sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Cheirando a Bíblia?

Na foto acima o Pr. Lucinho, aparece cheirando a Bíblia e convidando o jovens para um culto chamado “Quarta Louca”. Na época, a imagem causou grande polêmica, chegando até a ser comentada pelo site de notícias G1.
De acordo com esse líder de jovens, em entrevista fornecida ao site G1, o objetivo desta foto foi “chocar” e chamar a atenção dos usuários de drogas, que precisam de ajuda. O pastor ainda afirma que: “Meu desejo é que as pessoas venham conhecer a Deus com o mesmo ímpeto que o usuário vai para a cocaína, com a mesma vontade. Não imaginei que fosse ter essa repercussão, mas quando vi a proporção na internet, achei engraçado. Porque já fiz coisas muito mais radicais” (Fonte: G1).
Num primeiro momento, ao analisarmos as justificativas do Pr. Lucinho, a “propaganda” parece ser louvável, com um objetivo muito nobre, qual seja, atrair os jovens usuários de droga para a igreja. Como o próprio pastor afirmou, de modo nenhum o ato de cheirar a Bíblia foi um ato de desrespeito para com as Escrituras, e de fato, sou obrigado a concordar. Entretanto, a imagem do pastor cheirando a Bíblia, o nome do culto (Quarta Louca), bem como a fala transcrita acima são deveras reveladoras do evangelicalismo contemporâneo, mormente o brasileiro.
No período atual, as pessoas estão buscando viver intensamente, procurando satisfazer todos os seus desejos. O que importa na vida para essas pessoas é sentir prazer. E esta é uma característica da pós-modernidade, que é extremamente hedonista. Para a maioria, não existe um sentido para o mundo, então o que resta é comer e beber, porque amanhã morreremos! Muitos procuram este prazer intenso nas baladas, nos shows, nas drogas e etc.
Várias igrejas, com o objetivo de atraírem estas pessoas e supostamente retirá-las do mundo, criaram uma espécie de aparato gospel do prazer. Os cultos foram transformados em verdadeiros shows ou baladas, onde a busca por experiências intensas com o sobrenatural é o mais importante. As pregações e as músicas são voltadas somente para o “Eu”, para as “minhas realizações”, para os “meus sonhos”, para a minha “felicidade”. O resultado foi que essas igrejas ficaram lotadas, principalmente de jovens, buscando ter experiências de prazer sobrenatural em todos os cultos e reuniões.

“Crucificação”de Salvador Dali.
Esta obra pode ilustrar como está o cristianismo
 contemporâneo, onde a cruz não toca o chão,
 ou seja, a realidade. O crente somente está
olhando para cima, já que a realidade não tem sentido.

Traçando um paralelo entre os “ímpios” e os evangélicos atuais, podemos verificar diversas semelhanças. Assim como os “ímpios”, os crentes de hoje não enxergam um sentido no mundo presente. Apesar de afirmarem que acreditam em Deus, em Jesus, esta fé se limita a um mundo vindouro, futuro, ou seja, ao “céu”. A fé, para eles, não tem conexão com a realidade, é uma fé que não tem nada a dizer com relação ao trabalho, a política, as artes, a natureza e etc. Esses evangélicos não conseguem enxergar Deus na criação. O resultado disso, é que para eles o mundo torna-se opaco, sem sentido, e a única coisa que resta é a busca por uma experiência prazerosa, do mesmo modo como os ímpios fazem, só que neste caso a experiência é com o sobrenatural. Os crentes trabalham a semana inteira, numa vida sem sentido, difícil, cansativa, para ganhar dinheiro. E nos momentos de culto e louvorzão extravasam, e dão um salto irracional para o mundo sobrenatural, da experiência, onde tudo aparentemente faz sentido. E depois disso, voltam para a sua vidinha sem sentido, para um mundo sem graça no qual desejam fugir. Ou seja, os evangélicos tornaram-se tão hedonistas quanto os “ímpios”.
Logo, ao analisarmos esta foto do Pr. Lucinho cheirando a Bíblia, e a sua justificativa, quando ele afirma que o seu desejo é que as pessoas venham conhecer a Deus com o mesmo ímpeto que o usuário vai para a cocaína, percebemos como o hedonismo entrou sorridente pelos corredores da igreja evangélica. O suposto objetivo das igrejas de tirarem as pessoas do “mundo”, tornando os seus cultos “loucos”, cai por terra quando constatamos que a maioria dos evangélicos dessas instituições segue o mesmo padrão mundano, qual seja, o hedonismo. O que essas igrejas criaram foi apenas um gueto gospel, que diz palavras como Jesus, salvação, Deus, mas que de fato não prega e não ensina como devemos viver essas verdades na realidade.
Não precisamos de cultos “loucos”, de baladas gospel e de “louvorzão”, mas sim do verdadeiro Evangelho, que apresenta Cristo como o Logos, o sentido último de todas as coisas, aquele que é Senhor tanto da criação, quanto da redenção.

