terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O que você faria se...?

por André Storck

Se um dia lá na sua igreja surgir um homem bem vestido e de fala mansa...


E se este homem for simpático e amável, cativando a todos com doces canções e belas mensagens. E se, de repente, este homem ora aos céus e realiza milagres e prodígios? Expulsa demônios, tira pessoas de vícios, fala línguas estranhas e, orando, traz cura para os doentes...


E se este mesmo homem começa a ensinar novas práticas não ensinadas na Bíblia? E se começa a inventar métodos diferentes nunca usados por Jesus ou por qualquer um dos apóstolos ou profetas?

E se ele considerar que a mera exposição do Evangelho puro e simples não é mais suficiente para libertar e ajudar as pessoas? E se ele disser que são necessários novos métodos humanos para evangelizar, curar e libertar as pessoas? E, assim, inventar novidades, acessórios, apetrechos, mandingas, jeitinhos, frases de efeito, rituais e outras técnicas para servirem de bengala para a Palavra de Deus?

O que você faria? Seguiria a este homem?

O Senhor nosso Deus nos ensina que:

“SE aparecer entre vocês um profeta ou alguém que faz predições por meio de sonhos e lhes anunciar um sinal miraculoso ou um prodígio, e se o sinal ou prodígio de que ele falou acontecer, e ele disser: "Vamos seguir outros deuses que vocês não conhecem e vamos adorá-los", não dêem ouvidos às palavras daquele profeta ou sonhador.

O Senhor, o seu Deus, está pondo vocês à prova para ver se o amam de todo o coração e de toda a alma. Sigam somente o Senhor, o seu Deus, e temam a ele somente. Cumpram os seus mandamentos e obedeçam-lhe; sirvam-no e apeguem-se a ele. Aquele profeta ou sonhador terá que ser morto, pois pregou rebelião contra o Senhor, contra o seu Deus, que os tirou do Egito e os redimiu da terra da escravidão; ele tentou afastá-los do caminho que o Senhor, o seu Deus, lhes ordenou que seguissem. Eliminem o mal do meio de vocês.” Deuteronômio 13:1-5

Percebemos pela leitura do texto bíblico que muitas vezes Deus permite que milagres verdadeiros e experiências sobrenaturais ocorram para testar a fidelidade e o amor do seu povo.

Sabemos que a Bíblia, a Palavra de Deus já está completa, e é viva e eficaz, mais cortante que espada de dois gumes (Hebreus 4) e, sendo assim, não precisa de muletas para operar transformação na vida dos homens, sendo necessário apenas que seja pregada e anunciada com fidelidade e profundidade.

Uma das principais razões do surgimento dos protestantes que se separaram da Igreja Católica foi que a Igreja Romana havia acrescentado muitas coisas às Escrituras, seguindo tradições que não encontravam respaldo bíblico, como a venda de indulgências ou o silêncio obrigatório dos monges para conseguirem “ficar mais perto de Deus”. Hoje, infelizmente, muitas igrejas evangélicas seguem o mesmo caminho.

Qualquer um que aumenta ou retira palavras das Escrituras está levando as pessoas a servirem um novo senhor, um novo deus, que não aquele que já nos escreveu a sua Palavra, Palavra esta toda inspirada pelo próprio Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda, repito, toda boa obra. (II Timóteo 3).

O que passar disso, seja anátema.

Que possamos nisso refletir e permanecermos sempre fiéis ao nosso Senhor, eliminando o mal do nosso meio. (Dt. 13:5).

domingo, 16 de novembro de 2014

Breves considerações


A TODOS OS LEITORES, AMIGOS E PARCEIROS DO BLOG DO GRUPO DE ESTUDOS DE COSMOVISÃO CALVINISTA:

Aos 31 dias do mês de outubro de 2014, no aniversário do quadringentésimo nonagésimo sétimo ano da Reforma Protestante, reunimo-nos para a assembleia de fundação da Associação Grupo de Estudos de Cosmovisão Calvinista.

Louvamos a Deus pela sua infinda misericórdia e graça com nosso grupo, que tem sido plataforma (seja nas reuniões do GECC e GET, seja nas postagens no blog) para o acesso à fé cristã reformada e para o crescimento espiritual de muitas pessoas.

Estamos em um importante processo de transformação para que esse grupo, agora legalizado como associação, possa ampliar os horizontes na direção de contribuir para o progresso social e político, promover parcerias com alianças e entidades semelhantes, promover e divulgar estudos e fomentar o desenvolvimento da cultura, visando à glória do Nosso Senhor Jesus Cristo em todas as esferas da vida humana.

Entre em contato, participe conosco e esteja em oração para que os estudos e trabalhos de cosmovisão cristã calvinista continuem progredindo!

