quinta-feira, 15 de agosto de 2013

BATALHA ESPIRITUAL



Por Leonardo Verona

O interesse especulativo pela “Batalha Espiritual” tem crescido de forma exponencial nas últimas três décadas. Livros e mais livros são lançados todos anos sobre tema. São ex-satanistas contando os segredos mais profundos do reino das trevas, viagens aos vários andares do inferno, mapeamento espiritual de territórios, quebra de maldições, e por aí vai. Mas, o que de fato a Bíblia fala sobre Batalha Espiritual? Será que essa batalha existe? Se sim, como devemos lutar nessa guerra? Não pretendo tratar exaustivamente do assunto neste texto, mas fazer uma breve reflexão com base em Lucas 11.21,22 e Efésios 6.12-18.


Lucas 11

11.21   Quando o valente, bem armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens.
11.22   Sobrevindo, porém, um mais valente do que ele, vence-o, tira-lhe a armadura em que confiava e lhe divide os despojos.

Efésios 6

6.12   porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.
6.13   Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis.
6.14   Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça.
6.15   Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz;
6.16   embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.
6.17   Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;
6.18   com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos

Na primeira cena, em Lucas 11, vemos Jesus responder as acusações dos fariseus de que ele curava os endemoninhados com o poder de Belzebu. Nos versos 21 e 22, Jesus explica o que de fato estava acontecendo no mundo espiritual. Um valente, simbolizado por satanás, que está bem armado, guarda a sua casa e seus bens, ou seja, aqueles que estão perdidos, cegos, oprimidos e dominados pelas trevas. Entretanto, surge em cena alguém ainda mais valente, que simboliza Jesus Cristo. Este vence satanás e tira a armadura que ele confiava. A palavra no grego utilizada para armadura neste versículo é “panoplian”.  “Panoplian” não se refere as armaduras que os soldados romanos comuns utilizavam, já que no grego, o termo utilizado para a armadura comum é “elekoi”. “Panoplian” refere-se a armadura utilizada pelos oficiais. Estas tinham o brasão do imperador, indicando que aqueles que a portavam tinham autoridade. Os soldados que a utilizavam comandavam estrategicamente o exército, comunicando quando era necessário avançar ou recuar.
Na segunda cena, em Efésios 6, no verso 13, Paulo fala sobre uma armadura que devemos utilizar. Curiosamente, o termo utilizado para armadura neste versículo também é “panoplian”. Lucas 11 e Efésios 6 sãos os dois únicos lugares onde a palavra “panoplian”, no sentido indicado, aparece no Novo Testamento.
A partir dessa observação, podemos deduzir que o Primeiro Advento de Cristo proporcionou uma perda de autoridade do reino das trevas. A armadura (autoridade) que satanás tinha, até então, lhe foi retirada pelo valente maior. E esta armadura (autoridade), à luz de Efésios 6, foi dada à Igreja. Essa cena pode ser relacionada à prisão de satanás (Ap 20.1-3), que foi impedido de enganar as nações durante o milênio (a era que iniciou-se com o Primeiro Advento), já que outrora, o príncipe da potestade do ar enganava todas as nações, pois só Israel possuía a Revelação. Com a vinda de Jesus, a Igreja recebeu autoridade (armadura) para levar a Verdade a todos os povos.
Agora que entendemos o significado dessa armadura, passemos a analisar o que Efésios 6 nos fala a respeito da Batalha Espiritual. Primeiramente, Paulo nos diz que a nossa luta não é contra “sangue e carne” (‘aima kai sarka’: o conjunto das tendências humanas). A melhor tradução no grego para este trecho seria que a nossa luta não é prioritariamente contra “sangue e carne” (o conjunto das tendências humanas), mas contra os principados, potestades e “dominadores deste mundo tenebroso” (‘kosmokratoras’: estrategistas do mal), contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes. Logo, vemos que existe sim uma Batalha Espiritual, onde seres espirituais do mal (“kosmokratoras”)  tramam contra nós. Já que chegamos a essa constatação, como então devemos lutar nessa guerra?
