sexta-feira, 4 de outubro de 2013

AMAI UNS AOS OUTROS, EXCETO ....

Por André Storck

A igreja evangélica brasileira vivencia um fenômeno no mínimo interessante: a criação de exceções não bíblicas para os mandamentos bíblicos.

Explico-me. Como sabemos nunca houve tanto crente no Brasil! Todavia, a grande maioria das pessoas está na igreja por um desses motivos: amizades, entretenimento ou medo do devorador e do inferno. A igreja virou um clube social e este é o primeiro fator para o surgimento das exceções: crentes de brincadeirinha. Na primeira dificuldade, desentendimento ou desapontamento esta espécie de "crente" está pronta para sair para outra igreja ou mesmo voltar ao mundão. Não são crentes de verdade, remidos no sangue, que reconhecem seus pecados e que buscam perdão e santificação, desse jeito, facilmente abrem exceções ao cumprimento dos mandamentos, pois não têm de fato compromisso com a obediência, mas apenas consigo mesmo.

O segundo fator é de certa forma conseqüência do primeiro: o distanciamento do estudo sério da Bíblia e das doutrinas reformadas. Os crentes em sua maioria não sabem mais conversar, dialogar e argumentar seriamente com ateus, agnósticos e com outras religiões. Não sabem responder as perguntas sinceras que são feitas por não-cristãos.  A ordem de 1Pe 3:15 é solenemente ignorada: "Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês".
Um exemplo disso, é que o Breve Catecismo de Westminster originalmente criado para crianças, para os filhos dos crentes, é hoje material de alta complexidade e objeto de desconhecimento da maioria dos crentes com mais de 30 anos de igreja.

Chegamos ao cúmulo de grande parte dos próprios pastores não conseguirem dialogar sequer com uma parcela das suas próprias ovelhas que buscam estudar um pouco mais. Estes líderes acabam preferindo isolar os que buscam se aprofundar no conhecimento da Palavra para evitar uma auto-exposição ao ridículo diante de uma conversa em público sobre algum tema bíblico. O único lugar que resta para esses pastores poderem falar é o púlpito onde podem dizer o que quiser sem serem incomodados.  Espero que na atual onda de imitação da igreja primitiva, a igreja copie também a moda primitiva de interrupção das exposições pelos membros com perguntas e solicitando bases bíblicas, isso inibiria o uso do púlpito como o famoso “castelo dos covardes”.

As falas dos crentes de hoje se limitam a certas frases clichês, que são repetidas como mantras e muitas vezes sequer tem base bíblica, por exemplo:
“Temos que amar uns aos outros”
“Não podemos julgar”
“Tudo me é lícito, mas nem tudo convém”
“Tudo posso naquele que me fortalece”
Geralmente essas frases são ditas com vozes mansinhas, acompanhadas de um fundo musical e com um olhar de amor e piedade para tentar com a emoção convencer os incautos e dar um sentido que a razão e a Bíblia não dão.

Mas há esperança. Como nunca antes, tem ocorrido uma expansão da literatura, dos autores e pastores reformados no Brasil, entretanto - como a toda ação corresponde uma reação - temos observado o interessante fenômeno da criação de exceções para os mandamentos bíblicos, exatamente com objetivo de com elas tratar de forma diferente essa nova geração que busca ao Deus das Escrituras.

Estes homens e mulheres de Deus que se levantam para falar com amor, mas também com firmeza as verdades do Evangelho são tratados conforme essas exceções e isso ocorre porque eles pregam com convicção e intrepidez o Verdadeiro Evangelho. E este Verdadeiro Evangelho incomoda muito, cutuca o “eu”, corrói vaidades, quer derrubar o conforto do erro e do pecado, inclusive dentro da igreja.

O primeiro exemplo de exceção criada pelos "crentes de brincadeirinha" é o mandamento de amar uns aos outros, o qual agora só vale para os uns, não para os outros. Esses outros que falam mais firmemente ao expor a Bíblia são considerados radicais e presunçosos. Esses que dizem que a verdade é uma só precisam ser rechaçadas. Afinal, dizem os crentes de brincadeirinha: "Cada um tem a sua verdade, e quem ama não tenta impor uma verdade. Se fosse possível seriam fisicamente eliminados, mas como não dá, elimino-os do meu Facebook, elimino-os das minhas orações, elimino-os do meu convívio e os privo do meu sorriso."

Aposto que muitos de vocês leitores já observaram o cômico boicote no Facebook que muitos “super santos”, defensores da união acima da verdade fazem contra as postagens de pensadores e pessoas reformadas/calvinistas.  Conheço crentes que curtem, participam e comentam todo tipo de postagem: moda, culinária, futebol, carros, política, música, comida, sexo, namoro, mas as postagens cristãs alertando sobre alguma necessidade da Igreja são solenemente ignoradas para evitar incomodar sabe-se lá quem, ou o quê e talvez criar alguma divisão.