Se reputarmos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade, a própria verdade, onde quer que ela apareça, não a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus. Ora, nem se menosprezam os dons do Espírito sem desprezar-se e afrontar-se ao próprio Espírito. 
João Calvino, nas Institutas, cap. II, 15.
Até aqui nos ajudou o Senhor
1 Samuel 7:12

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Soberania das esferas


por Solano Portela

Algumas pessoas têm me perguntado: "Afinal, o que é Soberania das Esferas e onde posso aprender sobre isso"? O interesse redespertado pela teologia reformada tem trazido esse termo e conceitos à tona, junto com "cosmovisão", "neo-calvinismo" e vários outros. Soberania das Esferas é uma expressão encontrada na obra do filósofo holandês Herman Dooyeweerd (1894-1977). Seu tratado, extenso e muito técnico, não disponível em português, é chamado Uma Nova Crítica do Pensamento Teórico (A New Critique of Theoretical Thought, em 4 espessos volumes, tradução do original holandês publicada originalmente em inglês por H. J. Paris, em 1957).

O pensamento expresso por Dooyeweerd é complexo, mas, simplificadamente podemos dizer que ele os construiu sobre os conceitos já apresentados anteriormente por João Calvino (1509-1564) e, com bastante intensidade, na terminologia e e escritos de Abraão Kuyper (1837-1920). Em resumo, ele ensina que cada instituição criada por Deus (a família, a escola, o estado), possui uma área específica de autoridade e regência, ou seja, são esferas bem delimitadas e específicas.

Isso não significa que tais esferas sejam autônomas. Ainda que independentes, cada uma deve responder a Deus, o doador desta autoridade. A soberania de cada uma quer dizer que elas não devem usurpar ou interferir na autoridade da outra esfera. Cada uma dessas esferas, autoridades em si, são responsáveis por suas missões e ações, na providência divina, perante Deus.

Por exemplo, no caso de uma escola cristã, ela deve entender que não usurpa a autoridade da família, nem da igreja. Muito menos substitui essas outras esferas, mas deve trabalhar conjuntamente, em colaboração e respeito. A esfera da escola, e nisso ela tem autoridade, é ministrar conhecimento, sendo responsável, perante Deus, de transmitir esse conhecimento reconhecendo o Criador em todas as áreas do saber.

Outro exemplo, ao estado não cabe legislar moralidade, mas sim trabalhar com base em princípios universais (que procedem de Deus), reprimindo as atividades criminosas, protegendo os indivíduos de uma sociedade - essa é a sua esfera legítima. No momento em que se imiscui na esfera da família, ou da igreja (postulando o que é certo ou errado), ultrapassa a sua "soberania". O estado não tem poder ilimitado, mas deve se reger sob uma estrutura específica, que emana da Graça Comum derramada por Deus sobre todos os homens.

Essa ação abrangente da Graça Comum de Deus, além de possibilitar a sociedade, é que restringe, também, o pecado na humanidade e faz com que cultura de mérito e qualidade possa surgir nos mais diversos lugares e situações. Sobre isso, Dooyeweerd diz: “Deus, em Cristo mantém a estrutura de sua criação pela graça temporal preservadora”. Demonstrando um preciso entendimento bíblico, Dooyeweerd especifica que a Graça Comum de Deus é que “retém a completa demonização do mundo” e, como resultado, podemos observar em todas as partes “centelhas da glória de Deus, de sua bondade, verdade, justiça e beleza”, até nas “culturas idólatras” (Vernieuwing en Bezinning. Zutphen: J.B. Van Den Brink & Co., 1963, pgs. 36 e 39).

O trabalho de Dooyeweerd já foi abordado por várias obras. Uma das melhores é o resumo do seu pensamento escrito por J. M. Spier no livro, An Introduction to Christian Philosophy (Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1954), 155. Em português temos o seu excelente livro, No Crepúsculo do Pensamento Ocidental (The Twilight of Western Thought), traduzido e publicado pela editora HAGNOS, em 2010, com 304 pgs. e acabo de saber que a Edições Vida Nova publicou, agora em 2014, "Estado e soberania: escritos sobre cristianismo e política", do mesmo autor. Esses livros também podem servir para uma introdução ao pensamento desse grande filósofo cristão, que nos demonstra como a doutrina cristã é para ser testemunhada, vivenciada e experimentada em todas as áreas de nossa vida - incluindo o intelecto.


Texto de Solano Portela, postado originalmente no blog O tempora, o mores.
Disponível em: <http://tempora-mores.blogspot.com.br/2014/11/soberania-das-esferas.html>

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Palestras sobre Igreja e Política

As eleições se aproximam, logo, não existe momento mais propício para discutirmos sobre o papel dos cristãos e da Igreja na política.
Todos estão convidados para as palestras sobre "Igreja e Política" na Igreja Presbiteriana Novo Eldorado (Contagem, MG), às 18 horas, no dia 20/09.
Entrada Franca!
Esperamos todos lá!

