segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

1ª Tarde de Palestras em Cosmovisão Calvinista

Esta é a 1ª Tarde de Palestras do Grupo de Estudos de Cosmovisão Calvinista. O tema é "Espiritualidade, liberdade e ciência''.
Serão 03 palestras e uma mesa redonda abordando diversos assuntos à partir da cosmovisão cristã reformada.

PALESTRAS:

. O que é liberdade?
Esta palestra tentará responder as seguintes questões: i) é possível coexistir um Deus onipresente, onipotente e onisciente com um ser humano livre? ii) quais são as implicações da soberania de Deus na percepção da realidade? iii) qual o sentido de liberdade na visão reforamada?

. O que é verdadeira espiritualidade?
O evangelho para muitos cristãos diz respeito apenas às questões espirituais. Nessa perspectiva, o conceito de espiritualidade é ligado somente às coisas invisíveis e intangíveis, como a oração, meditação, leitura bíblica e adoração com cânticos. Será essa a visão correta de espiritualidade?

. Qual o papel da ciência?
Secularismo, ciência e idolatria. Vivemos em uma sociedade do conhecimento. A ciência é vista como único meio legítimo de alcançar a verdade. Dessa forma, o conhecimento científico ocupa lugar privilegiado em uma sociedade secular como a nossa, onde o conhecimento de Deus é desprezado de antemão. Essa visão da ciência colocada nas universidades e escolas é verossímil?

Entrada franca: com direito a coffee-break e material de estudo.
Mais informações: cosmovisaocalvinista@gmail.com

Grande abraço! Deus os abençoe.




sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

RESPOSTA AO PR. RENATO VARGENS

Por Leonardo Verona

Um pastor amigo, Renato Vargens, escreveu o seguinte texto em seu blog, do qual discordamos e apresentamos uma resposta logo abaixo do texto dele:

UMA PEQUENA PALAVRA AOS JOVENS BLOGUEIROS CRISTÃOS  (por Renato Vargens)
"Uma coisa interessante que ultimamente tenho visto na BLOGOSFERA cristã é quantidade significativa de jovens blogueiros se achando a ultima coca-cola do deserto. O número de meninos com menos de 25 anos se considerando os tais e os baluartes da sabedoria é assustador. Nem saíram do cueiro e já se acham os caras. Ora, claro que sei que esses irmãos tem sido bênção para a Igreja Brasileira. É inegável o fato de que o Senhor os tem usado com poder e graça e que através de seus blogs muita gente tem sido abençoada com o Evangelho da Salvação Eterna. No entanto, muitos destes movidos por uma arrogância peculiar a juventude agem muitas vezes de forma inconsequente.

Outro dia, eu soube de um "jovem" que imbuído da autoridade de seminarista tentou corrigir um dos grandes teólogos brasileiros.

Um pastor amigo me contou que um rapaz de 25 anos no máximo se apresentou a ele como apóstolo. Se não bastasse isso, há pouco soube de um moço que se autoproclamou bispo presidente de sua igreja.

Pois é, o meu amigo o Pastor Juan de Paula com muita propriedade disse  que alguns desses jovens blogueiros nunca foram para um campo missionário, nunca expulsaram demônios, nunca tiveram rebanho, nem tampouco lideraram um grupo pequeno no lar com 5, 6 pessoas e querem ser mestres virtuais. 

Um outro fator preponderante é a forma que muitas das vezes  esses meninos se dirigem aos mais velhos.  Volta e meia eu vejo garotos movidos por uma arrogância peculiar a juventude tratando pastores com desdém. Ora, confesso que me assusta perceber que alguns destes meninos deixaram-se levar pelo inebriante poder mediático. 

Caro leitor, de maneira alguma meu desejo em escrever esse post foi denegrir ou desestimular os jovens blogueiros cristãos. Muito pelo contrário, eu os incentivo a cada vez publicarem mais, no entanto, gostaria de aproveitar o ensejo para encorajar a cada um destes rapazes a escreverem seus textos com sabedoria, eloquência e acima de tudo humildade, até porque, agindo desta forma, eles ganharão o direito de serem ouvidos.

Pense nisso!, Renato Vargens" 
FONTE: http://renatovargens.blogspot.com.br/2012/12/uma-pequena-palavra-aos-jovens.html

RESPOSTA:
Realmente existem muitos jovens blogueiros cristãos que são arrogantes e que escrevem as coisas mais estapafúrdias na internet. Entretanto, creio que esse fenômeno não é peculiar aos jovens cristãos, tão pouco está restrito ao círculo evangélico, nem apenas às pessoas jovens. 

