quarta-feira, 1 de novembro de 2017

500 anos da Reforma: e agora?

Por Yuri Fernandes

Jan van der HEYDEN (1637-1712) Delft


500 anos da Reforma Protestante que abalou o mundo. Mas em que medida será que o mundo foi abalado por ela? Está aí algo que é preciso ser avaliado pela nossa geração, que recebeu a Reforma como um legado.

Nos últimos 500 anos o mundo mudou bastante. Por um lado, porque a Reforma, que começou em alguns pontos da Europa, espalhou-se por lá e também ganhou terreno fértil nos Estados Unidos. E por muito tempo essa porção norte do mundo foi o coração pulsante do cristianismo. Era ali que as coisas aconteciam. Só que o mundo se tornou mais secular nessas regiões. A fé vibrante se esfriou por conta do liberalismo e deu lugar à apostasia. O secularismo que toma conta do mundo ocidental tem se mostrado extremamente relativista e criado uma geração sem referenciais absolutos.

Por outro lado, o coração pulsante do cristianismo tem se deslocado agora para o sul global. Na América do Sul e na África, o cristianismo tem crescido cada vez mais – sim, com muito joio em meio ao trigo, mas definitivamente é uma igreja em ascensão. A Coreia do Sul é a terceira maior força missionária do mundo e o país mais protestante da Ásia, em números relativos. Apesar de o cristianismo na China ser pequeno em relação ao número de habitantes, é a religião que mais cresce no país – há quem diga que será, em poucos anos, o país com mais cristão em números absolutos.

Contudo, a região da chamada Janela 10/40, que se estende do norte da África até boa parte da Ásia e do Oriente Médio, é a região menos evangelizada do mundo. Coincidentemente é onde ficam quase 2/3 da humanidade e o berço das três maiores religiões depois do cristianismo: islamismo, hinduísmo e budismo. Também é o lugar com os menores índices de desenvolvimento humano do mundo. Ou seja: um mar de idolatria, perseguição e hostilidade.

O mundo também mudou no aspecto tecnológico. Na época da Reforma tínhamos a prensa gráfica de Gutemberg e algumas estradinhas que interligavam a Europa – e os navios despontando no horizonte da expansão do mundo conhecido. Hoje vivemos em um mundo globalizado, onde tudo é conectado com um clique e é muito mais fácil se deslocar entre países. Grande parte da população está migrando para grandes cidades, fato que gera mais conexão, porém também mais problemas urbanos e sociais.

Resumindo: estamos num mundo onde o cristianismo agora tem sua principal expressão em países menos influentes no cenário mundial. O Ocidente é secularizado e relativista, o Oriente é extremamente hostil e fechado e o mundo, no geral, é hiperconectado.
À luz desse quadro podemos pensar o que significa ser reformado nos dias de hoje e o que fazer com o legado que nos foi dado. Aqui é preciso resgatar um conceito muito importante: a missionalidade. Ser missional é encarar esse legado de fé que temos como um compromisso com o testemunho cristão em todas as áreas da vida, e em todas as partes do mundo.

Explico: temos um desafio enorme de impactar a nossa geração e a cidade em que estamos. Temos o desafio de pregar, no nosso caso, em uma sociedade com moral baixa, de relativismo, e de ser testemunha de Cristo, pregando o evangelho que nos foi dado. Esse desafio é obrigação de todos os crentes, pois somos todos eleitos para anunciar a glória de Deus. Mas também temos o desafio de olhar para o mundo, para aqueles que nunca ouviram o evangelho de Cristo, para terras distantes e também sairmos a pregar o evangelho lá, pois nos é dito que Cristo será anunciado entre todos os povos!
Diante desses enormes desafios, temos também enormes possibilidades! Lutero e Calvino se utilizaram da prensa gráfica para disseminar suas ideias e impulsionar a fé reformada. Ouso dizer que a prensa gráfica foi instrumento de Deus para a manutenção da Reforma da igreja. Do mesmo modo, hoje, temos uma facilidade tecnológica que nos abre um mundo de possibilidades, tanto em termos locais quanto em termos mundiais. Talvez seja a hora de ver que a tarefa é grande, e por isso ir além de fronteiras geográficas: a igreja é a Igreja de Deus, independentemente de sua nacionalidade, e os cristãos de vários países podem carregar os fados uns dos outros.

