sexta-feira, 5 de abril de 2013

POR UMA ESPIRITUALIDADE MAIS TERRENA

Igor Campos

Numa certa ocasião fiz a seguinte pergunta para um grupo de jovens: o que é ser espiritual? E não fui surpreendido quando grande parte respondeu: uma pessoa espiritual é aquela que ora muito e lê a Bíblia. Disse então que essa afirmação não está totalmente errada. No entanto, já dizia um provérbio chinês que uma meia verdade é  uma mentira completa. Aquela afirmação sinaliza um conceito antibíblico de espiritualidade - e veremos porque. Qual seria, afinal, a resposta certa para essa pergunta? 
Vejamos abaixo uma  tirinha do cartunista Quino, na qual discutem Mafalda e Miguelito:


O final bem-humorado da tirinha é pelo corpo humano tornar-se então desprezível, já que teremos de devolvê-lo depois. O corpo é um simples vasilhame da alma - esta a parte que realmente importa. No entanto, o corpo não fica (permanentemente) aqui: 
Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz.
E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação. (João 5:28-29; grifo meu).
Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas. (Filipenses 3:21; grifo meu).
Jesus afirma que os que estão nos sepulcros ressuscitarão para a eternidade da salvação ou da perdição, e Paulo diz aos filipenses que nosso corpo abatido será transformado em corpo glorioso, assim como o de Cristo. A conclusão que se chega é que corpo humano faz parte do plano redentivo de Deus. Isso é claro em Romanos 8:23 e I Coríntios 15:12-57 e foi exemplificado na vinda de Jesus: Ele veio à nós corporalmente (Lucas 2: 6-7 e João 1:14), cresceu (Lucas 2:52), teve fome (Mateus 4:2 e Marcos 11:12) e sede (João 19:28), ficou cansado (João 4:6) e sentiu dor. Se o corpo realmente não tivesse importância, porque se incomodaria Cristo de vir em carne ao invés de surgir em uma luz branca e voar sobre todos com uma alma fantasmagórica? Cristo habitou entre nós e viveu a vida que o Pai quer que tenhamos. E qual a relação desse fato com a espiritualidade? A relação é a seguinte: uma visão dualista de corpo e alma revela um conceito errado de espiritualidade. Por sua vez, um conceito errado de espiritualidade, além de herético é desastroso para a vida cristã, já que:

a) Despreza a integralidade do homem 
Quando dividimos o homem no que chamamos de dicotomia (alguns mais ousados, tricotomistas, dividiram em alma, espírito e corpo), criamos uma antítese irreconciliável entre corpo e alma e apontamos para uma visão platônica e depreciativa do primeiro. Heresia, pois Deus criou tudo completamente bom (Gênesis 1:31).

b) Ignora o mandato cultural
Ouvi certa vez um líder dizer que eu deveria me preocupar mais em incentivar os jovens aos cânticos espirituais e a leitura da Bíblia em vez de músicas que falam da vida ou outros livros literários, pois é isso que Jesus nos manda fazer. É indiscutível o dever e necessidade da leitura bíblica e de louvar à Deus com cânticos. No entanto, Jesus não nos ordena a deixarmos o mundo a mercê da própria sorte para nos enclausurarmos em vigílias ininterruptas de oração e leitura da Bíblia. Acaso deixou Jesus as bodas de Caná para orar? Nos primeiros capítulos de Gênesis Deus ordena o mandato do homem para sujeitar e cultivar. Temos que viver uma vida piedosa, nunca uma vida pietista. A piedade é bíblica; o pietismo é individualista e gnóstico.
Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus. (I Coríntios 10:31, grifo meu).
c) Conduz a um evangelismo incompleto
A espiritualidade dualista (ampla relação com o zoroastrismo) leva cristãos imersos nela a crerem na superioridade da alma em relação o corpo. Logo, o foco de todo o trabalho evangelístico deve ser ganhar almas. Uma pergunta que me irrita profundamente é aquela de "quantas almas você já ganhou para Jesus". Nenhuma, porque eu não convenço ninguém do pecado, nem da justiça ou do juízo (João 16:7-8). A salvação é pela graça (Efésios 2:8-10), e há joio e há trigo (Mateus 13:24-30). Quando perguntamos isso, podemos estar mais preocupados em encher a igreja de joio do que pregar a palavra da verdade fora dela.

