sábado, 30 de julho de 2011

Calvino, Genebra e o fim dos tempos!


Muitas vezes olhamos para o mundo e pensamos: Não tem jeito. O que vemos? Vemos pessoas se alienando através da mídia, vemos pessoas passando fome, vemos jovens perdendo suas vidas com práticas que destroem seu corpo e sua mente. E não é só isso, vemos uma proliferação de igrejas corruptas, seitas apóstatas e crentes que ao verem tais situações se omitem. Muitos de nós pensamos: “é o fim dos tempos! É o sinal!” e não fazemos nada para mudar a situação, Afinal, é esta a vontade de Deus e estes são os teus planos! Eu também pensava assim, mas será que esta forma de pensar está correta?
Desde o dia em que Jesus subiu aos céus, as pessoas aguardam ansiosamente a sua segunda vinda! Já se perdeu as contas de quantas vezes agendaram a segunda vinda (geralmente o fazem nos finais de século e milênio...)! Afinal, por que tanta vontade de ver Cristo novamente? Simples, desde Adão o mundo vive em uma “disposição mental reprovável” (Rm 1:28~32), de tal forma que sempre houve pecado, morte e desespero. Ao ver isto a igreja deve sim clamar por Cristo! Mas não devemos apenas clamar por Cristo, mas devemos também seguir o seu mandamento de sermos “Sal na terra” e “Luz no mundo”.
Ao ler um pouco sobre o ministério de Calvino em Genebra, no livro “Venha o Teu reino”, pude refletir um pouco sobre o mandamento de ser sal na terra. Conhecemos Calvino muito por sua brilhante teologia, mas pouco o conhecemos pelos seus feitos em Genebra. Vejamos primeiro como era a Genebra pré-calvino: Uma igreja corrupta, que literalmente vendia a salvação, uma situação desesperadora na área social e na área econômica e ainda havia a possibilidade de uma invasão a qualquer momento. Assim como hoje, e como sempre, o pecado reinava em todas as áreas da vida, e a apostasia era talvez, maior que a de hoje.
Calvino simplesmente restaurou Genebra. Seu instrumento? A Palavra de Deus! Através das conversões, as pessoas ficaram mais interessadas em ler a palavra de Deus, de forma que as pessoas não só aprenderam a ler como ensinaram os seus filhos a ler e a perseverar nos caminhos de Deus. Calvino erradicou a pobreza com propostas de distribuição de reino, e fixando a taxa de juros para 4%. Seu ministério foi marcado pela dissociação entre o estado e a igreja, sendo desta forma, um dos primeiros a efetivamente “instaurar” um estado laico (bem diferente do estado moderno, concordo). Ele ensinou as pessoas sobre como o evangelho é integral e faz parte de todas as áreas da vida, ensinando que Deus concedeu a cada um a sua vocação, e que cada trabalho é feito para a glória d’Ele, colocando em prática o que mais tarde seria chamado de ética protestante. As pessoas foram ensinadas a se defender, ao mesmo tempo que foram ensinadas que somente o Senhor dos senhores é que pode defendê-los! Calvino conseguiu resolver, no território de Genebra, muitos problemas que a maioria dos Humanistas e secularistas perdem o sono tentando resolver!
É claro que a estadia de Calvino como pastor de Genebra foi marcada de erros e acertos, e nem tudo durante o seu ministério foi bom. Mas é inegável o progresso que a cidade teve, e que o caso de Genebra foi um exemplo maravilhoso da transformação que a palavra de Deus e a atuação do Espírito Santo podem fazer em uma sociedade inteira! Genebra foi a luz da Europa, brilhando em cima do monte, como a primeira cidade totalmente reconstruída sobre a égide do evangelho!
Hoje em dia vemos a sociedade em decadência e pensamos é sinal do fim dos tempos, não tem mais concerto – A mesma desculpa dada por muitos cristão na época da reforma. Devemos ao exemplo de Calvino, ver a situação do mundo atual e clamar por Cristo, mas não apenas clamar, mas também Agir por Cristo. Devemos seguir o exemplo de Calvino e tentar reformar a nossa sociedade e a nossa igreja no Evangelho de Cristo! É possível? Com um mandamento de Deus de sermos sal e luz, e com o Espírito Santo ao nosso lado, quem poderá dizer que é impossível?