Isso nos leva a pensar, como igreja, no nosso desafio de “ir e pregar a todo o mundo”. Temos que começar a olhar para os povos não alcançados e enviar missionários a esses campos. Precisamos ser resposta também para os lugares marcados pela secularização, clamando por um avivamento nessas terras. Também precisamos aceitar o desafio de reformar a igreja em nossa própria nação, onde as heresias e a ganância de uns destroem a boa fé do povo.


Ser reformado no século 21 é isso tudo e mais um pouco. É ter um rico legado do passado, em um mundo que definitivamente não é mais o mesmo. Mas o chamado de Cristo permanece o mesmo. Que com a graça de Deus possamos cumprir a tarefa que Deus legou à nossa geração! 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

500 anos da reforma: precisamos ser mais católicos!

                                                                                                                Por Yuri Fernandes



O maior erro que um evangélico pode cometer hoje em dia é deixar de ser católico. Calma, não se assuste com essa informação – este está longe de ser um texto a favor do catolicismo romano. Antes, pretendo abordar como a Reforma Protestante confirma o fato de que nossa fé é católica
.
Não precisamos ficar confusos. A palavra católico tem raiz no grego e significa universal. Logo, ser reformado é ser da igreja universal – não, não estamos falando daquela igreja do coraçãozinho com a pomba dentro. Brincadeiras à parte, quando falamos de uma igreja católica, ou universal, estamos falando do fato de que toda a comunidade de redimidos de Cristo do passado, do presente e do futuro fazem parte dessa igreja.

Como é sabido, os reformadores nunca quiseram fundar novas denominações, tanto que o nome do movimento ficou conhecido como Reforma. Foi o Catolicismo Romano, inflexível a esse espírito, que gerou essa consequência. O fato é que a grande crítica dos reformadores não se baseava em o catolicismo romano ser católico de mais, mas porque era católico de menos. Explico: uma vez que o elemento “Roma” passa a dar identidade para a igreja, esta já deixou de ser católica. Logo, ela é católica de menos porque é romana demais. 

Os romanistas atacaram os reformados por abandonarem a tradição da igreja. Mas a questão é que quem de fato se afastou da tradição pura da igreja foram os romanistas! Não foi esse o argumento de Calvino, quando escreveu ao rei Francisco I sobre as acusações de que os reformados desprezavam o conteúdo dos patrísticos, os pais da igreja? Veja só:

Então, contra nós investem com ímpios brados como sendo nós desprezadores e inimigos dos patrísticos. Nós, porém, tão longe estamos de desprezá-los que, se fosse esse nosso presente propósito, de nenhuma dificuldade me seria possível comprovar-lhes com as próprias opiniões a maior parte daquilo que estamos hoje afirmando. (CALVINO, p. 31)

Ora, Calvino sabia que a Igreja existia antes dele. E existia antes do romanismo. Dessa forma, o objetivo dele não era desprezar todo o conhecimento que grandes homens do passado legaram à igreja, mas, antes, retornar à Ele! É por isso que podemos bradar em alta voz: ser reformado é ser católico!

Porque ser católico é crer nas Escrituras como nossa única base de fé. Ser católico é crer que essa Escritura nos conta uma história de redenção da humanidade e que converge para Cristo. Ser católico é crer que esse Cristo pode nos salvar dos nossos pecados. Ser católico é crer que essa salvação é disponível apenas pela graça e somente pela fé. Ser católico é crer que toda a nossa vida nesse mundo é um imenso palco para a glória de Deus!

Nesse sentido, ser católico é crer nos 5 solas. É também crer no credo apostólico como um resumo da nossa fé. É olhar para o passado e perceber a miríade de credos, confissões, catecismos que mesmo falíveis nos foram deixados pelos santos de Deus que passaram nesse mundo. Porque a fé cristã não é minha: é nossa. Só é possível ser cristão no seio da comunidade que existia antes de você e que vai continuar existindo depois de você, e com você na eternidade.

