terça-feira, 26 de julho de 2011

Escatologia e Visão de Mundo

por Leonardo M. Verona


O tema escatologia vem ganhando destaque nos últimos cinquenta anos, mormente no evangelicalismo brasileiro. Vários livros com esta temática foram lançados no Brasil. Entretanto, apesar deste crescente interesse, a escatologia ainda é vista, de maneira geral, como um tema desnecessário, que serve apenas para satisfazer a curiosidade das mentes mais aguçadas. Mas o que muitos não sabem é a estreita relação entre a nossa compreensão escatológica e como nós cristãos encaramos o mundo, seja individualmente ou como igreja.
O termo “escatologia” deriva de duas palavras gregas: "eschatos" e "logos". "Escathos" significa última, e "logos" estudo. Então podemos entender escatologia como um estudo acerca das últimas coisas. Contudo, quando serão os últimos dias? É um período reservado somente para o futuro? Qual a relação entre este mundo e o vindouro? Haverá uma continuidade?
A grande maioria dos evangélicos brasileiros têm respondido estas questões com o entendimento de que os últimos dias acontecerão apenas num período ainda futuro. E após este tempo o mundo será completamente destruído, não havendo nenhuma continuidade entre este mundo e o mundo porvir. A implicação deste entendimento escatológico será o desprezo pelo mundo presente. O raciocínio é o seguinte: já que o mundo será totalmente destruído, como cristãos não precisamos ter compromisso algum com a realidade presente. E é exatamente isto que está ocorrendo na prática. A igreja evangélica brasileira tem desprezado a realidade, ao definir seu escopo apenas em questões “espirituais”. Para muitos evangélicos, somente a reunião com os irmãos na igreja local diz respeito ao "eschaton". O trabalho, a política, a economia e etc, são vistos apenas como um mal necessário, já que ainda estamos neste mundo. Deste modo, os cristão brasileiros perderam a capacidade de influenciar e transformar a realidade. Porém, será que esta é a compreensão apresentada nas Escrituras?
Ao analisarmos as Escrituras, especialmente o ministério de Jesus nos Evangelhos, veremos que a mensagem principal do nosso Senhor era o Reino de Deus. Em diversas passagens Jesus disse que “o tempo está cumprido e o Reino de Deus está próximo”, como em Marcos 1.15. A expressão “o tempo está cumprido” denota que o Reino veio na própria pessoa de Jesus. Em outro versículo, Mateus 12.28, Jesus afirma: “É chegado o Reino de Deus sobre vós”. Esta passagem das Sagradas Escrituras mostram claramente “que Jesus mesmo inaugurou o Reino de Deus cuja vinda tinha sido predita pelos profetas do Antigo Testamento.” [1] Há aqui então uma superposição de duas eras. “Cristo com a sua ressurreição e ascensão inaugura a nova era, o Reino de Deus já está presente entre nós, entretanto, não em sua plenitude. O mundo futuro entrou na era presente sem aniquilá-la.” [2] A implicação desta verdade é que já podemos gozar na era presente de várias bênçãos do Reino vindouro conquistadas por Jesus no calvário. Entretanto, o Reino de Deus ainda não está em sua plenitude, pois ainda “temos que lutar contra o pecado, ainda temos que resistir ao diabo e ainda vamos morrer.” [3] Está é a denominada “tensão entre o já e o ainda-não”.
A partir da perspectiva bíblica apresentada, podemos inferir que os “últimos dias” começaram com a primeira vinda de Cristo. É a chamada “Escatologia Inaugurada”. Cristo inaugurou o Reino de Deus e a igreja deve agir conforme esta revelação. Como cristão, devemos entender que o escopo da igreja é muito mais amplo que buscar a salvação individual e reunir-se esperando a nova criação. O Reino de Deus diz respeito a nada menos do que TODAS as coisas (Cl 1.20). Então, não devemos entender a relação entre o mundo presente e o vindouro como uma descontinuidade absoluta. Mas, que “há tanto continuidade como descontinuidade entre este mundo e o vindouro. A graça não destrói a natureza, mas restaura.” [4]
A luz destas verdades, podemos concluir que uma correta interpretação escatológica nos leva a uma cosmovisão que não despreza a realidade presente. Os cristãos devem trabalhar para fazer o Reino de Deus presente neste mundo, seja na arte, na política, na economia, na ciência, em todas as esferas da vida! “Temos de fazer o melhor para produzir uma cultura genuinamente cristã” [5], mas com a consciência de que nunca teremos um mundo perfeito até que Cristo volte. Gostaria de terminar com um poema de George Herbert:
"Ensina-me, meu Deus e Rei,
A te ver em todas as coisas,
E, em qualquer coisa que eu fizer,
A fazê-lo como para ti
."

Referências:
[1] HOEKEMA, Anthony. "A Bíblia e o Futuro"
[2] Idem
[3] Idem
[4] Idem
[5] Idem

2 comentários:

  1. Muito bom o texto. A consciência escatológica restaura em nós o "humano" pretendido pelo criador. A salvação em Cristo nos coloca em santificação, e a imago Dei é, em nós, resgatada. O plano da criação é redimido, em parte já, embora ainda não em sua apresentação consumada. De qualquer forma, nosso modo de vida presente manifesta o propósito pelo qual fomos criados, e aponta para o propósito pelo qual fomos redimidos. Antecipamos Isaías 65:17-25, quando "edificamos e plantamos", como quem reconhece que tudo vem das mãos do Criador, e para ele retorna em glória.

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  2. A Igreja do senhor aqui na terra precisa de um reavivamento URGENTE!

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