Yuri R. Fernandes

fontes:
Venha o Teu reino, da editora Jocum
Calvino e a resistência ao estado, de Armando A. Silvestre, editora Mackenzie.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Escatologia e Visão de Mundo

por Leonardo M. Verona


O tema escatologia vem ganhando destaque nos últimos cinquenta anos, mormente no evangelicalismo brasileiro. Vários livros com esta temática foram lançados no Brasil. Entretanto, apesar deste crescente interesse, a escatologia ainda é vista, de maneira geral, como um tema desnecessário, que serve apenas para satisfazer a curiosidade das mentes mais aguçadas. Mas o que muitos não sabem é a estreita relação entre a nossa compreensão escatológica e como nós cristãos encaramos o mundo, seja individualmente ou como igreja.
O termo “escatologia” deriva de duas palavras gregas: "eschatos" e "logos". "Escathos" significa última, e "logos" estudo. Então podemos entender escatologia como um estudo acerca das últimas coisas. Contudo, quando serão os últimos dias? É um período reservado somente para o futuro? Qual a relação entre este mundo e o vindouro? Haverá uma continuidade?
A grande maioria dos evangélicos brasileiros têm respondido estas questões com o entendimento de que os últimos dias acontecerão apenas num período ainda futuro. E após este tempo o mundo será completamente destruído, não havendo nenhuma continuidade entre este mundo e o mundo porvir. A implicação deste entendimento escatológico será o desprezo pelo mundo presente. O raciocínio é o seguinte: já que o mundo será totalmente destruído, como cristãos não precisamos ter compromisso algum com a realidade presente. E é exatamente isto que está ocorrendo na prática. A igreja evangélica brasileira tem desprezado a realidade, ao definir seu escopo apenas em questões “espirituais”. Para muitos evangélicos, somente a reunião com os irmãos na igreja local diz respeito ao "eschaton". O trabalho, a política, a economia e etc, são vistos apenas como um mal necessário, já que ainda estamos neste mundo. Deste modo, os cristão brasileiros perderam a capacidade de influenciar e transformar a realidade. Porém, será que esta é a compreensão apresentada nas Escrituras?
Ao analisarmos as Escrituras, especialmente o ministério de Jesus nos Evangelhos, veremos que a mensagem principal do nosso Senhor era o Reino de Deus. Em diversas passagens Jesus disse que “o tempo está cumprido e o Reino de Deus está próximo”, como em Marcos 1.15. A expressão “o tempo está cumprido” denota que o Reino veio na própria pessoa de Jesus. Em outro versículo, Mateus 12.28, Jesus afirma: “É chegado o Reino de Deus sobre vós”. Esta passagem das Sagradas Escrituras mostram claramente “que Jesus mesmo inaugurou o Reino de Deus cuja vinda tinha sido predita pelos profetas do Antigo Testamento.” [1] Há aqui então uma superposição de duas eras. “Cristo com a sua ressurreição e ascensão inaugura a nova era, o Reino de Deus já está presente entre nós, entretanto, não em sua plenitude. O mundo futuro entrou na era presente sem aniquilá-la.” [2] A implicação desta verdade é que já podemos gozar na era presente de várias bênçãos do Reino vindouro conquistadas por Jesus no calvário. Entretanto, o Reino de Deus ainda não está em sua plenitude, pois ainda “temos que lutar contra o pecado, ainda temos que resistir ao diabo e ainda vamos morrer.” [3] Está é a denominada “tensão entre o já e o ainda-não”.
A partir da perspectiva bíblica apresentada, podemos inferir que os “últimos dias” começaram com a primeira vinda de Cristo. É a chamada “Escatologia Inaugurada”. Cristo inaugurou o Reino de Deus e a igreja deve agir conforme esta revelação. Como cristão, devemos entender que o escopo da igreja é muito mais amplo que buscar a salvação individual e reunir-se esperando a nova criação. O Reino de Deus diz respeito a nada menos do que TODAS as coisas (Cl 1.20). Então, não devemos entender a relação entre o mundo presente e o vindouro como uma descontinuidade absoluta. Mas, que “há tanto continuidade como descontinuidade entre este mundo e o vindouro. A graça não destrói a natureza, mas restaura.” [4]
A luz destas verdades, podemos concluir que uma correta interpretação escatológica nos leva a uma cosmovisão que não despreza a realidade presente. Os cristãos devem trabalhar para fazer o Reino de Deus presente neste mundo, seja na arte, na política, na economia, na ciência, em todas as esferas da vida! “Temos de fazer o melhor para produzir uma cultura genuinamente cristã” [5], mas com a consciência de que nunca teremos um mundo perfeito até que Cristo volte. Gostaria de terminar com um poema de George Herbert:
"Ensina-me, meu Deus e Rei,
A te ver em todas as coisas,
E, em qualquer coisa que eu fizer,
A fazê-lo como para ti
."