Por Leonardo Verona

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Engajamento Político



por Leonardo Verona



Ao analisarmos a liderança política no Brasil nas últimas décadas, o cenário não é nada animador. Dia após dia surgem diversos escândalos políticos. A credibilidade dos nossos representantes está a cada dia mais manchada. Para piorar, muitos políticos que se denominam evangélicos, ao chegarem no poder, praticam os mesmos atos corruptos dos demais. Esta situação nos leva, muitas vezes, a nos tornarmos céticos ou até mesmo termos uma certa repulsa a tudo que envolva política.
Mas, o que nós cristãos podemos fazer para mudar este quadro? Será que existe alguma solução? Antes de responder estas questões, precisamos primeiro analisar como o evangelicalismo brasileiro tem lidado com o engajamento político.
Os evangélicos, de maneira geral, encaram a atuação política como algo inferior, isto quando não é considerada uma atividade “mundana”. Esta maneira de pensar está intimamente relacionada a uma cosmovisão medieval, onde apenas atividades ditas “espirituais” são importantes. Logo, nesta visão de mundo, atividades relacionadas à igreja, como cultos, jejuns, oração, evangelização; são elevadas a um patamar superior às atividades consideradas deste mundo, como as questões sociais e políticas.
É importante quebrarmos aqui com esta noção equivocada. Já que, se nós cristãos, que dizemos ter a Verdade, nos afastarmos de toda atividade política, que esperança restará a nossa nação? Se assim agirmos, estaremos entregando de bandeja o controle político do país ao “mundo”.
Ao analisarmos a Carta de Paulo aos Colossenses, nos deparamos com a verdade de que Cristo reconciliou consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus (Cl 1.20). Logo, o escopo redentivo envolve nada mais, nada menos do que todas as coisas. Então, a missão da fé cristã não se restringe ao evangelismo, nem tão pouco a atividades eclesiásticas. A igreja recebeu de Cristo a autoridade para atuar em todas as esferas da vida humana, inclusive na política, restaurando aquilo que foi distorcido pelo pecado, para a glória de Deus.
Então, para começar a mudar este quadro desesperador da liderança política nacional, devemos entender que os princípios das Escrituras podem e devem ser aplicados em todas as áreas da vida. Devemos nos engajar politicamente, não necessariamente concorrendo a um cargo público ou filiando-se a um partido, mas pressionando nossos governantes a seguirem os princípios da Palavra.
Vivemos num país democrático, onde existem diversos mecanismos de controle, como as eleições, onde podemos escolher nossos representantes, e as instâncias de participação social, onde podemos expressar as nossas demandas. Nós cristãos, não devemos negligenciá-los, mas utilizarmos estes mecanismos para transformarmos a realidade política da nossa nação.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Louvai ou racha


por Leonardo Verona

Vivemos em tempos onde o culto público é prestado de diversas maneiras. Em nome da diversidade, e da quantidade de guetos sociais, as igrejas têm inventado “cultos” dos mais variados possíveis, palatáveis a todos os gostos, pensamentos e taras.
Conheço igrejas que realizam diversos tipos de cultos: cultos para os tradicionais (com hinos, órgão, coral, etc), cultos mais pentecostais (com revelações, línguas estranhas, sapatinho de fogo e tudo que um bom culto pentecostal tem a oferecer), e até mesmo um culto para os baladeiros de plantão (com músicas eletrônicas gospel, gelo seco, danças, jogo de luzes, e tudo o que uma boa balada pede, mas gospel né). Outro exemplo “inovador”, é de uma igreja que chamou seus jovens para um culto denominado “louvai ou racha”.  Estes são apenas alguns exemplos de como o culto tem tomado diversas formas, conforme o gosto do freguês.
Mas, será que toda esta flexibilidade que os cultos têm adquirido nas igrejas atuais está correta?
Penso que este fenômeno é reflexo da cosmovisão Pós-moderna. A pós-modernidade, em geral, é caracterizada pela relativização da verdade, em prol de um "pluralismo" de pensamento. É mais ou menos o seguinte, eu tenho a minha verdade e você tem a sua. A única coisa que você não pode fazer é questionar a "verdade" do outro para manter a boa convivência. E este tipo de pensamento entrou em cheio nas igrejas, principalmente no culto.
Para agradar a esta pluralidade de gostos, as igrejas têm inserido todo tipo de parafernália no culto, como danças litúrgicas, coreografias (que fazem até inveja nos dançarinos de axé), celebridades gospel, jogo de luzes e gelo seco. Além disso, para não quebrar a boa convivência, as pregações já não confrontam ninguém. São sermões rasos, emotivos (com musiquinha de fundo e tudo), cheio de piadinhas (humoristas que dão inveja ao Zorra Total, o que não é muito difícil), e que muitas vezes começam na Bíblia com um versículo isolado, depois o pegadores saem completamente do texto e não voltam nunca mais.
Apesar desse tipo de culto agradar a maioria, ainda existem aqueles que não gostam. E, para agradá-los, e “manter a paz”, são promovidos diversos tipos de culto, como descrito nos exemplos acima. É preciso dizer aqui, que nem toda divisão de cultos é ruim, como por exemplo, um culto de jovens, mulheres, homens e crianças. O problema surge quando essa divisão acontece baseada em gostos pessoais, caprichos ou taras dos “crentes”. Neste modelo, o culto deixa de servir a Deus e passa a servir ao homem, deixa de ser teocêntrico e passa a ser antropocêntrico. Assim, a criatura é louvada em detrimento do Criador, o que caracteriza idolatria.
O meu medo é que em breve as igrejas caiam no misticismo semântico, ou seja, realizem cultos que tenham apenas jargões “evangélicos”, que utilizam palavras como Deus, Jesus, salvação e etc, mas que não pregam de fato nenhuma destas coisas.
A Confissão de Fé de Westminster, em seu capítulo XXI, inciso I, nos mostra de forma muito acertada o que Deus espera do culto: “A luz da natureza mostra que há um Deus que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras.”
Devemos adorar a Deus em espírito, com todo o nosso ser, mas também devemos adorá-lo em verdade, conforme a sua Palavra. Não devemos especular aquilo que a Bíblia não proíbe expressamente e inserirmos todo tipo de bizarrice no culto público, mas adotarmos como elementos de culto apenas aquilo que a Bíblia ordena, seja por princípios, seja por mandamentos expressos.