quarta-feira, 1 de novembro de 2017

500 anos da Reforma: e agora?

Por Yuri Fernandes

Jan van der HEYDEN (1637-1712) Delft


500 anos da Reforma Protestante que abalou o mundo. Mas em que medida será que o mundo foi abalado por ela? Está aí algo que é preciso ser avaliado pela nossa geração, que recebeu a Reforma como um legado.

Nos últimos 500 anos o mundo mudou bastante. Por um lado, porque a Reforma, que começou em alguns pontos da Europa, espalhou-se por lá e também ganhou terreno fértil nos Estados Unidos. E por muito tempo essa porção norte do mundo foi o coração pulsante do cristianismo. Era ali que as coisas aconteciam. Só que o mundo se tornou mais secular nessas regiões. A fé vibrante se esfriou por conta do liberalismo e deu lugar à apostasia. O secularismo que toma conta do mundo ocidental tem se mostrado extremamente relativista e criado uma geração sem referenciais absolutos.

Por outro lado, o coração pulsante do cristianismo tem se deslocado agora para o sul global. Na América do Sul e na África, o cristianismo tem crescido cada vez mais – sim, com muito joio em meio ao trigo, mas definitivamente é uma igreja em ascensão. A Coreia do Sul é a terceira maior força missionária do mundo e o país mais protestante da Ásia, em números relativos. Apesar de o cristianismo na China ser pequeno em relação ao número de habitantes, é a religião que mais cresce no país – há quem diga que será, em poucos anos, o país com mais cristão em números absolutos.

Contudo, a região da chamada Janela 10/40, que se estende do norte da África até boa parte da Ásia e do Oriente Médio, é a região menos evangelizada do mundo. Coincidentemente é onde ficam quase 2/3 da humanidade e o berço das três maiores religiões depois do cristianismo: islamismo, hinduísmo e budismo. Também é o lugar com os menores índices de desenvolvimento humano do mundo. Ou seja: um mar de idolatria, perseguição e hostilidade.

O mundo também mudou no aspecto tecnológico. Na época da Reforma tínhamos a prensa gráfica de Gutemberg e algumas estradinhas que interligavam a Europa – e os navios despontando no horizonte da expansão do mundo conhecido. Hoje vivemos em um mundo globalizado, onde tudo é conectado com um clique e é muito mais fácil se deslocar entre países. Grande parte da população está migrando para grandes cidades, fato que gera mais conexão, porém também mais problemas urbanos e sociais.

Resumindo: estamos num mundo onde o cristianismo agora tem sua principal expressão em países menos influentes no cenário mundial. O Ocidente é secularizado e relativista, o Oriente é extremamente hostil e fechado e o mundo, no geral, é hiperconectado.
À luz desse quadro podemos pensar o que significa ser reformado nos dias de hoje e o que fazer com o legado que nos foi dado. Aqui é preciso resgatar um conceito muito importante: a missionalidade. Ser missional é encarar esse legado de fé que temos como um compromisso com o testemunho cristão em todas as áreas da vida, e em todas as partes do mundo.

Explico: temos um desafio enorme de impactar a nossa geração e a cidade em que estamos. Temos o desafio de pregar, no nosso caso, em uma sociedade com moral baixa, de relativismo, e de ser testemunha de Cristo, pregando o evangelho que nos foi dado. Esse desafio é obrigação de todos os crentes, pois somos todos eleitos para anunciar a glória de Deus. Mas também temos o desafio de olhar para o mundo, para aqueles que nunca ouviram o evangelho de Cristo, para terras distantes e também sairmos a pregar o evangelho lá, pois nos é dito que Cristo será anunciado entre todos os povos!
Diante desses enormes desafios, temos também enormes possibilidades! Lutero e Calvino se utilizaram da prensa gráfica para disseminar suas ideias e impulsionar a fé reformada. Ouso dizer que a prensa gráfica foi instrumento de Deus para a manutenção da Reforma da igreja. Do mesmo modo, hoje, temos uma facilidade tecnológica que nos abre um mundo de possibilidades, tanto em termos locais quanto em termos mundiais. Talvez seja a hora de ver que a tarefa é grande, e por isso ir além de fronteiras geográficas: a igreja é a Igreja de Deus, independentemente de sua nacionalidade, e os cristãos de vários países podem carregar os fados uns dos outros.

Isso nos leva a pensar, como igreja, no nosso desafio de “ir e pregar a todo o mundo”. Temos que começar a olhar para os povos não alcançados e enviar missionários a esses campos. Precisamos ser resposta também para os lugares marcados pela secularização, clamando por um avivamento nessas terras. Também precisamos aceitar o desafio de reformar a igreja em nossa própria nação, onde as heresias e a ganância de uns destroem a boa fé do povo.


Ser reformado no século 21 é isso tudo e mais um pouco. É ter um rico legado do passado, em um mundo que definitivamente não é mais o mesmo. Mas o chamado de Cristo permanece o mesmo. Que com a graça de Deus possamos cumprir a tarefa que Deus legou à nossa geração!