Em tempos onde os evangélicos acham que catecismo é coisa de católico e que o credo é a prece que os católicos usam para espantar mau-olhado (de fato alguns o usam assim), é difícil resgatar essa unidade. É ainda mais difícil viver essa unidade em tempos de igrejas que se descambam para heresias, negando a trindade, tornando-se sabatistas, vendendo o dom da salvação. Essas seitas assim o fazem por terem esquecido a verdade católica da Igreja. Contudo, isso é algo fundamental. Precisamos resgatar nossa herança histórica. Precisamos ser mais católicos.

Referências.
CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. Edição clássica. Ed. Cultura Cristã.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

500 anos da reforma: comemorar o quê?

Por Yuri Fernandes

Jogos Infantis. Pieter Bruegel 1560, Holanda. 



500 anos da reforma. Uma data mais do que especial para todos aqueles que vivem hoje uma fé bíblica e verdadeira, um verdadeiro marco na igreja de Cristo. Mas, enfim, o que celebramos nessa data da Reforma?

É bastante claro que celebramos o Sola Scriptura como uma forma de lembrar do fato de que agora nós temos livre acesso à palavra de Deus. O Sola Fide, o Sola Gratia e o Solus Cristhus, como a grande expressão dessa verdade nos lembrando que a salvação é apenas pela graça, mediante a fé somente em Cristo. Porém um ponto importante é perceber que uma das grandes comemorações que precisamos fazer na Reforma é o resultado de tudo, isto é, uma vida firmada na palavra e com uma segura salvação em Cristo, que resulta em Soli Deo gloria.

Comemorar a reforma é lembrar que a vida do crente deve ser um sinal vivo e permanente da glória de Deus, não apenas dentro da igreja, mas em todas as áreas da vida. Quando pensamos na Reforma, nossa mente logo ecoa alguns nomes: Lutero, Calvino, Farel, Zuínglio. Mas qual foi o foco do trabalho desses homens? Eles libertaram e ensinaram a palavra de Deus ao povo, para que o povo, munido desse alimento espiritual, pudesse viver para a glória de Deus.

Nesse sentido, comemorar a Reforma não é simplesmente lembrar a vida de Calvino, Lutero, Farel e Zuínglio – homens de Deus, sem dúvidas –, mas também se lembrar das pessoas anônimas que tocadas por esses homens aceitaram o desafio de viver somente para a glória de Deus. Homens que se valeram dos meios técnicos da época – a prensa gráfica – para eternizar as palavras desses gigantes. Homens que trabalhavam glorificando a Deus e partilhando essas boas novas com seus amigos: sapateiros, camponeses, vendedores... Homens que desafiaram as heresias de sua época e pagaram um preço de sangue por isso. Que o digam os huguenotes franceses, que foram massacrados na noite de São Bartolomeu: homens do qual o mundo não foi digno.

Comemorar a Reforma é comemorar o fato de que ela continuou. Houve os puritanos, que mudaram a face da Inglaterra e construíram a nação que hoje chamamos Estados Unidos da América. Mais uma vez diversos nomes surgem em nossa mente: Owen, Bunyan, Baxter. E novamente temos uma série de homens que, inspirados pelo Cristo pregado por eles, provocaram uma revolução no mundo. Revolução que não foi apenas de forma metafórica: o que seria da democracia no mundo sem a Revolução Inglesa?

Comemorar a Reforma é também comemorar os grandes avivamentos. É comemorar o fato de que homens como Edwards, Whitefield, Wesley e Spurgeon pregaram avidamente para o povo, e por meio da ação do Espírito Santo esse mesmo povo decidiu viver para a glória de Deus e transformar aquelas gerações.

Comemorar a Reforma é também comemorar o despertar missionário do século XIX. É comemorar o fato de que homens como Willian Carey, Hudson Taylor e Simonton tinham o grande desejo de ver essa glória de Deus vivenciada em toda Terra. Assim, pela pregação desses homens, podemos ver que hoje existem pessoas comuns que vivem para a glória de Deus em vários cantos do mundo.

