito foi tomando um sentido mais amplo, "passando ser atribuído como uma concepção do universo a partir do homem conhecedor moralmente livre".¹
Desde esta aplicação do termo, a cosmovisão passou a ser um dos conceitos centrais de discussão na filosofia, sobretudo na Europa. Abaixo, vou listar alguma das principais aplicações do termo:

George Wilhem Friedeich Hegel (1770-1831): A cosmovisão é a maneira como uma pessoa ou um grupo enxerga o mundo em contextos geográficos e históricos especificos. Para ele, a cosmovisão se expressa eternamente nas formas artísticas compartilhadas por uma nação ou etnia.

Soren Kierkegaard (1813-1855) Ele empregava o termo cosmovisão no sentido de Visão de vida. Para ele, a cosmovisão seria uma reflexão existencial sobre o sentido da experiência individual e sua articulação com visão coerente e convicção pessoal.

Há ainda outra aplicações importantes, mas já dá para perceber que cosmovisão é um termo que se tornou muito importante para a filosofia. Podemos chegar a uma definição coerente do termo, se assumirmos que cosmovisão não significa apenas uma visão ou concepção de mundo, mas também o se posicionar e tomar uma atitude diante do mundo.
Desta forma, o conceito de cosmovisão não é abstrato, mas sim uma significação do ser no mundo.
Materialismo, idealismo, cristianismo e quase tudo aquilo que termina com ismo, em geral representa uma cosmovisão. O cristianismo, tem se apropriado do termo e o utilizado de forma bem interessante. No entanto este vai ser o tema de outro post.


Me utilizei para produzir este post do artigo "Cosmovisão: Evolução do conceito e aplicação Cristã" do teórico Rodolfo Amorin, que pode ser encontrado no livro "Cosmovisão Cristã e transformação" da editora Ultimato.

sábado, 9 de abril de 2011

Para começo de conversa...

"Eu acredito no cristianismo como acredito que o sol nasce todo dia. Não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo tudo ao meu redor.".

Foi desta forma que C.S Lewis, autor de as Crônicas de Narnia e do livro Cristianismo puro e simples resumiu a sua relação com o cristianismo.
Mais do que um conjunto de dogmas, o cristianismo é uma forma de ver o mundo. Através do Cristianismo podemos ver todas as coisas. Enfim, o cristianismo é uma cosmovisão.
O conceito de cosmovisão é complexo, e no decorrer das postagens vamos esclarecer cada vez mais este termo, mas por enquanto podemos dizer que a cosmovisão é a lente pela qual enxergamos todas as coisas. Através desta lente, que pode tanto distorcer quanto clarear a realidade, é que nos posicionamos diante do mundo e vivemos.
O objetivo deste blog é compreender a cosmovisão genuinamente cristã de cunho calvinista e reformado, popularizar este conceito e mostrar as idéias e os resultados do Grupo de Estudos em Cosmovisão Cristã, formada por membros da Igreja Presbiteriana do Eldorado, localizada em Contagem.
Nossa pretensão é articular o cristianismo aos conceitos de cultura, de cosmovisão e de sociedade, e mostra a aplicabilidade da cosmovisão em todas as áreas da vida humana. Para isso usamos como referências teóricas os estudos do neocalvinismo como Abraham Kuyper, Hermam Dooyweerd e Francis Schaeffer, que fizeram uma releitura da doutrina calvinista e agiram com o intuito de reconstruir a influência desta doutrina na sociedade.
Essa é a nossa missão, se juntar a Abraham Kuyper, Schaeffer e a muitos outros que querem restaurar a fé cristã e salvá-la, em um mundo, onde cada vez mais a fé se perde e os valores morais se encontram mais relativos.