Referências:
[1] HOEKEMA, Anthony. "A Bíblia e o Futuro"
[2] Idem
[3] Idem
[4] Idem
[5] Idem

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Criação, Queda e Redenção

C S Lewis, autor de As crônicas de Narnia disse algo muito interessante:"Eu acredito no cristianismo como acredito que o sol nasce todo dia. Não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo tudo ao meu redor.".
Esta frase é interessante, por que fala uma verdade que está se perdendo nas igrejas contemporâneas: O cristianismo é uma forma de se ver o mundo. Este é um dos fundamentos da essência do cristianismo.
Sabe-se que no inicio criou Deus os céus e a terra, e durante a criação criou Deus o homem que foi feito a sua imagem e semelhança. Neste primeiro momento, o homem foi o mordomo da natureza. Nos primeiros capítulos de gênesis, Deus ordena que o homem cuide da natureza, trabalhe sobre a terra. É o chamado mandato cultural. Sim, quando Deus manda o homem cultivar, está implícito que devemos criar cultura, um conjunto de relações sociais, desenvolver as melhores técnicas para se cultivar o jardim, encher e povoar a terra.
Mas eis que o homem caiu e pecou. E através de um pecado surgiu todos os outros. A partir da queda em Adão e Eva, todos os homens se tornam pecadores, não pelo pecado deles, mas pelo pecado de cada um. Carregamos o "gene" da maldade de tal forma que está escrito em romanos 3.10-18:

"Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.
Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus.
Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.
A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios;
Cuja boca está cheia de maldição e amargura.
Os seus pés são ligeiros para derramar sangue.
Em seus caminhos há destruição e miséria;
E não conheceram o caminho da paz.
Não há temor de Deus diante de seus olhos."

Tal queda afetou o homem em todas as áreas de sua vida, pois todas elas passaram a ser afetadas pelo pecado. O homem foi afastado de Deus. Mas o próprio Deus se Fez carne por nós. E através de sua Graça soberana e segundo o beneplácito de sua vontade ele reconciliou consigo todo aquele que nele crer, e juntamente com eles, todas as áreas da vida.

Paulo afirma no primeiro capitulo de sua carta aos Colossenses, nos versículos de 15 a 20, que Jesus é senhor na criação e na redenção, e que com ele TODAS as coisas foram reconciliadas:

“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse. E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.”


Esta ideia de que Por meio de Jesus, todas as coisas foram reconciliadas, é que deve ser o norte da vida de um cristão. É por meio desta verdade que devemos ver o mundo, e tentar transformá-lo. Devemos nos lembrar de Cristo e ver a criação sendo liberta das amarras da queda, restaurando a vontade original de Deus.
Hoje em dia vemos igrejas tentando se fechar para o mundo, criando uma cultura gospel, uma cultura isolada. Na verdade, se levarmos em conta que em Jesus também é restaurado o mandato cultural, é certo que o cristão deve agir na cultura, nas artes, nas ciências, na economia em todas as áreas da vida a fim de transformá-la.

Esta é a mensagem cristã. Uma mensagem de transformação, não só da vida individual, mas também da sociedade. O amor de Deus não se restringe a nossa eleição e salvação, mas também ao mundo, a natureza e a todas as áreas que lhe aprouve nos mandar fazer a sua vontade.
Para tornar clara esta ideia, tem uma musica que gosto muito, do grupo Palavrantiga, que ilustra bem a tríade CRIAÇÃO-QUEDA-REDENÇÃO.