É nessa perspectiva que olhamos para a Reforma e vemos que, embora celebremos e lembremos o nome de grandes pregadores e teólogos, a Reforma não é sobre eles. É primeiramente sobre o Deus que eles pregam. Mas é também sobre aqueles que descobrindo o Deus desses homens são motivados pelo Espírito Santo a uma vida que seja para a glória de Deus: na igreja e em todas as outras áreas da vida, aqui e em todos os cantos da Terra.

A Reforma é então a vitória da vocação leiga diante da doutrina católica do sacerdócio da igreja: a vitória da Reforma é o sacerdócio de todos os crentes. Todos nós somos chamados a glorificar a Deus por nossas múltiplas vocações. Todos nós somos chamados a proclamar a virtude daquele que nos tirou das trevas para sua maravilhosa luz (1 Pe 2:9). 
A Reforma é a proclamação de uma vida genuinamente cristã no mundo, em contraste com o monasticismo medieval. É por isso que Bonhoeffer cita o exemplo de Lutero:

O caminho de Lutero para fora do convento e de volta ao mundo constitui o ataque mais incisivo que o mundo sofreu desde os tempos da primeira Igreja. A renúncia do monge ao mundo é brincadeira comparada à renúncia que o mundo experimentou por parte daquele que a ele regressara. O ataque agora era frontal; o discipulado de Jesus passaria a ser vivido no seio do mundo. Aquilo que, em circunstâncias especiais e com as facilidades da vida monástica, era praticado como realização especial passava agora a ser algo necessário, ordenado a cada cristão no mundo. A obediência perfeita ao mandamento de Cristo deveria acontecer na vida profissional de todos os dias. Assim se aprofundou de forma imprevisível o conflito entre a vida do cristão e a do mundo. O cristão atacava o mundo de perto; era uma luta corpo a corpo. (BONHOEFFER, 2004, p 13.).

Isso nos leva a refletir sobre o que então significa ser reformado no mundo de hoje. Talvez tenhamos esquecido essa grande verdade, que é o desafio de viver para a glória de Deus no dia a dia, enquanto trabalhamos e proclamamos a Palavra. É por isso que concordo que precisamos de mais pregadores que, de certa forma, sejam como Calvino, Lutero, Spurgeon e Edwards. Quando tivermos pregadores como eles, teremos também leigos como aqueles de suas épocas: homens que vivam para a glória de Deus, que preguem o evangelho, que proclamem a Deus com suas obras, que vivam com os olhos na eternidade.

Referências:

BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. 8ª ed. Sinodal. 2004. 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

FÉ E ARREPENDIMENTO




Gustavo Motta Quintão / Ocilson Daniel Xavier 



BASE BÍBLICA: 2 Coríntios 5:17


INTRODUÇÃO


“Testifiquei, tanto a judeus como a gregos, que eles precisam converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus.” Atos 20:21.

A conversão é um sinal visível de que o homem verdadeiramente recebeu a salvação. Assim como acontece no trânsito, a conversão é a mudança de sua rota, na qual o crente ia para os caminhos que levam a morte (Provérbios 14-12), e agora vai para o Caminho que lhe trará vida – Jesus Cristo (João 14:6).

Mas quais, então, são os sinais de uma conversão verdadeira? Vemos que a mudança de vida acontece quando o eleito encontra a salvação em Cristo, tendo fé na obra redentora de Jesus, confiando completamente a vida a ele e entendendo que o caminho no qual ele andava o levava à perdição, e que é preciso mudar radicalmente de postura. Isso quer dizer que os elementos marcantes da conversão são a fé a o arrependimento.


A FÉ QUE SALVA


O autor da carta aos Hebreus fala que a fé “é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos” (Hebreus 11:1). A fé pode ser entendida como plena certeza, confiança em algo ou em alguém. 

Como podemos ser salvos mediante a fé? Tendo a certeza de que Cristo, Filho de Deus e também Deus, veio a Terra para salvar os pecadores do Inferno, morrendo em nosso lugar, levando sobre si os nossos pecados e ressuscitando ao terceiro dia. Fé não é simplesmente acreditar, é confiar de coração que tudo isso ocorreu.