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Falando sobre evangelismo

por Yuri Fernandes

      Se existe um assunto que gera muitas dificuldades na igreja este assunto é o evangelismo. Evangelizar é um ato que passa por problemas de natureza teórica e prática: Muitos não discutem as bases bíblicas para o evangelismo, enquanto outros apresentam dificuldades práticas na hora do evangelismo (não saber abordar, não saber o que dizer). Tive uma prova empírica disto quando decidi participar com dois amigos das movimentações do “Dia de evangelização global” que aconteceu aqui em BH, e que teve a sua concentração na Praça 7 (o lugar onde as multidões se aglomeram e por onde todos passam). Um ar de estranheza havia se apoderado de mim, quando percebi que muitos dos jovens que estavam ali evangelizando, estavam usando narizes de palhaço, fazendo acrobacias, e com placas dizendo “Abraço grátis” (e abraçando transeuntes que ficavam sem graça) ou “Jesus te ama” enquanto as pessoas na correria de suas vidas diárias passavam por elas sem prestar muita atenção. Nada contra quem se utiliza das artes circenses para fazer o evangelismo, mas sempre que me lembro deste dia eu me pergunto qual foi o contato real que as pessoas da cidade tiveram com o evangelho. 
      Para além deste exemplo, tenho certa experiência no evangelismo universitário pelo fato de ter participado ativamente das atividades e da vida da Aliança Bíblica Universitária (ABU) em BH durante a minha graduação. E posso afirmar que apesar de evangelismo ser o foco da ABU, os estudantes sempre tiveram muita dificuldade de montar os estudos nesta perspectiva. Além disso, no meu envolvimento com a igreja local, percebo que muitos têm a vontade de participar mais ativamente de atividades de foco evangelístico, mas ficam perdidos sobre o como e o onde começar.
      


Evangelismo: a arte de falar

      Por que temos tanta dificuldade de evangelizar hoje em dia? Uma das dificuldades principais é que de fato temos uma má teologia de evangelização. Isto se mostra principalmente na máxima preferida de muitos: “Pregai o evangelho, se necessário use palavras”. Esta conhecida frase é muitas vezes atribuída à Francisco de Assis ou Agostinho de Hipona, e pode ser entendida como uma outra versão de outro provérbio gospel: “Às vezes a sua vida é o único evangelho que as pessoas vão ler”.
      Não deixa de ser evidente que estas máximas têm a virtude de nos lembrar de que devemos “andar de modo digno da vocação para qual fomos chamados” (Ef 4.1) e que o evangelho deve mudar de modo prático a nossa vida. Mas apesar desta virtude elas não passam de uma mentira deslavada. Isto é, pregar o evangelho sempre foi uma atitude enunciativa e compreender isto de outra forma é distorcer a nossa tarefa de evangelizar. Observe o que Jesus diz aos discípulos ao fim do Evangelho de Mateus, quando estabelece a grande comissão: 
E disse-lhes: "Vão pelo mundo todo e PREGUEM o evangelho a todas as pessoas” Mt 16.15
      Observem que a palavra usada é Pregar o evangelho. O sentido aqui é o de anúncio. Devemos anunciar o evangelho, e esta atitude mais do que simplesmente se expressar na vida, ela significa literalmente falar uma mensagem. Isto é, embora santidade seja a marca de uma vida cristã autêntica, ser santo não anuncia nada em si mesmo. Isto é, se o seu amigo vê você ajudando os necessitados, ou vê a sua fidelidade para com seu cônjuge, isto é certamente muito bom, mas não diz nada sobre o fato de que Jesus morreu na cruz pelos nossos pecados, ou sobre o fato de sermos todos pecadores necessitados da graça de Deus. Isto é preciso ser expresso claramente.
      A nossa conduta deve se relacionar com a nossa mensagem, por que se não vivermos a santificação, pareceremos hipócritas diante daqueles para quem estamos pregando. Ainda assim não devemos deixar que as pessoas dependam do nosso testemunho: Somos salvos, estamos nos santificando a cada dia, porém ainda somos pecadores. A nossa natureza pecaminosa sempre nos acompanhará e uma hora ou outra vamos dar mau testemunho. Fazer com que a nossa vida não seja o único evangelho que as pessoas leiam é justamente a nossa principal tarefa no evangelismo: Por que a nossa vida possui falhas, mas a vida, a morte e a ressurreição de Jesus é que aponta para o caminho eterno da Salvação.
      O fato de que o pecado é ainda uma realidade que habita em nós deve contar ao nosso favor na hora do evangelismo, afinal, parte da nossa mensagem é dizer que somos todos pecadores. Uma máxima que é bem usada, e que expressa melhor a natureza do evangelismo é aquela dita por Spurgeon: “Evangelismo é um mendigo dizendo a outro mendigo onde conseguir pão”. Ainda assim, suas atitudes podem sim servir de ponto de contato para o evangelismo. Alguém pode olhar para você e se perguntar o quê faz você agir diferente. Pode ser que ela te pergunte isso. E ai é que realmente começa a sua ação no evangelismo, por que você tem uma mensagem a pronunciar.