O texto de Efésios 6 nos dá a resposta, qual seja, para que tomemos toda a armadura (“panoplian”) de Deus, para resistirmos no dia mal e para ficarmos firmes contra as ciladas do diabo. Então, como se revestir desta armadura? Certa vez, ouvi um pastor que dizia que deveríamos vestir a armadura com gestos físicos (atos proféticos), colocando o capacete e etc, pois assim, estaríamos vestidos da armadura de forma espiritual. What???  Deixemos as aberrações de lado e vejamos o que Paulo quis dizer nesses versos. O apóstolo faz uma analogia entre a armadura de um soldado com a nossa preparação para a batalha espiritual. Primeiro, o texto nos diz para cingirmos com a verdade. Devemos ter certeza da veracidade objetiva da Palavra de Deus, e além disso, devemos promover e viver a verdade. Segundo, nos é dito para vestirmos a couraça da justiça. Revestidos da justiça que nos foi imputada por Cristo, podemos nos manter firmes contra as acusações do diabo (o difamador). Terceiro, nos é dito para calçar os pés com a preparação do evangelho da paz. A figura aqui é aquela das fortes sandálias do soldado romano. De forma irônica, a paz que vem do Evangelho nos dá estabilidade e nos prepara para a guerra contra o mal. Quarto, nos é dito para embraçarmos o escudo da fé. Segundo o comentário da Bíblia de Estudo Genebra “um soldado romano de infantaria carregava um escudo comprido e retangular que cobria o seu corpo da cabeça aos pés. Ele era feito madeira, coberto com pele e ferro na parte superior e na parte inferior. Quando mergulhado em água antes da batalha, ele podia apagar as flechas que haviam sido mergulhas em piche, acesas e então atiradas.” Logo, esta analogia nos diz que com a fé podemos nos manter firmes na promessa da salvação e de que Cristo está conosco até a consumação dos séculos. Assim, podemos resistir as acusações e tentações do maligno. Quinto, nos é dito para tomarmos o capacete da salvação. Devemos ter a firme convicção da nossa salvação, pois além de ser uma experiência futura, ela também pode ser vivenciada no presente. Por fim, devemos portar a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. Esta é a única arma de ataque do nosso arsenal.  A espada aqui é a de defesa do soldado romano, e não a de ataque. E devemos fazer tudo isso, como toda oração e súplica.
Com base em Efésios 6, como então devemos lutar? Podemos notar que os ensinamentos bíblicos a esse respeito nada tem a ver com as práticas nada ortodoxas que vemos por aí na maioria dos livros e manuais de batalha espiritual contemporâneos, como: fazer mapeamentos espirituais de territórios para derrubar determinada potestade e só assim teríamos autoridade sobre o lugar; amarrar demônios de imagens ou exorcizar demônios de objetos e comidas consagrados; fazer quebra de maldições em pessoas que supostamente foram consagradas ao diabo na infância ou durante rituais de magia negra; amarrarmos o diabo; sair por aí achando e destruindo trabalhos de macumba; descobrir nomes dos demônios e desenhar uma suposta hierarquia espiritual; viagens aos andares do inferno e etc.  Em nenhum momento, a Bíblia nos ordena a agirmos conforme essas práticas, em nenhum lugar das Escrituras nos mostra os apóstolos aplicando esses métodos nas igrejas e nas suas viagens missionárias! Essas práticas, nada mais são do que uma paganização do cristianismo, são práticas de outras crenças adentrando nos corredores da igreja! Além disso, essas práticas se mostra totalmente dualistas, como se as forças do bem e do mal tivessem, na prática, o mesmo poder.
O modo bíblico de lutarmos contra os dominadores desse mundo, como vimos em Efésios 6, é tomando as partes da armadura, que são os meios de graça que a obra de Cristo nos deu, como: a salvação, a justificação, o Evangelho, a paz, a fé, e a Palavra de Deus. Vimos que, a única arma de ataque do nosso arsenal é a espada (a Palavra), e mesmo assim, é uma espada utilizada para a defesa pessoal do soldado romano. Logo, ao analisarmos as partes dessa armadura, concluímos que não fomos chamados para sermos caçadores de demônios, e sairmos para atacarmos literalmente um batalhão de seres malignos, como prega os defensores da batalha espiritual contemporânea. Nessa batalha, devemos é resistir aos ataques, às tentações e as acusações do diabo e seus demônios. Assim como Jesus o fez aqui na terra, mormente quando foi tentado pelo diabo no deserto.
Não devemos cair na tentação de “espiritualizarmos” tudo e cairmos numa batalha sem conexão com a realidade, que resolve todos os problemas com ritos e mantras. A batalha espiritual do cristão tem implicações práticas em todas as áreas de nossas vidas. Então, lutemos essa batalha nos revestindo com os meios de graça que nos foi dado, nos considerando mortos para o pecado, levando o Evangelho aos homens e a todas as áreas de nossas vidas.

Bibliografia:
Bíblia de Estudos de Genebra
"A revolução a partir de nós mesmo" Palestra (áudio) Ronaldo Lidório

2 comentários:

  1. Para uma maior analise, acho que deve citar a passagem de Daniel, e também abordar se/ou/como os seres espirituais (anjos etc) participam desta batalha. E pode concluir falado até que ponto isto impacta nossa vida na terra e qual o nosso domiínio/função nesta batalha. Abrs Leonado Fretias

    ResponderExcluir
  2. Muito obrigado pela sugestão Leonardo Freitas, posso pensar em escrever um texto depois abordando essa questão. Entretanto, como esse texto aborda a nossa maneira de agir nessa batalha, e não como os anjos a fazem, creio que não e necessário tratar deste assunto no presente texto.
    Um abraço!
    Leonardo Verona

    ResponderExcluir