Jesus Cristo é completamente capaz de mudar nossos corações para entendermos isso, mas, para que continuemos firmes na fé, ou seja, para continuarmos confiando, devemos fazer a mesma coisa que fazemos com as pessoas em quem confiamos: nós devemos conhecer melhor. Nós só conseguimos conhecer melhor a Cristo de duas maneiras: por meio da leitura da palavra, pois é na Bíblia onde encontramos sobre quem é Deus, o que Ele fez e faz por nós, e o que Ele quer de nós, e por meio da oração, que é uma conversa com Deus, falando sobre nossos anseios, medos, desejos, e uma demonstração de que entendemos que, sem Ele, nada podemos fazer.


ARREPENDIMENTO QUE MUDA


O arrependimento não é remorso, não é a tristeza causada pelas consequências que vêm após pecarmos. O remorso produz a morte, mas o arrependimento segundo Deus, traz salvação (2 Coríntios 7:10). Arrepender-se é mais que se entristecer pelo pecar: é ter repúdio ao pecado, é começar uma mudança de postura diante das situações, mudança causada por Deus em nós, por meio do Espírito Santo. 

Existem três áreas em nossas vidas que são transformadas quando nos arrependemos verdadeiramente:
  • Nosso intelecto – é a mudança de mente (metanoia), referente ao pecado que nós cometemos, reconhecendo que o pecado é abominável e que não temos capacidade para mudar por nós mesmos. 
  • Nossas emoções – é a mudança verdadeira no coração, na qual o pecador se entristece e passa a odiar o pecado, assim como também passa a ter necessidade do perdão de Deus, pois foi para isso que Cristo nos libertou.
  • Nossa vontade – o crente deve mudar a vontade em pecar, submetendo-se à vontade divina e aos caminhos em que Cristo deseja que andemos.
Uma das formas de demonstrarmos que estamos arrependidos é pedindo o perdão a Deus, confessando os pecados com os irmãos para que eles possam nos ajudar. Devemos, assim, procurar sempre a maneira de nos afastarmos daquilo que nos faz pecar e sempre pedir forças a Deus, para lutar contra aquilo que não o agrada.

APLICAÇÃO


Jesus, após curar as pessoas em seu ministério na Terra, sempre dizia: “vá, e não peques mais”. É isso o que ele deseja do crente convertido! Devemos entender também que a mudança de mente, sentimento e vontade com relação às coisas pecaminosas é fruto de um arrependimento verdadeiro, que é obra de Deus em nossas vidas, assim como a fé, que é dom gratuito de Deus, a fim de que nós acreditemos em Cristo verdadeiramente e naquilo que Ele fez por nós. O conjunto de fé e arrependimento é a demonstração de uma verdadeira conversão.

terça-feira, 28 de março de 2017

REGENERAÇÃO




Leonardo Marques Verona e Renata Alves Monteiro 

BASE BÍBLICA: João 3:1-16



INTRODUÇÃO

Se você já é cristão, é possível que você se lembre exatamente do dia da sua conversão, um momento em que tudo mudou. Pode ser também que você não se lembre de uma data exata e não saiba bem ao certo quando passou a crer definitivamente em Jesus. O certo é que, se não fosse a ação de Deus em nossas vidas, nunca iríamos buscá-lo verdadeiramente.

No capítulo sobre a queda, lemos o pecado de Adão, que era o representante de toda a raça humana, nos trouxe morte física e espiritual. 



MORTOS ESPIRITUALMENTE


Mas o que é morte para a Bíblia? Morte é muito mais do que deixar de existir – significa, primeiramente, separação de Deus. Deus disse a Adão que se ele comesse do fruto proibido certamente morreria. Como vimos nas lições anteriores, Adão não morreu fisicamente logo depois que comeu o fruto, mas morreu espiritualmente no mesmo instante, ou seja, a comunhão com o Criador foi quebrada. O pecado é muito mais do que uma doença: o pecado é morte. Os homens, apesar de vivos fisicamente, estão na realidade mortos, já que estão separados do seu Criador. “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.” (Romanos 5.12).