Evangelismo: uma mensagem a pronunciar

      Ora, descobrimos então que o evangelismo envolve anunciar algo. O que é esse algo que devemos anunciar? Um ótimo exemplo é a pregação de Paulo no Areópago:
Então Paulo levantou-se na reunião do Areópago e disse: "Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos, pois, andando pela cidade, observei cuidadosamente seus objetos de culto e encontrei até um altar com esta inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio. "O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor do céu e da terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas. Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas. De um só fez ele todos os povos, para que povoassem toda a terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habitar. Deus fez isso para que os homens o buscassem e talvez, tateando, pudessem encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós. ‘Pois nele vivemos, nos movemos e existimos’, como disseram alguns dos poetas de vocês: ‘Também somos descendência dele’. "Assim, visto que somos descendência de Deus, não devemos pensar que a Divindade é semelhante a uma escultura de ouro, prata ou pedra, feita pela arte e imaginação do homem. No passado Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam. Pois estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio do homem que designou. E deu provas disso a todos, ressuscitando-o dentre os mortos". Atos 17:22-32
      Estas palavras de Paulo já revelam partes essenciais da mensagem a ser proclamada no evangelho. Ele começa falando sobre Deus e a sua ação criativa, sobre o fato de Deus ter criado o mundo e de que Ele sustenta as nossas vidas. Logo depois, Paulo nos conclama ao arrependimento, isto é, estamos perdidos no pecado, mas ele nos mostra que a solução está no cristo ressuscitado. É claro que nesta pregação, Paulo está dialogando com uma questão especifica, que é a idolatria (este detalhe será importante no próximo texto), mas o esquema da mensagem é básico. Se fossemos resumir, a mensagem a proclamar é o esqueleto da cosmovisão cristã: Criação, Queda e Redenção.


      A nossa mensagem não deve começar com o fato de que Jesus nos ama, mas sim com o fato de que Deus existe e nos criou à sua imagem. Ela necessariamente tem que passar pelo fato que somos pecadores, e de que um Deus justo não pode tolerar pecadores. Esse é drama moral da raça humana, ter sua imagem distorcida pelo pecado que comente. Somente compreendendo a nossa miséria é que podemos compreender a nossa redenção, e mensurar o tamanho do amor que Jesus Cristo nos oferece. É no sacrifício de Cristo, ocorrido no tempo e no espaço que encontramos a nossa redenção.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Reforma, Imprensa e Esfera Pública

por Yuri R. Fernandes

O texto abaixo é trecho de um capitulo da monografia "Religão e Esfera Pública no Facebook", onde há uma reflexão a respeito do papel da Reforma Protestante para a consolidação do que é chamado de Esfera Pública e a respeito do papel da imprensa na Reforma. O trabalho completo pode ser acessado neste link.