A internet deu voz a todo tipo de pessoa. Coisas que antes eram faladas apenas em círculos menores podem ser ventiladas aos quatro cantos da terra. Por um lado isso é bom, já que podemos compartilhar com mais facilidade nossos pensamentos, entretanto, abre espaço para pessoas sem o mínimo conhecimento de determinado assunto falarem sobre ele e de forma arrogante. Logo, não são os jovens blogueiros cristãos que estão mais propensos a adotarem a atitude descrita pelo texto do Rev. Renato Vargens, mas qualquer pessoa que saiba utilizar a internet para propagar suas idéias. 

Discordo quando o referido autor afirma que "muitos destes movidos por uma arrogância peculiar a juventude agem muitas vezes de forma inconsequente". Não acredito que o jovem possua uma arrogância peculiar! (Isso me soa um pouco determinista). Para mim, quando afirmam que o jovem por natureza é mais impulsivo e arrogante, é mais um rótulo do que uma verdade. Este rótulo pode até valer até mais para um adolescente (também tenho minhas dúvidas) do que para um jovem de 25 anos. Vejo pessoas de várias idades (jovens, adultos, anciãos e etc) falando diversas bobagens e sendo arrogantes na internet todos os dias. Talvez pareça que são só os jovens, já que eles são a faixa etária que mais utilizam a rede.

Outro ponto que discordo no texto acima é quando ele afirma: "eu soube de um jovem que imbuído da autoridade de seminarista tentou corrigir um dos grandes teólogos brasileiros." Se este jovem utilizou um argumento de autoridade, por ser seminarista, realmente ele está errado. Entretanto, não vejo nada de errado em um jovem, que estudou sobre determinado assunto com profundidade tentar corrigir um "grande teólogo". (Não foi exatamente isso que Lutero, Calvino, e outros reformadores fizeram? A título de observação, Calvino escreveu as Institutas por volta dos 25 anos de idade.) Na verdade, vejo arrogância é em um teólogo, que por ser reconhecido, utilizar-se disso para se blindar das críticas. Não vejo nada de errado em corrigirmos uma autoridade que está equivocada, claro com a devida educação. Se este jovem estiver errado na sua colocação, então que seja refutado pelo "grande" teólogo.

No mais, concordo com o texto, entretanto, creio que este alerta deve ser estendido para todos aqueles que têm acesso à internet, não somente aos jovens. Pois, a idade não é o problema, já que há pessoas de idade avançada muito arrogantes e orgulhosas que não aceitam serem criticadas e, por sua vez, criticam muito. O pecado é o problema.


Soli Deo Gloria

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

POR QUE OS JOVENS EVANGÉLICOS ESTÃO SE DESVIANDO NA UNIVERSIDADE?


Excelente post do Rev. Renato Vargens, vale a pena conferir:

As estatísticas são sombrias. Alguns chegam a afirmar que em média, 60% dos jovens evangélicos que adentram a universidade se afastam da comunhão dos santos e da igreja. Ora, seria simplista da minha parte afirmar de modo absoluto os reais motivos para a apostasia de nossos jovens, todavia, acredito que algumas razões são preponderantes para o esfriamento da fé da juventude cristã:

1- Nossos jovens não estão sendo preparados pela igreja para enfrentar as demandas sociais, comportamentais e filosóficas na universidade.  Na verdade, afirmo sem a menor sombra de dúvidas de que a igreja não está oferencendo a sua juventude ferramentas necessárias para a desconstrução de valores absolutamente anticristãos. Por exemplo, as universidades públicas estão repletas de conceitos marxistas. Volta e meia eu recebo a informação de professores que em sala de aula zombam de Cristo, ridicularizando  publicamente todos aqueles que se dizem cristãos. 

2- Nossos jovens não estão sendo preparados pelos pais com vistas ao enfrentamento cultural. Vivemos numa sociedade multifacetada, cujo os valores relacionados a sexo, família, trabalho, sucesso e moral foram relativizados. Nesta perspectiva não são poucos aqueles que ao longo dos anos tem sucumbido diante da avalanche de conceitos extremamente antagônicos aos pressupostos bíblicos-cristãos.

3- Nossos jovens não tem sido preparados pela igreja para responder as perguntas de uma sociedade sem Deus como também oferecer respostas àqueles que lhes questionam a razão da sua fé.  Nesta perspectiva os conceitos "simplistas" de alguns dos nossos rapazes e moças  tem sido facilmente descontruídos num ambiente onde o cetiscismo e a incredulidade se fazem presentes.