Parafraseio o apóstolo Paulo em sua carta aos romanos e pergunto: que faremos, pois, diante dessas coisas? Ora, uma mudança só virá quando entendermos o conceito bíblico de espiritualidade, já que este:

A) Respeita a integralidade do homem e ordena o mandato cultural
O homem deixa de ser uma alma presa no corpo para ser completo. Ser espiritual é ter a totalidade restaurada pelo Espírito Santo. E a restauração da totalidade do ser humano é o sinal de uma vida verdadeiramente piedosa, já que o futuro glorioso dos seres humanos em Cristo inclui ambos, a ressurreição do corpo e uma nova terra purificada e aperfeiçoada." [1]. Em contraste com a ideia pietista de que as coisas do mundo (cosmos) são insignificantes, o cristão verdadeiramente espiritual entende o senhorio de Cristo em todas as áreas de sua vida. O chamado do Gênesis é para as artes, economia, esporte, gastronomia, direito e política. E a piedade não é o abandono do mundo para melhorar a alma. Piedade é santidade no caráter, um zelo de crescer em graça e sabedoria, dar muito fruto do Espírito. 

B) Conduz a um evangelismo pleno
O cristão espiritual entende que a missão da igreja vai além da pregação do evangelho. É também dar testemunho das boas novas de Cristo e estendê-los para todas as áreas da sociedade:
Em sua tarefa evangelista e missionária, a igreja deveria lembrar-se também que ela está tratando com pessoas completas. Embora o propósito principal de missões seja confrontar as pessoas com o evangelho, de forma que elas possam se arrepender de seus pecados e serem salvas através da fé em Cristo, todavia a igreja nunca deve se esquecer que os objetos de sua empreitada missionária tem necessidades tanto físicas quanto espirituais. Com isto em mente, o fato de que o homem é um ser unitário, deveríamos evitar expressões como "salvar a alma" quando descrevendo a tarefa do missionário, e deveríamos optar por uma abordagem holística abrangente em missões. Esta abordagem, que algumas vezes é conhecida como "o ministério da palavra e das ações", direciona o missionário a estar preocupado não somente a respeito de ganhar convertidos para Cristo, mas também em melhorar as condições de vida desses convertidos e seus vizinhos, trabalhando em áreas como agricultura, dietética e saúde. [1]
Voltemos a Mafalda e seu amigo Miguelito. A visão de Mafalda acerca do corpo é dualista e errada. O corpo humano não é um vasilhame e o mundo físico não é só uma passagem. E para nós, cristãos, tudo isso acarreta em um falso ensino do que é espiritual.  O cristão espiritual é aquele que anda no Espírito porque foi alcançado por ele. 
Ainda há muito pietismo e muita espiritualidade errada nas igrejas quando a graça comum é rejeitada. Se cremos que Deus é a fonte da verdade, somos insultuosos com o Espírito de Deus quando rejeitamos essa verdade (quer ela apareça em crentes, quer ela apareça em não-crentes) [3]. Por esse motivo, ouso desejar uma espiritualidade mais terrena. Na música, escute mais Tom Jobim e menos Cassiane. Na literatura, leia mais Tolkien e menos Rebbeca Brown. No cinema, assista mais filmes do Clint Eastwood e menos "Deixados para Trás" e seus derivados. Passando tudo que fazemos pelo crivo da Palavra, não insultamos o Espírito de Deus. Pelo contrário, somos assim verdadeiramente espirituais.


REFERÊNCIAS:
[1] Criados à Imagem de Deus. Anthony Hoekema. 2ª edição. Cultura Cristã.
[2] Artigo "O que é pietismo?" de  R. C. Sproul. Jr. Highlands Ministries.
[3] As Institutas. João Calvino.

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