Reforma, Imprensa e Esfera Pública


            A Reforma protestante, como já bem abordado por Alister McGrath, apesar de se tratar de um movimento de essência religiosa, não pode ser descolado dos seus aspectos sociais e históricos. O fato é que a Reforma ocorreu em uma época de transição da Idade Média para a Idade Moderna, um contexto histórico marcado por muitas mudanças sociais e politicas, como o surgimento da Burguesia e o surgimento dos Estados Nacionais. Uma das grandes mudanças foi também uma mudança técnica: A prensa gráfica de Gutemberg.
             A prensa gráfica é um dispositivo técnico de impressão que permite uma maior reprodução de textos, imagens e livros. É comum a ideia de que a prensa gráfica mudou o mundo, fazendo parte do trio imprensa-pólvora-Bússula, como observado por Francis Bacon (apud, Brigs e Burke 2004, p.26). Os historiadores Asa Brigs e Peter Burke (2004) atentam para o fato de que muitos pensadores teorizaram sobre o papel desempenhado pela prensa gráfica, descolando a visibilidade do contexto de co-presença, mudando as percepções e os modos de leitura, gerando uma maior preservação do conhecimento e ainda gerando críticas às autoridades estabelecidas. Todas estas mudanças foram por alguns chamada de “A revolução da prensa gráfica”.
            Se por um lado, a prensa gráfica parece ter revolucionado o mundo, por outro os dois historiadores apontam para alguns problemas desta visão. Em primeiro lugar essa revolução não foi uniforme, e durou cerca de 300 anos. Será que uma revolução lenta, poderia ainda sim ser uma revolução? Um segundo ponto é o problema do agente. Todas estas visões colocam o vetor da mudança no meio técnico de comunicação e não na gigantesca cadeia de seres humanos envolvidos no processo, como leitores, escritores e editores e do modo como eles se utilizavam deste aparato técnico.
            Há ainda um terceiro problema. Em geral esta visão não percebe que a inserção do meio impressão gráfica não substituiu as outras formas de comunicação. Há o que Brigs e Burke chamam de “sistema de mídia”, onde a comunicação oral, as formas de culto e situações de co-presença , manuscritos e cartas coexistem com a novidade técnica, sendo alteradas em alguns aspectos, por ela, e conformando esta novidade em outros. Neste sentido, é possível perceber, por exemplo que a comunicação oral, não foi apagada com o surgimento da imprensa, mas antes reforçada, uma vez que era comum que a leitura de livros fosse feita em público, de maneira tal que mesmo aqueles que não sabiam ler (a maioria da população) foram afetados com a inovação.
            Embora a Reforma protestante, até certo ponto, não teria sido possível sem essa inovação da prensa gráfica que disseminou rapidamente a ideia dos reformadores, ela também se inseriu neste contexto midiático complexo de um sistema de mídia: “após a Reforma, o sermão de domingo se tornou parte cada vez mais importante da instrução religiosa, tanto para protestantes quanto pra católicos” (Brigs e Burke , p.36). Estas condições estavam alinhadas com o objetivo da reforma de se comunicar com todos os cristãos, e não apenas os acadêmicos. É notável que foi a prensa gráfica que impediu que, por exemplo, Lutero fosse queimado na fogueira, como aconteceu com Jan Hus, um século antes, uma vez que de nada adiantava para a Igreja Católica eliminar Lutero se os escritos eram volumosos e de fácil acesso, além do preço acessível. “Neste sentido, a impressão gráfica transformou a Reforma em uma revolução permanente” (p.83). Sobre o modo como a prensa Gráfica influenciou a Reforma, Campos (2008) afirma:
Uma revolução na comunicação cristã viria após a descoberta da imprensa no Ocidente, por Gutenberg. Desde então se deu oficialmente, pelo menos no nível teórico, a passagem da hegemonia da oralidade para o da escrita. Conforme Ong (2001: 81 e ss), essa passagem implicou em reestruturação da consciência e das maneiras de se pensar o mundo. A percepção visual começou a predominar sobre a percepção auditiva, os olhos sobre os ouvidos e a boca. Seria, no entanto, nessa “era da imprensa” que a produção, transmissão e recepção da mensagem religiosa iria sofrer a sua primeira grande transformação. Esse processo de transformação foi historiado por Burke (2003) e Chartier (1998, 2002), que também fazem referência aos dilemas representados pelo advento das tecnologias computadorizadas em suas relações com a “era da imprensa”. (p.5)
            As imagens também entraram na batalha religiosa, sendo uma forma bem eficaz de se convencer aqueles que não sabiam ler. Elas constituíram um outro canal para a divulgação das ideias protestantes, um exemplo é a polêmica xilogravura Paixão de Cristo e Anticristo (1521) na qual a vida simples de Jesus é comparada com a opulência e o orgulho do papa. Outra maneira pelas quais os autores (Brigs e Burke) observaram a constituição da reforma foram os arquivos judiciais, que falam de muitos detalhes sobre a recepção de ideias novas, pela maneira como tentavam reprimi-las. Notável é o papel que estes registros dão a Taberna, como um lugar importante para a troca de ideias e boatos.