Yuri Ribeiro Fernandes.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Homossexualismo, cristianismo e laicidade


Já há algum tempo a causa GLBT tem ocupado especial espaço nas discussões da mídia, na política e no meio acadêmico. Na sexta-feira, 17 de junho, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou, após intenso debate e com votação apertada (23 votos a favor, 19 contra e 3 abstenções), uma resolução destinada a promover a igualdade dos indivíduos independentemente da orientação sexual. No Brasil, os grupos de defesa dos direitos dos homossexuais têm lutado em todas as instâncias pela efetivação dos direitos que a Constituição garante a todos os cidadãos. Esta empreitada tem sensibilizado grande parte da sociedade civil. A violência contra os membros da comunidade GLBT ganha destaque estratosférico nos meios de comunicação, basta observar, por exemplo, que - embora estatísticas recentes apontem a ocorrência de cerca de 137 homicídios e 41 estupros por dia no Brasil[1] - a atenção da mídia costuma se voltar durante semanas para um único caso de lesão corporal contra um homossexual. A causa homossexual nunca comoveu tanto quanto agora.
No entanto, nessa legítima batalha pelo reconhecimento de seus direitos, os movimentos homossexuais incomodam grupos religiosos e conservadores que, por força de dogmas históricos, se opõem com veemência às reivindicações da chamada “agenda gay”. No dia 1º de junho, uma manifestação contra o PL 122 (projeto de lei que visa criminalizar qualquer tipo de discriminação contra homossexuais) e contra a decisão do STF (que um mês antes reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo) reuniu cerca 25 mil evangélicos e católicos em frente ao Congresso Nacional. Os manifestantes entregaram para o presidente do Senado um abaixo-assinado com mais de um milhão de assinaturas contra a aprovação do citado projeto de lei. A Marcha para Jesus em São Paulo reuniu outros 5 milhões que se manifestaram no mesmo sentido. No dia 22 de junho, a PEC 23/2007 que visava acrescentar ‘orientação sexual’ no rol das vedações a discriminação da Constituição do Estado do Rio de Janeiro, foi rejeitada pela Assembléia Legislativa do Estado após intensa campanha contrária por parte dos eleitores religiosos.
A acentuada interferência cristã em temas pontuais da política e da atividade legiferante nacional tem levado alguns ateus, agnósticos e materialistas seculares a evocarem a proteção do princípio da laicidade contra a maioria religiosa da população. Existe, entretanto, um grande desconhecimento acerca do conteúdo jurídico desse princípio. A literatura jurídica nacional sobre o tema da laicidade é escassa e as definições populares dadas ao Estado laico tendem a se confundir com o Estado ateu.
A laicidade prevista no art. 19 da CF/88 diz respeito tão somente à separação legal entre igrejas e Estado, este não possui religião oficial e garante a igualdade dos cidadãos de todos os credos perante a lei. A interpretação equivocada da abrangência da laicidade pode levar-nos a repetir erros históricos ao confinar a religião somente dentro dos templos ou exaltá-la à arrogante função de legitimadora do Estado.
Nenhuma pessoa séria e em sã consciência nega o direito dos homossexuais de serem tratados com base na dignidade humana, igualdade e respeito como qualquer outro cidadão hetero. Por outro lado, nenhum homossexual honesto, com pleno domínio das faculdades mentais, nega o direito das pessoas de professarem sua fé e participarem das liturgias de sua crença. Então, qual o motivo de tantas controvérsias e desavenças? De onde vem tanto desentendimento e discórdia?
A problemática que envolve o tema reside na falta de um verdadeiro diálogo entre as partes. A causa da ausência de uma comunicação saudável entre os envolvidos é a adoção de pressupostos absolutizados por ambos os lados. Ao perfilhar preconceitos, tanto os grupos homossexuais quanto os religiosos impedem o que o debate seja arejado e afastam a possibilidade de consenso.