4- Nossos jovens tem sido influenciados negativamente pelo secularismo, hedonismo e satisfação pessoal. Sem sombra de dúvidas acredito que o secularismo é um grave problema em nossos dias. A Europa por exemplo transformou-se num continente secularista onde o que mais importa é o bem estar comum e a ausência de Deus. Nesta perspectiva vive-se para o prazer, nega-se uma fé transcendente quebrando todo e qualquer paradigma que nos faça lembrar de Cristo ou da igreja.

Diante deste funesto quadro surge a pergunta: O que fazer então?

1-  A Igreja precisa fortalecer a família oferecendo aos casais ferramentas para a edificação de lares sólidos cujo fundamento é infalível Palavra de Deus.

2- A Igreja precisa preparar os seus jovens para responder as perguntas da sociedade. Nessa perspectiva, deve-se investir numa formação apologética, cujo foco deve ser oferecer a juventude "armas" espirituais capazes de anular sofismas.

3- A Igreja precisa investir em universitários promovendo grupos de comunhão, debates, além de discussões teológicas, sociológicas e filosóficas, oferecendo a estes condições de responder aos seus inquiridores o porque da sua fé.

4- A Igreja precisa estudar teologia com os universitários. Questões relacionadas ao pecado, juízo eterno, salvação, morte e sofrimento além de tantos outros conceitos relacionados aos nossos dias precisam ser explicados e entendidos pelos nossos jovens.

5- A Igreja precisa preparar os seus jovens para se relacionarem com a cultura. O problema é que em virtude do maniqueísmo que nos é peculiar satanizamos o mundo bem como todas as suas vertentes culturais. Por outro lado, existem aqueles que em nome da contextualização "mundanizaram" a Igreja, levando o povo de Deus a um estilo de vida ineficaz cujos frutos não tem sido muito bons.

6- A Igreja precisa fomentar em seus jovens o desejo de conhecer a Deus e se relacionar com Ele. Jovens que se relacionam com Deus através da oração e das Escrituras Sagradas tornam-se mais fortes diante dos embates desta vida.

Que Deus nos ajude diante hercúlea missão e que pela graça do Senhor nossa juventude possa ser bênção da parte do Senhor na universidade.

Soli Deo Gloria,

Renato Vargens

POST ORIGINAL: http://renatovargens.blogspot.com.br/2013/01/por-que-os-jovens-evangelicos-estao-se.html

sábado, 5 de janeiro de 2013

A Ilusão do Determinismo

Por Yuri Fernandes
Em uma destas discussões de Facebook sobre o feminismo, vejo um amigo comentando algo que julguei interessante. Ele disse algo do tipo: “A nossa cultura é machista e por isto você e eu somos machistas”. Não pretendo por enquanto me pronunciar a respeito do Machismo ou do feminismo (isto me parece tarefa para um próximo texto). Hoje me deterei numa questão um tanto quanto mais essencial: o determinismo.

Determinismos não são novidades no ambiente acadêmico. Desde que Descartes inaugurou uma nova maneira de fazer filosofia (ou talvez até antes), o homem se viu preso em uma corrente de determinismos.  O que seria um determinismo? De certa forma, é uma visão que interpreta a realidade como determinada por algum aspecto especifico. Temos alguns que são famosos e até mesmo bem vivos nesta era que alguns ousam chamar de pós-moderna.
 Um bom exemplo é o determinismo biológico, que sempre se reinventa nas páginas das revistas de “ciência” em manchetes como “As mulheres altas são mais felizes” ou “Homens gordinhos são mais propícios a terem amantes”. A ideia é simples: Você é aquilo que seu organismo biológico te condiciona a ser. Ainda temos outras variáveis deste determinismo, como é o caso do determinismo químico, e ainda algumas vertentes mais radicais da neurociência que acredita desvendar todos os segredos da mente humana ao descobrir como nossas ações dependem dos processos químicos e fisiológicos do sistema nervoso.

Mas o determinismo biológico não é o único que ficou famoso. Karl Marx pode ser considerado um dos grandes pais do determinismo econômico. A ideia é igualmente simples: Você é aquilo que produz, da maneira que produz. Em suma, se você é um servo feudal, quem você é depende disso (e não dos seus profundos laços familiares, religiosos e culturais).  Da mesma maneira, se você é um operário, é esse seu lugar na cadeia econômica que te define como pessoa (e novamente, adeus vida pessoal complexa). Enfim, caímos de indivíduos complexos à imitadores de uma identidade coletiva única.

