sábado, 7 de janeiro de 2012

Religião Cristã e Ciência Moderna

Por Yuri Fernandes

Adquiriu-se nos dias de hoje o tolo costume de falar de ciência e religião como se fossem coisas antagônicas e que religiosos são os grandes empecilhos para o desenvolvimento da ciência. No entanto, não é isso que a história mostra. O historiador Holandês Reijer Hooykaas, em seu livro “A religião e o desenvolvimento da ciência moderna” retornou à origem da ciência moderna, e descobriu algo que deixaria muitos dos propagadores do chamado Humanismo Secular descontentes.
O argumento geral do livro gira em torno do fato de que sempre reconhecemos a importância do pensamento e da filosofia grega para o desenvolvimento da ciência e de outros aspectos de nossa sociedade, mas que em geral damos pouco espaço pra reconhecer a claramente a importância da tradição Judaíco-Cristã e das Sagradas Escrituras para o desenvolvimento da ciência. Hooykaas, nos mostra então, que enquanto a Grécia nos legou as ferramentas mentais (matemática, Lógica, métodos de observação etc.) a ciência moderna só pôde florescer a partir de uma concepção Bíblica do mundo em oposição à mentalidade grega.

Reforma e ciência moderna.
As pesquisas sociológicas, demonstraram a relevância dos protestantes nos primórdios da ciência moderna. Comparado com os católicos (que se destacaram mais no estudo da religião, do direito e da educação) os protestantes sempre foram maioria nos círculos científicos, mesmo em épocas em que eles eram uma minoria social.
Qual era a relação então entre a nova doutrina e a nova ciência? O sociólogo Merton, inspirado na sociologia da religião de Weber, havia atribuiu a este evento, o mesmo ascetismo intramundano provocado pela doutrina da predestinação. Porém esta teoria Merton-weberiana tem dois furos principais: Em primeiro lugar Weber havia interpretado erroneamente a doutrina da predestinação de Calvino ao dizer que ela produzia no crente um ascetismo intra-mundano, pelo fato de fazer boas obras serem garantia da predestinação. Hooykaas, refuta esta tese mostrando pela confissão Belga e pelo catecismo de Heildeberg que a doutrina da predestinação afirma que não há nada que o homem faça pra provar sua salvação, e que as boas obras são feitas não para prová-la, mas sim frutos da gratidão do eleito para com Deus.
O segundo furo diz respeito a um fato que tanto Weber quanto Merton apontaram em suas teses, embora não tenham se importado muito: O fato de que denominações reformadas que não criam na predestinação também tiveram força nesse desenvolvimento científico. Onde está então a relação entre a fé reformada e a ciência moderna?
Hooykaas encontra a resposta em duas doutrinas básicas da reforma protestante: O Soli Deo Gloria, e o Sacerdócio universal dos Crentes. A doutrina de que tem tudo que ser feito pra Glória de Deus, envolve também o chamado cristão para as ciências. Já o Sacerdócio Universal dos crentes, diz respeito ao fato de que o crente não tem que se submeter à autoridade religiosa e científica de sua época, mas sim a autoridade dos livros escritos por Deus: A Bíblia, livro da graça e a Natureza. O crente estava livre então para estudar a Bíblia por si só, ao mesmo tempo em que estava livre da autoridade da ciência racionalista escolástica e aristotélica. Tal doutrina era amplamente usada por Bacon e Pascal em seus escritos.




Calvino e ciência.

Existe na moderna sociologia e na história, um mito de que Calvino era contra a ciência. Esta é uma afirmação estranha, levando em consideração de que se acredita que o mesmo Calvino que era contra a ciência, por se tratar de algo menos puro é creditado à doutrina que deveria ter deslanchado a ciência. Ora bolas, decerto de que Calvino não era contra a ciência nem contra o avanço científico feito por não cristãos, e creio que estas duas citações das intitutas já servem para provar isto:



“Se reputarmos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade, a própria verdade, onde quer que ela apareça, não a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus. Ora, nem se menosprezam os dons do Espírito sem desprezar- se e afrontar-se ao próprio Espírito.” (As institutas 2.2.15)
“Portanto, se esses homens, a quem a Escritura chama naturais [1Co 2.14], que não tinham outra ajuda além da luz da natureza, foram tão engenhosos na inteligência das coisas deste mundo, tais exemplos devem ensinar-nos quantos são os dons e graças que o Senhor tem deixado à natureza humana, mesmo depois de ser despojada do verdadeiro e sumo bem.” (idem)



Calvino também foi veemente ao afirmar que a Bíblia dizia respeito apenas à revelação de Deus ao homem, e que ela não era raiz para a construção de verdades científicas. Tal afirmação era fundamental para o desenvolvimento da astronomia, já que havia problemas com relação à rotação da terra. Para Calvino, o fato da bíblia ser um livro para leigos, e escrito por homens (mas inspirado por Deus) para outros homens, e também que assume certos traços poéticos, muitas vezes ela não apresenta uma visão científica do mundo, mas se conforma à visão de mundo do leitor, pra se fazer inteligível.