Para melhor elucidação, há exemplos de ambos os lados: primeiro a postura preconceituosa de muitos cristãos que consideram todos os homossexuais pecadores pervertidos que precisam de “umas boas palmadas” – como defende certo deputado federal. Por sua vez, muitos homossexuais (e até mesmo heteros simpatizantes da causa gay) adotam postura igualmente intolerante ao classificarem toda pessoa que emita opinião contrária aos interesses GLBT de homofóbica. Aliás, o termo “homofobia” tornou-se o grande mantra repetido maliciosamente para tentar impor silêncio ao saudável e natural debate que deveria ocorrer em uma democracia.
Além de impedir o diálogo, as posturas intransigentes acirram os ânimos impedindo, assim, a exposição racional das opiniões. Quando um pastor grita aos membros de sua igreja que os homossexuais são inimigos do cristianismo e filhos do demônio, ele induz os fiéis a um comportamento sectário, preconceituoso e homofóbico. Os pseudo-cristãos que agem dessa forma olvidam-se de um dos principais mandamentos do Cristianismo: Amai ao próximo como a si mesmo².Deste modo, conseguem a proeza de construir uma doutrina que é, ao mesmo tempo, herética para o cristianismo e criminosa para o Direito.
É em razão desse tipo de comportamento que muitas pessoas trocam as bolas e também se tornam intolerantes e anticristãos, chegando ao cúmulo de culpar o monoteísmo pela ausência de fraternidade entre os homens. Outros - com parco conhecimento das doutrinas cristãs Romanista e Reformada - utilizam-se de textos do cânon veterotestamentário bíblico (que estabelecem pena de morte para pessoas que pratiquem atos homossexuais) com fito de condenar o cristianismo. Tais textos, dizem respeito às leis da nação de Israel milênios atrás e são de cunho meramente histórico, não normativo. A Bíblia não deixa dúvidas de que os cristãos devem portar-se segundo a retrocitada Lei de Cristo, diversas vezes repetida nas Escrituras³.
A tendência de parte do movimento gay em classificar as pessoas nos estereótipos pré-determinados de “homofóbicos” ou “anti-homofóbicos” é outro complicador, pois obriga todos a chamar de homofobia fatos que não o são. Por exemplo, a repulsa espontânea e natural que muitos heteros sentem ao imaginar a relação de duas pessoas do mesmo gênero, não implica necessariamente nenhuma postura hostil contra os homossexuais enquanto pessoas. Aliás, trata-se de um sentimento que muitos homossexuais também têm pelo intercurso hetero, sem que ninguém os taxe de “heterofóbicos”4
O cristianismo bíblico ensina que a prática de ato homossexual não é agradável perante Deus5 e ressalta o fato de que é anatomicamente não natural, mas preceitua ao mesmo tempo que os homossexuais devem ser amados e acolhidos. Não é possível criminalizar este pensamento, sob pena de violarmos o princípio constitucional pétreo garantidor da liberdade de consciência e crença. Todavia, é também insustentável para um Estado Democrático de Direito que os homossexuais sejam tratados como cidadãos de segunda classe, sem acesso a direitos básicos e essenciais. Não titubeamos em afirmar que a dignidade da pessoa humana deve balizar o exercício do direito à liberdade de expressão.
   É preciso atentar para as pressuposições impeditivas do salutar debate democrático, a fim de possibilitar a construção de um acordo que resguarde tanto o direito de crença e religião quanto a efetivação dos direitos fundamentais para os homossexuais. Ou fazemos dessa forma, ou a questão será resolvida pela lei do mais forte, que instituirá algo parecido com uma cristocracia - para “curar” e catequizar homossexuais; ou com uma homocracia – para salvar os religiosos de si mesmos e corrigir seus supostos “atrasos” ideológicos.

André Storck

1.         Dados retirados do site do Ministério da Justiça. Mapa da violência no Brasil 2011: http://portal.mj.gov.br/data/Pages/MJEBAC1DBEITEMIDDD6FC83AAA9443839282FD58A5474435PTBRNN.htm
2.         Evangelho segundo Mateus, capítulo 22, versículo 39.
3.         Carta de Paulo aos Romanos 10:4. Carta de Paulo aos Gálatas 3:23-25 e 6:2. Carta de Paulo aos Efésios 2:15. Evangelho segundo Mateus 22:37-40 entre outros.
4.         Idéia cunhada por Carvalho O. -  http://www.olavodecarvalho.org/semana/070329jb.html
5.         Nesse sentido: Carta de Paulo aos Romanos 1:18-32. Primeira Carta de Paulo ao Coríntios 6:9-10. E o princípio que se extrai de Levíticos 18:22 e 20:13, que deve ser interpretado segundo a Lei de Cristo, condenando-se o ato em si, mas amando as pessoas.