Na minha própria experiência, já vi muitas pessoas simpaticíssimas que quando foram chocadas por algumas duras verdades bíblicas passaram a me olhar com cara feia e automaticamente perderam aquele “amor” que tinham por minha pessoa. É uma pena, mas isso não pode impedir que continuemos a falar, por amor, o que é certo aos olhos de Deus. Pois ao mesmo tempo em que alguns mais orgulhosos ficam irados, outras pessoas mais simples e humildes têm as mentes abertas e os corações transformados pela Palavra e vêm em segredo nos agradecer por falarmos de acordo com a Bíblia.

Outro exemplo de exceção criada: há um mantra de que os crentes não podem julgar (é por isso que muitos vão ser facilmente enganados pelo anti-cristo, pois terão que acreditar nele, já que não podem julgar). Assim, a grande massa da igreja acredita piamente que Jesus disse para não julgarmos nada. Mas neste ponto abrem mais uma exceção: julgam os que julgam e os condenam a não poder julgar mais. Chega a ser cômico, se não fosse trágico.

Alguns crentes impregnados pela idéia pós-moderna da “união acima de tudo” não toleram sequer ouvir, postar, curtir ou compartilhar versículos bíblicos com medo de ferir alguém que se encaixe no vício apontado pelo versículo. Se dependesse desse tipo de crente estou certo de que até hoje só haveria no mundo uma única igreja: a Católica Apostólica Romana, pois a divisão que Lutero fez pra se separar dos erros seria considerada nefasta e rebelde. São crentes que querem levar o joio junto com o trigo para o céu, tudo para evitar a divisão e o exercício do dever de corrigir e disciplinar.

Que Deus dê força, ânimo, humildade e perseverança a essa nova geração que se levanta em todo Brasil para que permaneçam firme diante do mundo e diante da igreja. Fiquemos atentos para não cairmos nesses vícios e vigilantes para não cedermos diante da perda de "popularidade" que o viver do verdadeiro Evangelho traz.



Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.

Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.
Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Calvinismo da Cozinha

por Jonh Piper

Charles Spurgeon nunca cursou faculdade, muito menos seminário. Mas aos vinte anos ele sabia mais de teologia bíblica do que muitos pastores de hoje. De onde ele tirou tanta sede pelo estudo independente? E como ele veio a estimar as doutrinas da graça soberana que nós temos considerado nas últimas três semanas? Aqui está uma lição surpreendente de sua Autobiografia (ainda sem tradução em português).

As primeiras lições que eu tive sobre teologia vieram de uma velha cozinheira na escola em Newmarket, onde eu era professor-assistente. Ela era uma boa alma, e costumava ler The Gospel Standard (O Padrão do Evangelho - livre tradução; antigo periódico cristão). Ela realmente gostava de algo muito doce, a doutrina Calvinista boa e forte, mas ela viveu de maneira forte, assim como se alimentou de maneira forte. Muitas vezes conversamos sobre o pacto da graça, e falamos da eleição pessoal dos santos, de sua união com Cristo, de sua perseverança final, e do que a piedade vital significava; e eu acredito que aprendi mais com ela do que teria aprendido com quaisquer seis doutores em divindade, desses tipos que temos nos dias de hoje.
Existem alguns cristãos que provam, e vêem, e apreciam a religião em suas próprias almas, e que alcançam um conhecimento muito mais profundo dela, mais do que os livros jamais poderiam lhes proporcionar, embora eles busquem todos os seus dias. A cozinheira de Newmarket era uma experiente e piedosa mulher, de quem eu aprendi muito mais do que do ministro da capela que nós frequentávamos. Eu uma vez perguntei a ela: "Por que você vai a esse tipo de lugar?" Ela respondeu: "Bem, não existe outro lugar de adoração ao qual eu possa ir." Eu disse: "Mas deve ser melhor ficar em casa do que ouvir certas coisas." "Talvez sim," ela respondeu; "Mas eu gosto de ir adorar mesmo que eu não receba nada por isso. Você vê uma galinha às vezes ciscando por todo um monte de entulho para tentar encontrar algum milho; ela não encontra nenhum, mas isso mostra que ela está procurando por ele, e usando de meios para consegui-lo, e assim, também, este exercício a está aquecendo."
Então, a velha senhora disse que aquele ato de ciscar exercitava suas faculdades espirituais e aquecia seu espírito. Em outra ocasião, eu disse a ela que eu não havia encontrado uma só migalha em um sermão todo, e perguntei como ela tinha se saído. "Oh!" ela respondeu, "eu me saí melhor esta noite, pois para tudo o que o pregador disse, eu simplesmente adicionei um não, e isso transformou suas palavras no verdadeiro evangelho."
Grato pelas cozinheiras em minha própria vida, Pastor John.

FONTE: Desiring God