quarta-feira, 6 de março de 2013

LORENA CHAVES: UMA RESPOSTA À ESTÉTICA NARCISISTA

por Leonardo Verona


Eis que saiu o tão esperado CD da Lorena Chaves! Como já era de se esperar, o álbum é sensacional! Há muito tempo esperava por músicas assim de um artista do meio evangélico. As canções deste novo CD, além de passar por cima da falsa barreira gospel/secular, consegue romper com a estética narcisista, que domina o cenário da arte hodierna. Essa nova obra o faz interpretando Graça não como um mero acréscimo à natureza, mas como um retorno ao propósito original de Deus para a criação e para a verdadeira humanidade. Explico...

Desde a modernidade, a cosmovisão que rege a sociedade ocidental é basicamente um dualismo entre Liberdade e Natureza. No andar inferior encontra-se a natureza (física, ciências sociais, psicologia e etc), que caracteriza-se pelo ideal de controle científico, interpretando o Universo como um sistema fechado, uma grande máquina. E no andar superior está a liberdade (moral, Deus, sentido, amor e etc), que é movida pelo ideal de personalidade. Desde o Renascimento o homem enfatizou sua liberdade e a sua autonomia, utilizando-se do controle científico para dominar a natureza e para satisfazer as suas vontades. Não obstante, com o decorrer do tempo, o homem não logrou êxito, por meio da ciência, em exercer seu ideal humanista de liberdade. Por exemplo, o homem não conseguiu tornar-se imortal; não conseguiu resolver o problema da maldade do mundo (ao invés disso, o homem utilizou todo o seu conhecimento científico para a destruição nas duas guerras mundiais); além dos problemas ambientais causados pelas intervenções do homem na natureza. Ironicamente, o controle mecanicista da natureza levou o homem ao determinismo, tornando-o apenas mais uma peça da engrenagem, minando assim a sua liberdade. Nas palavras de Francis Schaeffer, a natureza devorou a liberdade. Logo, o pessimismo tomou conta do andar inferior (natureza). A vida, o Universo e tudo que existe perdeu o sentido de ser.
Para escapar deste problema, a sociedade hiper-rmoderna (pós-moderna), de uma maneira desesperada deu um salto irracional ao andar superior (Liberdade), pois racionalmente, dentro deste dualismo, seria impossível sustentar um sentido para tudo que existe e para a própria liberdade. Uma das formas de dar esse salto é voltando-se para si mesmo. Como não se pode ter mais confiança nos aspectos externos, o homem agora entra em um processo de ensimesmamento, para dar sentido à sua vida. É aqui que entra a estética narcisista. O homem rejeita a dádiva da criação, já que para ele o mundo não têm sentido. Por isso, o homem pós-moderno parte para busca e repetições de sensações que o agradam para fugir da realidade e assim ter uma percepção temporária de que sua vida tem algum valor. A arte hoje, em sua grande maioria, busca apenas a repetição de sensações, e não têm nada a dizer sobre uma realidade objetiva, provida de significado.
E qual foi a resposta dos cristãos a essa estética? Na verdade não houve resposta e sim um acordo tácito com relação ao andar inferior. Os cristãos assumiram o mesmo pessimismo da sociedade no andar da natureza. Por meio de um cristianismo que enfatiza apenas um céu etéreo, em detrimento de um mundo que será destruído, os evangélicos rejeitaram a dádiva da criação e também deram um salto irracional ao andar superior, que neste caso é representado pela Graça. No andar inferior estão as coisas do dia a dia (a natureza, o trabalho, as ciências, a política, arte secular, teologia/doutrina e etc.) e no andar superior, onde supostamente tudo faz sentido, estão as coisas relacionadas à Graça (Deus, Jesus, igreja, arte gospel e etc.). Percebam que a teologia e a doutrina foram colocadas no andar inferior, pois elas envolvem a racionalidade, portanto, são marcadas também pelo pessimismo (a famosa desculpa da letra mata, já foi a relação entre as experiências e a doutrina foi esquecida). Logo, a grande maioria dos evangélicos vivem nessa dicotomia, trabalham a semana inteira em um mundo sem sentido e opaco, e dão o seu salto irracional no domingo à noite durante o "louvorzão". As músicas ditas "gospel", em geral, são marcadas pelo subjetivismo, pela ênfase no "eu" e pela repetição de sensações. Assim como a arte "secular", a arte gospel, de modo geral, não tem nada a dizer da realidade objetiva da criação.

É nesse sentido que afirmo, sem medo de errar, que o CD da Lorena Chaves rompe com a estética narcisista, já que nos abre a percepção do divino na criação. Logo, nas palavras de Calvin Seerveld, este tipo de "arte captura significados condensando-os em um artefato alusivo, que abre uma janela de percepção. Ela mostra o mundo por analogias estéticas concretas." Logo, não é como a arte narcisista, onde todas as referências são subjetivistas, expressivistas e circulares. Poderia citar várias músicas do CD onde Lorena Chaves faz isso, mas vou destacar aqui a música "Amor que eu quero", onde compositora descreve um cenário que fala da natureza e das coisas do dia a dia; como a luz do Sol entrando pela cortina aberta, o café na mesa, as frutas nas árvores, o jantar. E relaciona tudo isso com o carinho, a paz e o amor. Percebam que não existe separação entre os dois andares, mas um entrelaçamento entre eles, mostrando uma realidade integral.
Termino com a letra dessa canção:
"São seis horas da manhã,
logo abre a cortina deixando o sol entrar,
ela o acorda com um beijo, ele responde com desejo, sorriso se abre no olhar
o café já está na mesa, na parede o retrato enfeita a sala de estar
Lá fora as frutas da estação, dão um tom certo pra canção que eu resolvi cantar
A noite chega de mansinho ela prepara o jantar cheiro de amor no ar
Ele aproxima com carinho declara um verso ao pé do ouvido diz como é bom amar
O amor que eu quero é assim
Amor que faz dentro de mim
Crescer a paz o amor demais
Amor sem fim
O amor que eu quero é assim
Em tom sincero diz que sim
E leva toda ilusão do velho amor
Casa pequena mas tão grande
Lá não faz frio e não há dor de uma desilusão
pois a lareira está acesa, mandando embora a tristeza
Queimando até se dissipar"


Recomendo a todos que conheçam o trabalho de Lorena Chaves. O CD já está disponível no iTunes (CD Lorena Chaves).



REFERÊNCIAS:
- Palestra "A Teologia Natural e a tarefa do artista cristão contemporâneo", do Guilherme de Carvalho
- Schaeffer, F. Morte da Razão. São Paulo: ABU.
- Schaeffer, F. O Deus que Intervém. São Paulo: Cultura Cristã.