sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

TEORIA DOS BUNDA DE PERU

Por André Storck

Há certo tempo tenho me surpreendido com o grande número de homens bons que se silenciam diante de decisões más e até mesmo concordado com elas. De início, tentei disfarçar minha surpresa, pensei que poderia ser tudo coisa da minha cabeça, talvez eu estivesse criticando demais ou exigindo muito de pessoas que eu julgava boas, mas que não seriam assim tão legais. Todavia, dia após dia me surpreendia novamente com um novo “silêncio eloquente” de alguém aparentemente bondoso mas com seu silêncio e omissão permitia que algo errado ocorresse.


Não pense o leitor que eu seja uma pessoa 100% correta, é claro que não. Tenho meus defeitos, cometo falhas e eventualmente também me silencio, mas o que tem me incomodado em particular é a altíssima frequência com que tenho notado essa atitude nas pessoas. Talvez você nunca tenha parado para observar, mas tenho certeza que se assustará quando começar a contar quantas foram as vezes em que, desde as menores questões até nas grandes decisões, vários homens que você conhece e sabe que são piedosos, se calam e, com isso, permitem que o mal e o erro ocorram. A observação da repetição desse mesmo comportamento rotineiramente não me deixa mentir, o fato é: pessoas honestas, boas e inteligentes têm se silenciado diante de situações más, desonestas e injustas.


A essa altura o leitor provavelmente irá retorquir que desde de que o mundo é mundo muitos homens bons preferiram o silêncio à lutar pelo que é certo. Mas o problema é maior agora e explico. Quando eu era criança e quebrava um copo ou prato, por exemplo, minha mãe não me punia, apenas pedia para eu ter mais cuidado. Todavia, se eu quebrasse, duas ou mais coisas num mesmo dia, eu era repreendido e também punido porque muito provavelmente algo estava errado comigo, a repetição do “acidente” estava a demonstrar a existência de um problema: eu podia estar muito agitado, desatento, bagunceiro etc.


É aqui que chamo a atenção do meu leitor: na repetição. Afirmo que há algo de errado no ar, há um problema porque essa atitude omissiva das pessoas tem sido muito comum. A desculpa de “foi sem querer” ou “não percebi” não cola mais. Imagine por exemplo que seu vizinho ao sair de carro de manhã para ir ao trabalho esbarre no seu veículo estacionado ao lado. Ele lhe pedirá desculpas, pois “foi um acidente” ninguém discordará, todavia se isso ocorrer por duas ou três vezes na semana, existe um problema, alguma deficiência e não mero acidente. 

Homens bons e com postos de liderança têm repetida e constantemente escolhido o silêncio ao invés de enfrentarem determinadas questões ou pessoas, em prol de um bem maior. E em razão da reiteração deste comportamento afirmo induvidosamente: sofrem de uma deficiência, por lavarem de mais as mãos acabaram por perdê-las.

É por isso que, peço licença para lhes propor a presente teoria. A teoria dos bundas de peru. Anatomicamente falando, a bunda do peru tem duas características importantes que ajudarão a elucidar a presente tese. Em primeiro lugar é uma parte do corpo que não é possível visualizar, está escondida pelo enorme número de penas. Em segundo lugar, também graças às penas, a parte traseira da ave é extremamente macia e fofa como é possível constatar ao se observar a figura.

Numa análise superficial, acredito que  nós  cristãos fomos inconscientemente contaminados pelos trejeitos pós-modernos. Para os que não se lembram, chamamos de pós-modernidade o conjunto dominante de pensamento e da condição sociocultural contemporânea. Uma das características mais fortes do pós-modernismo é a veneração da pluralidade. A “veneração do pluralismo” de pensamentos e opiniões é muito mais forte do que o mero respeito. O respeito às diferentes formas de pensar a vida e o mundo já havia sido anunciado pela modernidade1. A pós-modernidade ensina que além do respeito, o diferente merece uma espécie de veneração, pois você não apenas deve tolerar a opinião alheia, mas lhe é vedado manifestar discordância, sob pena de se tornar um radicalista. Assim, trocando em miúdos, na pós-modernidade você precisa ser uma bunda de peru, precisamos desaparecer do espaço público e, em última instância, precisamos ser “fofos” ao nunca discordar do outro.

Nesse contexto, foi incutido nas mentes e corações dos homens pós-modernos que se alguém se manifesta contrariamente a alguma opinião ou decisão, está sendo uma pessoa radical, impertinente e intolerante. Quando há relação de autoridade entre os envolvidos a pecha “rebelde” também é incluída.