            Por estas características e outras foi que Brigs e Burke consideram a reforma protestante como a primeira esfera pública moderna [1]. Ela foi uma evento em que “as elites apelaram para o povo - e nos quais a mídia, sobretudo a imprensa, ajudou a elevar a consciência política”(p.107). Todas estas questões nos levam a refletir rapidamente sobre alguns pontos importantes para o presente trabalho.
            Em primeiro lugar uma vez que a nova mídia e a Reforma protestante surgiram em simultaneamente na sociedade europeia é necessário ver esta relação entre elas de maneira recíproca. Não foi apenas a Reforma que se apropriou do desenvolvimento da imprensa para divulgar as suas ideias e assim provocar uma mudança social. Ao usar a mídia os protestantes também a re-inventaram, explorando as suas possibilidades de uso e de adaptação. Isto é, não é apenas a história da reforma que fica comprometida quando se exclui o fator da imprensa, mas a própria história da imprensa fica comprometida quando a vemos sem o protestantismo.
            Isto nos leva a uma segunda reflexão. A reforma surgiu em uma ambiente midiatizado, isto é, ela nasceu como uma religião midiatizada. Isto não quer dizer que o catolicismo medieval não fosse midiatizado, uma vez que vitrais, sermões, teatros e imagens eram usos comuns para mobilizar as pessoas durante a idade média. Mas é inegável que a imprensa criou uma nova forma de se conceber a mídia e os seus usos. É neste contexto que se diz que o Protestantismo surgiu como uma forma de religião midiatizada, isto é, ele manteve aspectos básicos do cristianismo, mas no tocante ao uso da mídia para argumentar, se posicionar socialmente e evangelizar em um contexto em que apenas a co-presença não era mais suficiente. A reflexão que fica é até que ponto esta característica da Reforma permaneceu ou se descontinuou na medida em que novos meios foram se desenvolvendo e que a sociedade foi se pluralizando.
            Uma terceira reflexão diz respeito à Reforma Protestante como uma esfera pública. Isto implica no trabalho que os reformadores tiveram para gerar uma discussão e por outro lado, para desenvolver um aspecto público da religião. A busca por uma defesa cada vez mais consistente da fé por eles, levou a um aspecto interessante do protestantismo, o confessionalismo. Com os embates com os católicos, foi-se criando diversos documentos, as confissões de fé, que eram resumos e argumentações das principais doutrinas das igrejas. Em muitos destes documentos, já percebemos uma preocupação com o aspecto público da religião. Muitos fazem distinção entre culto público e a vida como um culto, a necessidade dos membros adentrarem formalmente à igreja não apenas pelo batismo mas por uma pública profissão de fé, além é claro de todo o sistema de impressão de sermões, bíblias, folhetos e livros envolvidos no processo. Todas estas impressões transparecem uma percepção de que a publicidade tem consequências, isto é professar a fé publicamente, implica em uma série de responsabilidades. Um bom resumo disto é o que consta no capitulo XX da Confissão de fé de Westminster, uma das principais confissões de fé da época e que é usada até hoje, que trata a respeito da liberdade cristã e da liberdade de consciência:
Se publicarem opiniões ou mantiverem práticas contrárias à luz da natureza ou aos reconhecidos princípios do Cristianismo concernentes à fé, ao culto ou ao procedimento; se publicarem opiniões, ou mantiverem práticas contrárias ao poder da piedade ou que, por sua própria natureza ou pelo modo de publicá-las e mantê-las, são destrutivas da paz externa da Igreja e da ordem que Cristo estabeleceu nela, podem, de justiça ser processados e visitados com as censuras eclesiásticas. (Confissão de Fé de Westminster, cap. XX, parte IV)
            Não é difícil perceber como era levado à sério na época a questão da publicidade. Uma vez que alguém se torna membro de uma igreja professando a fé, faz sentido que esta pessoa mantenha coerência com os princípios que professou também na publicidade. É importante perceber, que a aplicação da disciplina eclesiástica nesta caso só se dá no momento em que há incoerência entre a fé professada e a fé publicada.
            Ao abordar a confissão de fé, é necessário perceber que muitas das diferentes denominações da Reforma, se diferenciam e se destacam uma das outras justamente por estas confissões. É por este motivo que o luteranismo é diferente do Calvinismo e do anglicanismo. A partir de agora, focaremos no desenvolvimento de uma tradição especifica dentro da reforma, àquela que está diretamente relacionado com o objeto de estudo: O Calvinismo. Após esta incursão na história do calvinismo e suas controvérsias, vamos analisar um pouco a história e a conjuntura dos movimentos evangélicos brasileiros, o que nos dará uma base para compreender a página Calvino da Depressão.