Se todos os homens morreram espiritualmente, podemos tirar duas conclusões disso. A primeira é que, se o homem está morto, ele é incapaz de salvar a si mesmo. “Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus” (Romanos 3.10b-11). A segunda conclusão é que, se o homem está morto, a única solução é ele receber uma nova vida. É como uma televisão que está com o cabo desligado da tomada. Por motivos óbvios, se a TV não for conectada na energia, ela não pode funcionar, e por razões mais óbvias ainda, a TV não pode se ligar na tomada sozinha: é preciso que alguém a ligue, e assim ela possa funcionar. Do mesmo modo, é preciso que sejamos ligados à fonte de toda a vida, que é Deus, e não podemos nos conectar a essa fonte, a semelhança da TV, sozinhos. É preciso que alguém nos ligue, e esse alguém só pode ser Deus, por meio da obra de Cristo na Cruz e aplicada a nós pelo Espírito Santo, para que assim recebamos nova vida.


NASCER DE NOVO


No evangelho de João vemos uma história muito interessante. Um homem chamado Nicodemos, que era fariseu e um dos líderes religiosos mais importantes dos judeus na época, foi ao encontro de Jesus, pois ele estava admirado com as obras que Cristo fazia. Então Jesus disse a ele algo intrigante: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” (João 3:3b). 
Nicodemos ficou confuso, afinal: como é possível alguém nascer de novo? Então Jesus disse novamente: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito.” (João 3:5b-6). Logo, percebemos que Jesus está dizendo da necessidade que o homem tem de nascer espiritualmente, já que está morto.


REGENERAÇÃO


Esse nascer de novo é aquilo que chamamos de regeneração. A regeneração é algo produzido por Deus, e não pelo homem ou qualquer coisa desse mundo. Como disse o apóstolo Pedro, “fostes regenerados, não de semente corruptível, mas sim de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente" (1 Pedro 1:23). Somente por meio da regeneração é que podemos ter fé em Cristo, com a qual temos acesso à justificação. Logo, a regeneração é anterior à fé. A fé em Cristo, a Fé Salvadora, é resultado desse novo nascimento, que é produzido em nosso coração por Deus. Sem essa regeneração é impossível, como Jesus disse a Nicodemos, entrar no reino de Deus.


APLICAÇÃO


Se você ainda não tem fé em Jesus Cristo, peça a Deus misericórdia, para que por Sua graça Ele te regenere e te dê nova vida. Assim, você poderá ter fé na obra de Cristo, ser justificado perante Deus, ter seus pecados perdoados, começar a viver uma nova vida aqui na Terra e aguardar o dia em que reinaremos com Cristo eternamente no céu.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

ELEIÇÃO


Igor Campos

BASE BÍBLICA: Efésios 1:3-5



INTRODUÇÃO


“O SENHOR fez todas as coisas para determinados fins e até o perverso, para o dia da calamidade.” Provérbios 16:4.

Nas conversas do nosso dia a dia, a palavra “eleição” sempre aparece para se referir à escolha dos políticos que irão nos representar nas câmaras de vereadores e deputados, na prefeitura, no governo do estado e na presidência do país. O sentido da palavra no dicionário é exatamente este: eleger é escolher alguém para desempenhar alguma função. Mas o ensino bíblico da eleição vai muito além do significado com o qual estamos acostumados. Essa maravilhosa e misteriosa doutrina diz respeito à nossa salvação em Jesus Cristo, antes da criação do homem e do Universo, e por isso deve ser estudada com muita atenção e temor, sempre à luz da Bíblia. 

No início de sua Carta aos Efésios, o apóstolo Paulo diz o seguinte: “Bendito o Deus e pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1:3-5). De acordo com a Bíblia, Deus nos elegeu para a salvação eterna antes mesmo que sonhássemos em existir. Nosso Pai eterno nos predestinou, ou seja, destinou previamente a vida eterna que teremos com ele nos céus, e também reprovou previamente os incrédulos, predestinando-os à condenação do Inferno (Romanos 9). 