Hoje em dia, a nova modinha intelectual é o determinismo sociocultural. Em primeira instância ele parece o libertador prometido da visão dos outros determinismos, com suas concepções de cultura como algo complexo. Na verdade só se troca o aspecto que se tem como determinante para um que é um pouco mais complexo. Desta forma, começa-se a tecer argumentos a respeito de como o pensar e o agir é constituído na linguagem, e depois como este é constituído socialmente. Destes dois degraus, pula-se para uma concepção de realidade na qual aquilo que somos depende completamente de onde nascemos, quando nascemos e de quem nos educa. E assim, começam generalizações a respeito da sociedade que recai sobre todos os indivíduos. A ideia de eu sou machista pelo fato de viver em uma sociedade que é machista, é um bom exemplo. Qualquer ato meu para com as mulheres será interpretado sobre uma ótica feminista, como um ato machista e malévolo que fiz inconscientemente por causa do machismo que impera dentro de mim! Certa vez, ao pegar uma cadeira para uma amiga sentar eu fui chamado de machista. Da mesma maneira, quando interrogada sobre o porquê de ser mulher assim e de outra forma, uma outra amiga foi repreendia por responder “Deus me fez assim”, pois para o professor, ela era assim por que a sociedade a condicionava a ser assim.

Não nos enganemos, as pessoas que são deterministas o são por um motivo. Elas anseiam por uma liberdade que não compreendem e por isso criam um determinismo que precisa ser dominado. A resposta ao determinismo biológico é a inovação da tecnologia a fim de ir dominando nossa “natureza selvagem”. A resposta ao determinismo econômico é a revolução comunista. A resposta ao determinismo cultural é a mudança social para um relativismo vazio de significado. E não é preciso mostrar que todos eles falham por não perceber o tamanho dos ídolos que criaram.

E você deve estar pensando se estas coisas como biologia, economia e cultura de certa forma não nos define. É claro que elas impõe limites à maneia pela qual vivemos. Se eu tenho um 1 metro e cinquenta de altura, não posso pegar um livro alto na biblioteca sem a ajuda de uma escada. Da mesma maneira, se eu não tenho condições financeira para ir à Acapulco nas próximas férias, eu não irei. A grande diferença está na maneira como estes limites são encarados. Será que eles determinam todos os aspectos da minha existência? Será que eles são responsáveis pelas formas como penso, me sinto e me relaciono? Algo me diz que eles são importantes, mas não podem ser absolutizados. Quem sou, o que penso e o que sinto não são determinados por estes limites criacionais (e eu creio, impostos por Deus). O Eu se manifesta numa relação com estes aspectos criacionais (vistos em uma totalidade, na qual o biológico, o cultural, o econômico e o psíquico são apenas aspectos de um espectro mais variado e amplo de lugares onde ocorre a experiência) em sua totalidade e a essência religiosa do homem, que seria aquilo que direcionas a experiência vivida nos vários aspectos criacionais para um telos definido.

Desta forma, o ser humano é um ser essencialmente plural, no sentido de que a sua vida não pode ser resumida em um único aspecto do real, nem deve ser interpretada como. O grande problema é que sempre que estamos em um debate com um determinismo, nós perdemos. A lógica dele é maior que a nossa. Tudo consegue ser explicado por seu sistema, e é exatamente essa a força de sua teoria.  A única maneira de se livrar desse reducionismo é um choque com a realidade ao perceber que somos seres mais complexos do que todos estes aspectos. Isto nos leva à famosa história de Francis Schaeffer e o seu encontro com o marinheiro determinista em sua lua de mel. O marinheiro  era um reducionista biológico extremo, mas Schaeffer percebeu uma coisa: Ele amava a mulher com quem havia se  casado. E então perguntou se quando ele se deitava com ela a noite, se ele acreditava que ela era apenas um amontoado de átomos eu reagia quimicamente. Ele foi forçado a dizer que sim. Infelizmente, não sabemos como foi o resto da lua de mel do casal, mas podemos ver na postura do marido, como o determinismo, por mais lógico que pareça ser, exclui significativamente uma parte do real.