[1] Há algumas controvérsias a este respeito. A grande questão é que para Brigs e Burke a esfera pública pode ser temporária ou permanente, o que diferencia o conceito deles e o de Habermas era que este a via apenas como permanente. A reforma foi uma esfera pública temporária, que assim como outros eventos, originaram alguns dos mecanismos que mais tarde iriam gerar um esfera pública permanente.


Referências Bibliográficas:

MCGRATH, Alister. As Origens Intelectuais da Reforma Protestante. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. 304 p.

BRIGGS, Asa.; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. 377 p.

CAMPOS, Leonildo Silveira. Evangélicos e Mídia no Brasil – Uma História de Acertos e Desacertos. In: Rever (Revista de Estudos da Religião). São Paulo, ano 8, set. 2008. Disponível em: <www.pucsp.br/rever/rv32008/tcampos.htm#footnote1nota>. Acesso: 03/04/2010.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

AMIZADE ÉTICA: UM DESAFIO

 Por André Storck

O Brasil é mundialmente conhecido como o país de morada de um povo amigável e simpático. Mas o que parecia ser um ponto positivo em nosso favor tem se revelado a cada dia uma terrível maldição.

Não é de hoje que observamos nossos governantes ascenderem ao poder porque são simpáticos e não pela competência. Os casos de corrupção e desvio de poder ao invés de serem investigados em favor da verdade e da moralidade são varridos para debaixo dos tapetes para proteger os “amigos” e “apadrinhados”.

Em conversa com dois colegas suecos em intercâmbio no Brasil constatei que, de fato, essa fama negativa é patente e já se espalhou, eles observaram sem dificuldades – em menos de 2 meses de intercâmbio - como no Brasil tudo se consegue por meio de conchavos, cochichos ao pé do ouvido e tapinhas nas costas. Essa cultura não vem de Brasília, mas está presente em cada casa do país, o que vemos no Congresso é apenas o reflexo.

Um dos casos que mais me chamou atenção foi a prisão do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Muito embora ele tenha sido filmado recebendo o dinheiro da propina, e o esquema de corrupção em que estava envolvido fosse mais claro que sol ao meio dia, havia dezenas, senão centenas, de partidários gritando palavras de ordem em seu favor na frente do prédio da Justiça no DF. Qual o critério usado para este tipo de apoio senão o partidarismo? A Câmara do Distrito Federal que devia fiscalizar resolveu que não iria sequer investigar, por quê? Por puro corporativismo, amigos do Governador eram maioria lá.

     Vivemos numa sórdida tradição política de proteger um "amigo" mesmo à custa da ética, do profissionalismo e da justiça. Em verdade o próprio conceito de amizade está corrompido. Todo mundo é amigo até o dia em que apontar um erro. O delator do famoso mensalão, Deputado Roberto Jefferson era "amigo" até que resolveu denunciar o escândalo no qual estava envolvido. Essa falsa amizade se faz sempre por interesse, seja para manter um cargo ou simplesmente para não se sentir sozinho ou com poucos amigos. O interesse pessoal sempre está na frente.

          O corporativismo está disseminado. O Conselho Regional de Medicina que devia investigar o médico que matava pacientes, se omite para proteger o colega. O Conselho da OAB que devia investigar o advogado que sumiu com o dinheiro da viúva não faz nada porque o ladrão “é de casa, é da família” e assim vamos.

No Brasil a lei só vale para o outro, como dizia o antigo provérbio: “aos amigos tudo, aos inimigos, a lei.” Ou seja, diante dos erros e corrupção dos “meus chegados” não faço nada e não deixo que ninguém faça. No máximo dou uma “ajeitada” porque dos meus amigos cuido eu. A justiça não se aplica aos do meu círculo, serve somente para os de fora. Um exemplo atual é a posição do governo federal de não permitir sequer uma investigação sobre o escândalo da Petrobrás, pois os líderes do partido e seus amigos é que estavam no controle da estatal. Não importa se bilhões de reais suados do povo brasileiro foram perdidos, o que importa é manter a camaradagem.

      A podridão do Poder contamina de tal forma os grupos dominantes que a partir de um certo ponto, quando todos já estão com o “rabo preso” ninguém é capaz de exigir uma postura mais honesta e justa. Vejam, por exemplo, os condenados pelo mensalão: antes de irem para a cadeia estavam ocupando cadeiras na mais importante comissão da Câmara dos Deputados: a comissão de constituição e justiça. Nenhum dos 513 deputados federais ousou levantar o dedo e apontar o erro, tudo em prol de manter a “amizade política” e não “se sujar”.

     Enquanto isso, os bilhões desviados em corrupção no país vão matando milhares de cidadãos desamparados diante de uma violência endêmica, saúde em péssimo estado e com a miséria.

Os políticos são eleitos porque são presidente/jogador do meu clube de futebol, pastor da minha igreja, ator de televisão etc. E a observação da Deputada carioca Cidinha Campos vai se confirmando a cada dia: “quanto mais simpático, mais corrupto”.

       Sabemos, diante da perspectiva bíblica, que a corrupção está no nosso código genético, ou seja, faz parte da natureza humana contaminada pelo pecado. E, assim, deixo claro que não faço aqui apologia a nenhuma ideologia partidária. Não há partido que salve, PT, PSDB, PMDB e muito menos o PSOL (rs), todos são compostos de homens, por definição atingidos pela queda adâmica.

Nós cristãos reformados precisamos nos policiar. Estamos constantemente submetidos à tentação de abrirmos mão do que é certo, justo e agradável perante Deus para atender à nossa necessidade de sermos aceitos pelo grupo em que estamos.