Se acreditamos realmente que a Bíblia é a palavra viva de Deus, nossa única regra de fé e de prática, precisamos aceitar a doutrina da eleição, mesmo antes de entendê-la. Deus é soberano para fazer a vontade dele, para a glória dele mesmo, pois ele nos diz em Isaías 46:10: “Meu propósito permanecerá de pé, e farei toda a minha vontade”, vontade esta que nos é boa, perfeita e agradável. 


ELEITOS PELA GRAÇA


Não existe nenhuma boa obra ou coisa alguma que possamos fazer para ganhar a salvação em Cristo. Em Efésios lemos: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9). Temos nesses versículos uma notícia maravilhosa: a salvação é totalmente de graça, pois o preço dela já foi pago no sacrifício do Senhor na cruz do calvário. Cabe a nós apenas agradecer pela vida eterna e viver de acordo com os ensinamentos da Bíblia, testificando, dessa forma, a nossa salvação ao mundo todo.

Muitos cristãos acreditam que Deus predestinou alguns de nós para a salvação porque já sabia o que iria ocorrer. Mas podemos perceber nas Escrituras que Deus não apenas sabe, mas decreta e ordena tudo o que acontece conosco e com o restante do mundo. 

Esses decretos de Deus não fazem de nós simples fantoches nas mãos dele; pelo contrário, é por causa dessa eleição que temos o privilégio de participar com nossas vidas dos propósitos divinos. Se Deus não tivesse nos escolhido, não poderíamos jamais crer em Cristo, pois ele mesmo nos diz: “Ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido” (João 6:65). Além disso, um morto pode fazer algo para reviver? A Bíblia nos diz que estávamos mortos nos nossos delitos e pecados, mas Deus nos agraciou com a vida (Efésios 2:1). 

À primeira vista, a doutrina da eleição pode parecer uma injustiça. Deus escolhe alguns para a salvação, e outros, para a perdição. Mas Deus é o eterno juiz e ama a justiça (Salmo 33:5), e por isso é impossível que alguma injustiça venha da parte dele. 

Deus, em sua justiça, entrega os ímpios aos seus próprios pecados, decretando a eles a condenação por causa de suas perversidades. Mas Deus, em sua misericórdia, entregou alguns a Cristo para que fossem adotados como filhos, salvos e remidos pelo seu sangue. Por parte de Deus, não há injustiça, e sim justiça e misericórdia, que juntas manifestam a glória dele.


APLICAÇÃO


Então qual foi o critério de Deus na eleição? Essa é uma pergunta que permanecerá sem resposta e que, na verdade, não precisa de resposta. A Bíblia nos diz no livro de Isaías que os caminhos de Deus são mais altos que os nossos caminhos, e os pensamentos de Deus são mais altos que os nossos pensamentos (Is 55:9). Por esse motivo, muitas vezes ficamos entristecidos, confusos e relutantes ao tratarmos de doutrinas que não podem ser explicadas apenas pela nossa razão. Ore a Deus pedindo a ele que te traga paz acerca desses ensinamentos, confortando e convencendo seu coração. É ele quem nos dá a fé e a salvação, além da oportunidade de servirmos Cristo, a igreja e nossa comunidade. 

Na hora de escolher os candidatos nas eleições, podemos ser falhos e até injustos. Mas Deus, em sua perfeição, nunca pode falhar. Deus não nos elege por causa de alguma obra, mas nos elege para alguma obra: somos eleitos para servir e glorificar a Deus.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Redenção e consumação




Yuri Ribeiro Fernandes



BASE BÍBLICA: Colossenses 1:13-20


INTRODUÇÃO


Vimos nos últimos textos desta série que Deus criou o homem e se relacionava com ele, e o homem tinha plena comunhão com Deus, com o próximo e com a criação. Mas também vimos que, em Adão, o homem pecou, naquilo que chamamos de Queda, a qual maculou todas as áreas da nossa vida. A boa nova é que em Jesus podemos ter uma nova vida, pois ele nos trouxe a redenção. Veremos que a obra que Jesus fez restaura o nosso relacionamento com Deus, nosso relacionamento com o próximo e com a Criação, e nos prepara para eternidade.


