quarta-feira, 7 de setembro de 2011

POR UMA NOVA DEFENESTRAÇÃO

Por André Storck



Defenestração de Praga
 Poucos episódios da história me impressionam mais do que as Defenestrações.  Defenestrar é oriundo de um radical comum da palavra janela que em francês se diz fenêtre e em italiano, finestra. Defenestrar é o ato de jogar algo ou alguém pela janela, significa, mais especificamente, lançar para fora da janela uma pessoa com a intenção de assassiná-la. Raríssimas vezes na história humana a revolta e rebelião populares contra a tirania de maus líderes culminaram numa defenestração, ou seja, poucas chegaram ao ponto de literalmente jogar janela afora uma súcia de governantes indesejados. É claro que nem todos os casos de defenestração são nobremente motivados, haja vista o da criança Isabella Nardoni na cidade de São Paulo em 2008.

Na verdade, existem três grandes episódios de defenestração na história. As duas defenestrações de Praga, de 1419 e de 1618, ambas estopins dos conflitos entre católicos e protestantes. E ainda a Defenestração de Miguel de Vasconcelos, em Portugal, 1640. Esta última ocorreu porque o defenestrado, sendo português, apoiava a dominação da dinastia filipina (espanhola), o que despertou o ódio de seus compatriotas.

Contudo, com a permissão do leitor, gostaria de dar um enfoque especial nas defenestrações de Praga e depois construir um paralelo com os dias de hoje.

O reformador protestante Jan Hus – seguidor das ideias do professor de Oxford e precursor das reformas protestantes, John Wycliffe – foi seguido por diversos simpatizantes por toda a região da Boêmia, seus seguidores foram chamados de hussitas. Uma das principais bandeiras de Hus era a doutrina do Sacerdócio Universal dos Crentes, pela qual defendia que todo o cristão possuía - por intermédio de Cristo - o acesso a Deus, o que resulta numa espécie de dessacralização da função eclesiástica ao de certa forma sacralizar todas as atividades humanas, do açogueiro ao governante. Jan Hus foi morto na fogueira em 1415 após ter sido declarado herege pela Concílio de Constança. Todavia, os seus seguidores permaneceram fiéis e suas ideias foram reproduzidas em parte por Lutero e Calvino no século seguinte.

Relata-nos a história, que no dia 30 de julho de 1419, os hussitas protestavam em frente a Prefeitura de Praga onde se encontravam os membros do conselho governante da cidade, os quais, se recusavam a por em liberdade alguns companheiros hussitas, presos por motivos religiosos. Uma pedra teria sido lançada de dentro do prédio contra a procissão. Os manifestantes, irados, rapidamente invadiram e tomaram o prédio jogando pelas janelas os sete membros do conselho que caíram sobre as lanças do povo. Essa foi a primeira defenestração de Praga. Após isso, o povo ainda atacou os monastérios da Igreja Católica. Iniciou-se, desse modo, a guerra dos camponeses hussitas contra a nobreza e o clero corrupto.

A segunda defenestração de Praga ocorreu em 1618, quando a nobreza tcheca protestante, descontente com a falta de liberdade religiosa e com a dominação católica, lançou pelas janelas do Palácio Real de Praga, os representante do rei católico Fernando II.

Vivemos no Brasil dias que clamam por novas defenestrações. Explico-me. Tanto a política quanto o meio religioso encontram-se completamente desacreditados da população. Políticos e pastores são as classes que mais inspiram a desconfiança e a repulsa nacional e ainda sim, ambos acreditam serem capazes de transformar a nação para melhor. Posso até acreditar nessa possibilidade de mudanças por intermédio da política e do movimento religioso, pois ambos são grandes forças de coesão e influência social, mas não sem antes promovermos algumas boas defenestrações.

Foco-me na religião, mais especificamente nos protestantes. Para aqueles que acreditam que o Evangelho é a verdade de Deus para salvação do homem, quão grande tristeza é perceber a dimensão da corrupção e a danosidade das heresias que contaminam a igreja evangélica brasileira. Pastores, celebridades e outros líderes embebedados pelo poder ou pelo dinheiro fácil enganam milhões de fiéis e maculam o nome de Cristo. Tolhem a liberdade e a consciência de uma multidão de crentes. Não se importam com as verdades bíblicas ou com a transformação efetiva da sociedade. Se os membros da igreja já se vestem diferente, falam em línguas estranhas e dão o dízimo já está tudo uma maravilha, estão satisfeitos! Pouco importa se a sociedade está definhando em miséria, luxúria e bebedices.

Precisamos defenestrar logo toda essa corja de falsos pastores e líderes os quais ao invés de morrerem em defesa da Palavra, estão dispostos a matarem a Palavra para viver às custas do engano das ovelhas. A situação de podridão do meio evangélico chegou a tal ponto que a matéria putrefata não pode mais ser restaurada, a defenestração é a única alternativa restante.