Para que eventuais críticas ou discordâncias possam ser apresentadas é indispensável que se faça com muito “jeitinho” e fofura para não ferir o homem pós-moderno orgulhoso e autossuficiente por excelência. Os homens bunda de peru acabam sendo o que eu chamo de “metrossexuais de alma”, pois embora externamente não ostentem tanta preocupação com a aparência, internamente são cheios de cuidados. Qualquer palavra ou opinião em contrário (mesmo que com boas intenções) se não forem meticulosamente cobertas por uma capa de simpatia, carinho, voz mansa e um sorriso são automaticamente utilizados para classificar a pessoa que a profere como persona non grata. A mensagem não passa por avaliação, somente o mensageiro. Para aquele que fala poder ser realmente ouvido, ele precisa ser um bunda de peru. A opinião contrária para ser aceita precisa estar coberta por um manto de falsidade e de aparência para agradar o ouvinte.

Outro método muito comum para fazer com que opiniões contrárias sejam aceitas é o locutor adotar um tom emocional, citar exemplos tristes, falar com voz roca, chorar, ou – se tiver o dom – cantar uma bela música antes e depois da crítica que for fazer. Ou seja, além de ser um bunda de peru por ter que agradar o ouvinte acima de tudo, é importante também fazer um glu-glu-glu um tanto quanto refinado.

Estamos perdendo a capacidade de avaliar e julgar abstratamente as ideias. As palavras ditas não são ouvidas. O conteúdo não é julgado. É por isso que observamos nas igrejas evangélicas o seguinte absurdo: nas igrejas em que o pastor/líder é carismático e simpático há grande crescimento de membros, nas outras igrejas em que as mesmas palavras do Evangelho são pregadas por um pregador mais sério não há grande crescimento da membresia. Isso acontece porque as pessoas não avaliam mais a palavra, mas o seu portador, o líder. Aquele pastor que deixa o público mais confortável e que não lhe fere o ego. Daí a característica indispensável à liderança pós-moderna: tornar-se uma bunda de peru, pois as pessoas têm atendido ao carisma e não à Palavra da Salvação.
Não que seja ruim ou errado ser agradável e simpático, pelo contrário devemos sim tratar o próximo com amor e respeito. Contudo, tratar com amor exige que acima do carisma esteja a defesa intransigente do que é correto, justo e Verdadeiro. A omissão e o silêncio constantes diante do mau para tentar ser agradável e preservar-se é postura vil, egoísta, covarde e pecaminosa.

Percebam que não falo aqui contra a postura sábia e recomendada em Provérbios de silenciar-se e refrear a boca. Abordo aqui a postura daqueles que ocupando papel de liderança e muitas vezes pagos para combater o mau e propagar a verdade se omitem e se calam. Não falo daqueles que sabiamente buscam um momento e as palavras corretas, mas daqueles que exatamente nesses momentos corretos se calam e desaparecem entre penas para manter a pose ou manter-se no cargo.

Por fim, ser um bunda de peru e contentar-se com os erros para fazer papel de homem bom e simpático é atitude pecaminosa. Podemos extrair esse princípio bíblico que condena tanto a ação quanto a omissão de Levíticos 5:1 que diz "Se alguém pecar porque, tendo sido testemunha de algo que viu ou soube, não o declarou, sofrerá as consequências da sua iniquidade." Ou seja, é pecado omitir-se quando se devia agir.

Portanto caros leitores, gostaria de convidar a todos para deixarmos de sermos cristãos bundas de peru e resgatarmos o nosso antigo ideal bíblico e protestante para, de fato, protestar contra os pecados, equívocos e injustiça da nossa sociedade e das nossas igrejas. Pois não fomos chamados para sermos pessoas legais, simpáticas e aprovadas pelos outros, mas para sermos como Jesus e glorificar a Deus não nos conformando com esse mundo, mas erguendo acima de tudo o pendão da verdade, abrindo mão, se necessário, da nossa reputação entre os homens.

E você amigo, é um bunda de peru?


“A paz se possível, mas a verdade a qualquer preço.” Martinho Lutero

Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia.” João 15:19



1 - Como por exemplo, a famosa frase historicamente atribuída ao pensador moderno, Voltaire: Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las

Um comentário:

  1. Ótimo texto, André!! Vejo agora quantas vezes já fui um cristão omisso diante de sérias questões em prol do bem estar com a congregação. Que Deus nos livre dessa realidade e nos ajude a não sermos "bundas de peru"

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