Visto de um ângulo cristão, o determinismo é uma espécie de idolatria, na qual Deus, que deveria ser o ponto para o qual direcionamos nossa raiz religiosa  que integra a nossa percepção da realidade, é trocado por um dos aspectos da realidade. Dessa maneira, a percepção de real é alterada para uma distorção do real, na qual a única solução e remédio é o sacrifício de Cristo que “E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus. Colossenses 1:20



Bibliografia
No Crepúsculo do Pensamento ocidental de Dooyeweerd.
O Deus que Intervém de Francis Schaeffer

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

TEORIA DOS BUNDA DE PERU

Por André Storck

Há certo tempo tenho me surpreendido com o grande número de homens bons que se silenciam diante de decisões más e até mesmo concordado com elas. De início, tentei disfarçar minha surpresa, pensei que poderia ser tudo coisa da minha cabeça, talvez eu estivesse criticando demais ou exigindo muito de pessoas que eu julgava boas, mas que não seriam assim tão legais. Todavia, dia após dia me surpreendia novamente com um novo “silêncio eloquente” de alguém aparentemente bondoso mas com seu silêncio e omissão permitia que algo errado ocorresse.


Não pense o leitor que eu seja uma pessoa 100% correta, é claro que não. Tenho meus defeitos, cometo falhas e eventualmente também me silencio, mas o que tem me incomodado em particular é a altíssima frequência com que tenho notado essa atitude nas pessoas. Talvez você nunca tenha parado para observar, mas tenho certeza que se assustará quando começar a contar quantas foram as vezes em que, desde as menores questões até nas grandes decisões, vários homens que você conhece e sabe que são piedosos, se calam e, com isso, permitem que o mal e o erro ocorram. A observação da repetição desse mesmo comportamento rotineiramente não me deixa mentir, o fato é: pessoas honestas, boas e inteligentes têm se silenciado diante de situações más, desonestas e injustas.


A essa altura o leitor provavelmente irá retorquir que desde de que o mundo é mundo muitos homens bons preferiram o silêncio à lutar pelo que é certo. Mas o problema é maior agora e explico. Quando eu era criança e quebrava um copo ou prato, por exemplo, minha mãe não me punia, apenas pedia para eu ter mais cuidado. Todavia, se eu quebrasse, duas ou mais coisas num mesmo dia, eu era repreendido e também punido porque muito provavelmente algo estava errado comigo, a repetição do “acidente” estava a demonstrar a existência de um problema: eu podia estar muito agitado, desatento, bagunceiro etc.


É aqui que chamo a atenção do meu leitor: na repetição. Afirmo que há algo de errado no ar, há um problema porque essa atitude omissiva das pessoas tem sido muito comum. A desculpa de “foi sem querer” ou “não percebi” não cola mais. Imagine por exemplo que seu vizinho ao sair de carro de manhã para ir ao trabalho esbarre no seu veículo estacionado ao lado. Ele lhe pedirá desculpas, pois “foi um acidente” ninguém discordará, todavia se isso ocorrer por duas ou três vezes na semana, existe um problema, alguma deficiência e não mero acidente. 

Homens bons e com postos de liderança têm repetida e constantemente escolhido o silêncio ao invés de enfrentarem determinadas questões ou pessoas, em prol de um bem maior. E em razão da reiteração deste comportamento afirmo induvidosamente: sofrem de uma deficiência, por lavarem de mais as mãos acabaram por perdê-las.

É por isso que, peço licença para lhes propor a presente teoria. A teoria dos bundas de peru. Anatomicamente falando, a bunda do peru tem duas características importantes que ajudarão a elucidar a presente tese. Em primeiro lugar é uma parte do corpo que não é possível visualizar, está escondida pelo enorme número de penas. Em segundo lugar, também graças às penas, a parte traseira da ave é extremamente macia e fofa como é possível constatar ao se observar a figura.

Numa análise superficial, acredito que  nós  cristãos fomos inconscientemente contaminados pelos trejeitos pós-modernos. Para os que não se lembram, chamamos de pós-modernidade o conjunto dominante de pensamento e da condição sociocultural contemporânea. Uma das características mais fortes do pós-modernismo é a veneração da pluralidade. A “veneração do pluralismo” de pensamentos e opiniões é muito mais forte do que o mero respeito. O respeito às diferentes formas de pensar a vida e o mundo já havia sido anunciado pela modernidade1. A pós-modernidade ensina que além do respeito, o diferente merece uma espécie de veneração, pois você não apenas deve tolerar a opinião alheia, mas lhe é vedado manifestar discordância, sob pena de se tornar um radicalista. Assim, trocando em miúdos, na pós-modernidade você precisa ser uma bunda de peru, precisamos desaparecer do espaço público e, em última instância, precisamos ser “fofos” ao nunca discordar do outro.