A OBRA DE CRISTO COMO RESTAURAÇÃO


É muito interessante perceber como todas as palavras que são usadas na Bíblia para falar da nossa salvação dizem respeito a um retorno a uma condição inicial. Isso acontece por que o fruto principal do pecado é a inimizade: o pecado nos faz inimigos de Deus, porque não queremos nos submeter ao seu poder e às suas ordenanças. O pecado nos faz inimigos uns dos outros, pois viver em comunidade exige muitas vezes abrir mão de coisas que não queremos deixar. O pecado nos faz inimigos da criação porque, em vez de cuidar dela, o nosso desejo é inclinado para a exploração egoísta daquilo que a criação nos oferece.
Ao lermos o texto de Colossenses 1:20, lemos que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, Jesus “reconciliou consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus”. Quando Jesus morreu na cruz, ele nos trouxe paz com Deus. O que isso significa? Se a inimizade é fruto do pecado, o fruto da cruz é a reconciliação. Com essa discussão, já podemos entender que na cruz Jesus pagou a pena que nós deveríamos pagar. E é por isso que nEle podemos vencer a nossa inimizade contra Deus. 
O texto nos diz que não apenas nós, mas todas as coisas também foram reconciliadas com Deus. Isso é algo profundo e nos mostra que por meio da cruz podemos vencer não apenas a nossa inimizade com Deus, mas também a nossa inimizade uns com os outros! Isso é possível porque a obra de Cristo nos redime tão completamente que nos faz perceber que o pecado atinge profundamente os nossos relacionamentos e que, seguindo o exemplo dele, podemos consertar todos esses relacionamentos.


A REDENÇÃO E A GRAÇA


Vemos que a ênfase das Escrituras no retorno em Deus, restaurando todas as coisas, como uma das grandes marcas da Graça de Deus. Deus poderia ter acabado com toda a criação por causa do pecado e poderia ter criado tudo de novo. Mas vemos que Deus se recusa a deixar a sua criação, e sacrifica o seu próprio filho para resgatar essa criação e devolvê-la ao seu rumo original.
Nós não tínhamos nenhum merecimento para que Deus fizesse esse sacrifício por nós. Muito pelo contrário, o nosso único merecimento era a morte. Mas a graça significa justamente isso: amor imerecido. Apesar do nosso pecado, Deus insiste em nos amar e nos trazer de novo para Ele. A graça faz parte da natureza de Deus.
Pode parecer que Deus é gracioso somente porque nós pecamos, mas, se atentarmos para o fato de que Deus não precisava nem ao menos ter nos criado, podemos ver que até o fato de existirmos é graça de Deus! Essa graça de Deus se manifesta de modo ainda mais maravilhoso no momento da Redenção, quando a própria criação que se rebelou contra Ele é trazida de volta ao seu projeto original – com o próprio Jesus pagando a conta por isso.



O REINO DAQUI À ETERNIDADE


Quando a cruz de Cristo reconciliou todas as coisas, Jesus inaugurou um novo reino. Esse reino é o que carrega as marcas da Redenção. Como cidadãos desse reino, somos chamados a trabalhar em favor desse projeto de reconciliação. Se o nosso projeto original era glorificar a Deus, trabalhando em sua criação, temos que viver em prol dessa restauração. E mais do que isso: devemos mostrar para outras pessoas que Deus pode trazê-las para dentro desse reino!
Os cidadãos do Reino precisam trabalhar para a manutenção dele, sempre tendo em mente que, embora esse reino já tenha sido estabelecido com a Cruz de Cristo, ele só será completo quando Jesus voltar.



APLICAÇÃO


É preciso ter o olhar na eternidade quando Cristo consumar a Redenção e a obra que começou. Haverá um dia em que todas as coisas serão restauradas por completo. Ainda que já vivamos em um mundo redimido por Deus, temos que conviver com a dura realidade do pecado. Mas, quando Cristo vier, Ele completará a obra que começou, e então tudo será novo de novo. Enquanto esperamos, com os olhos fixos na eternidade, devemos trabalhar aqui na Terra como agentes da reconciliação de Deus!