Neste ponto da leitura, muitos dos que precisam ser defenestrados estarão fortemente incomodados, e por falta de argumentos decidirão atacar o autor do texto, dizendo: “Nossa! Isso parece espírito de rebeldia. O autor está sendo muito radical, o autor está incitando o ódio, a violência e o homicídio.”

A esses respondo que a defenestração que defendo não é nos moldes das de Praga, precipitando janela afora de nossas igrejas os pastores, apóstolos, “paipóstolos”, bispos e presbíteros corruptos por atividade ou por conivência (sim, corruptos por conivência). Por mais que esses enganadores do povo talvez mereçam a pena capital eu não estou fazendo apologia ao homicídio. Na verdade, acredito que a defenestração da qual necessitamos hoje é uma defenestração intelectual que deve ser guiada pelo Espírito Santo.

Precisamos enquanto cristãos reformados, defenestrar de nossas mentes as vontades da carne, o orgulho, a avareza, o egoísmo, a luxúria. E não somente isso, precisamos arremessar para longe de nossa consciência biblicamente radicada, doutrinas heréticas que impedem que os cristãos possam atuar dentro da sociedade em todos os seus rincões, porões, escolas, repartições públicas, boates e hospitais de forma a influenciá-la e transformá-la com o verdade divina. Podemos começar nossa defenestração com a divulgação das esquecida doutrina do Sacerdócio Universal dos crentes como fazia Jan Hus. Precismos atirar fora a ideia equivocada que confunde a espiritualidade com uma microética cristã, a qual ensina que o cristão espiritual é aquele que chora no culto, levanta os braços no louvor, deixa o cabelo comprido, não se preocupa muito com a aparência, usa saia longa, gravata azul e só canta música gospel. Não importando se se dedica de verdade aos estudos, se o seu trabalho é exemplar, se sua conduta é proba, se é um cidadão honesto pagador de tributos ou se é um bom pai, por exemplo. Essa noção deturpada de espiritualidade só enclausura os cristãos em um gueto gospel totalmente alienado da sociedade a qual clama por transformação de princípios e de caráter. É essa a defenestração que defendo, a defenestração do pecado, dos conceitos equivocados e das heresias, por meio do estudo da Palavra de Deus, pela retomada do Sola Scriptura.

Respondida a primeira objeção, imagino que outros leitores – muitos dos quais também precisam ser defenestrados – um pouco mais letrados tentem combater a ideia do artigo com argumentos aparentemente bíblicos. Esses provavelmente dirão: “o autor do texto ao defender a defenestração dos líderes religiosos esquece-se de que toda a autoridade é posta por Deus e que devemos submissão e respeito às mesmas. Não há como defenestrar somente as ideias, alguns líderes serão defenestrados com elas.”

Com esses eu concordo em parte. Sim, alguns líderes serão jogados para fora da Igreja, posto que não são dotados de humildade para reconhecerem seus erros, pedirem perdão e recomeçar. Não são capazes, pois não são crentes regenerados e preocupam-se unicamente com o seu “bolso”. O destino desses é a defenestração seja em vida ou na morte.

Todavia, sou obrigado a discordar daqueles que insinuam haver desrespeito ou insubmissão às autoridades na minha tese. Sabemos que devemos respeito e obediência a toda autoridade, posto que todo poder advém do nosso Deus. Todavia, como Calvino magistralmente ensinou em conformidade com o Apóstolo Paulo, a partir do momento em que essas autoridades se colocam em posição de explícita desobediência para com a preceitos de Deus, devemos resistir. Imagine se os reformadores não tivessem combatido o poderio papal e desafiado a Igreja Católica em suas heresias? Ou se Jesus, em obediência às autoridade judaicas tivesse parado de anunciar o evangelho e realizar sinais? Infelizmente na igreja brasileira qualquer crítica é facilmente tida como rebeldia ou falta de submissão,  isso é resultado de uma herança cultural maldita acostumada ao déspota populista que atende com gracejos à vontade geral e que torna inócua as últimas palavras da declaração que todo o presbiteriano faz em sua pública profissão de fé: prometo obedecer às autoridades da igreja enquanto estas permanecerem fiéis às Sagradas Escrituras.

Precisamos orar, clamar a Deus por purificação e santificação; precisamos estudar e ler a Bíblia; precisamos sair da igreja e mostrar como o evangelho é na prática, seja no trabalho, na escola ou família e, por fim devemos defenestrar aquilo que pudermos esperando pacientemente pelo dia em que Deus decidir nos usar como fiéis defenestradores de tudo aquilo que por hora não conseguimos, mas que Ele desejar expelir de sua Igreja e de nossas vidas. Que Deus nos ajude.