Nesse contexto, foi incutido nas mentes e corações dos homens pós-modernos que se alguém se manifesta contrariamente a alguma opinião ou decisão, está sendo uma pessoa radical, impertinente e intolerante. Quando há relação de autoridade entre os envolvidos a pecha “rebelde” também é incluída.

Para que eventuais críticas ou discordâncias possam ser apresentadas é indispensável que se faça com muito “jeitinho” e fofura para não ferir o homem pós-moderno orgulhoso e autossuficiente por excelência. Os homens bunda de peru acabam sendo o que eu chamo de “metrossexuais de alma”, pois embora externamente não ostentem tanta preocupação com a aparência, internamente são cheios de cuidados. Qualquer palavra ou opinião em contrário (mesmo que com boas intenções) se não forem meticulosamente cobertas por uma capa de simpatia, carinho, voz mansa e um sorriso são automaticamente utilizados para classificar a pessoa que a profere como persona non grata. A mensagem não passa por avaliação, somente o mensageiro. Para aquele que fala poder ser realmente ouvido, ele precisa ser um bunda de peru. A opinião contrária para ser aceita precisa estar coberta por um manto de falsidade e de aparência para agradar o ouvinte.

Outro método muito comum para fazer com que opiniões contrárias sejam aceitas é o locutor adotar um tom emocional, citar exemplos tristes, falar com voz roca, chorar, ou – se tiver o dom – cantar uma bela música antes e depois da crítica que for fazer. Ou seja, além de ser um bunda de peru por ter que agradar o ouvinte acima de tudo, é importante também fazer um glu-glu-glu um tanto quanto refinado.

Estamos perdendo a capacidade de avaliar e julgar abstratamente as ideias. As palavras ditas não são ouvidas. O conteúdo não é julgado. É por isso que observamos nas igrejas evangélicas o seguinte absurdo: nas igrejas em que o pastor/líder é carismático e simpático há grande crescimento de membros, nas outras igrejas em que as mesmas palavras do Evangelho são pregadas por um pregador mais sério não há grande crescimento da membresia. Isso acontece porque as pessoas não avaliam mais a palavra, mas o seu portador, o líder. Aquele pastor que deixa o público mais confortável e que não lhe fere o ego. Daí a característica indispensável à liderança pós-moderna: tornar-se uma bunda de peru, pois as pessoas têm atendido ao carisma e não à Palavra da Salvação.
Não que seja ruim ou errado ser agradável e simpático, pelo contrário devemos sim tratar o próximo com amor e respeito. Contudo, tratar com amor exige que acima do carisma esteja a defesa intransigente do que é correto, justo e Verdadeiro. A omissão e o silêncio constantes diante do mau para tentar ser agradável e preservar-se é postura vil, egoísta, covarde e pecaminosa.

Percebam que não falo aqui contra a postura sábia e recomendada em Provérbios de silenciar-se e refrear a boca. Abordo aqui a postura daqueles que ocupando papel de liderança e muitas vezes pagos para combater o mau e propagar a verdade se omitem e se calam. Não falo daqueles que sabiamente buscam um momento e as palavras corretas, mas daqueles que exatamente nesses momentos corretos se calam e desaparecem entre penas para manter a pose ou manter-se no cargo.

Por fim, ser um bunda de peru e contentar-se com os erros para fazer papel de homem bom e simpático é atitude pecaminosa. Podemos extrair esse princípio bíblico que condena tanto a ação quanto a omissão de Levíticos 5:1 que diz "Se alguém pecar porque, tendo sido testemunha de algo que viu ou soube, não o declarou, sofrerá as consequências da sua iniquidade." Ou seja, é pecado omitir-se quando se devia agir.

Portanto caros leitores, gostaria de convidar a todos para deixarmos de sermos cristãos bundas de peru e resgatarmos o nosso antigo ideal bíblico e protestante para, de fato, protestar contra os pecados, equívocos e injustiça da nossa sociedade e das nossas igrejas. Pois não fomos chamados para sermos pessoas legais, simpáticas e aprovadas pelos outros, mas para sermos como Jesus e glorificar a Deus não nos conformando com esse mundo, mas erguendo acima de tudo o pendão da verdade, abrindo mão, se necessário, da nossa reputação entre os homens.

E você amigo, é um bunda de peru?


“A paz se possível, mas a verdade a qualquer preço.” Martinho Lutero

Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia.” João 15:19



1 - Como por exemplo, a famosa frase historicamente atribuída ao pensador moderno, Voltaire: Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las