       Os valores de sua fé influenciam suas decisões quando tomadas em relação aos seus amigos? Ou você possui dois pesos e duas medidas?

Diante desse cenário, para fazer o que é agradável a Deus, podemos cultivar amizades éticas. São amizades nas quais todos os aspectos e esferas da vida são respeitadas, inclusive a justiça. Precisamos lutar para romper com essa cultura corporativista, a começar pelo nosso círculo de amizade. Um verdadeiro amigo se reconhece exatamente quando no trabalho, na família, na escola e em qualquer outro lugar lhe mostra e te ajuda a corrigir os seus erros e dificuldades. De fato é um desafio, pois nossa tendência natural é à corrupção de abrirmos mão de fazer o certo para proteger a quem amamos.

Na minha experiência pessoal sou abençoado com uma consciência tranqüila e com a alegria de ter ao meu lado amigos que sabem que não podem contar comigo para praticar ou omitir injustiças. Por outro lado, também cometo falhas e, assim, sou duplamente recompensado com amigos honestos que me apontam meus erros e se recusam a darem voto de aprovação.

Que essa proposta possa nos inspirar não somente nas eleições - para votarmos em homens comprometidos com a ética, honestidade e justiça doa a quem doer -, mas que também nos inspire pessoalmente para mudar aos poucos nossa postura individual e semear amizades éticas e saudáveis que serão refletidas, quem sabe um dia, nas estruturas de poder da nossa sociedade. Os jovens serão os líderes de amanhã, mas se não vigiarmos agora o modo como vivemos e tomamos pequenas decisões não seremos capazes de no futuro fazer diferente diante de grandes questões.

sábado, 19 de julho de 2014

#SomosTodosSacerdotes

Desde a polêmica da vez em que jogaram uma banana para o jogador Daniel Alves durante uma partida de futebol, em razão da cor da sua pele, uma multidão de fãs do jogador lançaram a Hashtag #SomosTodosMacacos . Outra vez uma pesquisa da IPEA (de caráter bem tendencioso, diga-se de passagem e que depois foi desmentida pelo próprio instituto) causou a indignação ao supostamente revelar que mais da metade do povo brasileiro era favorável ao estupro, gerou outra Hashtag: #EuNaoMereçoSerEstuprada. Para além de legitimar o conteúdo destas hashtags de protestos que crescem dia a dia nas redes sociais, me diverti ao pensar o quanto seria proveitoso se no meio cristão alguém lançasse a campanha: #SomosTodosSacerdotes.

Não é incomum no meio gospel ouvirmos frases como “Não toqueis no ungido do Senhor” se referindo ao falatório de pastores de honestidade duvidosa, histórias de pastores que abusam de suas ovelhas financeiramente e em alguns casos até sexualmente (Vide o Pastor Pedreiro) e pregações como esta do Silas Malafaia, em que ele orienta o seu rebanho a não acusar o seu pastor, mesmo que ele seja um ladrão. Todas estas concepções mostram uma visão extremamente idólatra que muitos crentes em Deus têm de seus pastores, esquecendo-se de que eles são gente como a gente, e colocando-os em uma posição de intermediários de seu relacionamento com Deus.

É claro que os pastores têm uma importância fundamental para a igreja local. Juntamente com os presbíteros, são eles os responsáveis pelo ensino na igreja, pelo direcionamento espiritual das ovelhas e pela organização eclesiástica. O pastorado é desta forma uma vocação legítima, boa e agradável  a Deus, bem como expressa nas escrituras. Os crentes devem sim se sujeitar à autoridade do pastor e dos presbíteros naquilo em que eles possuem autoridade. Onde então se encontra o problema? Primeiramente eu vejo que em muitos destes casos o problema está nos próprios pastores, que abusam de sua autoridade para tentar lucrar em cima de sua congregação, ou para dominar sobre esferas da vida das pessoas que não lhe dizem respeito. Um segundo problema é que nós perdemos uma dimensão da doutrina cristã reformada, que deturpa a imagem que nós temos de nós mesmos e dos nossos pastores: O Sacerdócio Universal de Todos os Crentes.

A doutrina do sacerdócio universal coloca os crentes em pé de igualdade uns com os outros. Não há maior e menor no Reino de Deus sendo que todos nós podemos nos colocar diante de Deus como sacerdotes. Estamos todos nós, o tempo inteiro e em qualquer atividade perante Deus. Desta forma, a reforma protestante revolucionou os conceitos da religião medieval abolindo o fosso que separava o clero dos fiéis, e tornando todas as vocações dignas diante de Deus. Assim, o pastor na visão da reformada não é um sacerdote que serve de mediador espiritual entre Deus e os homens, mas um cristão com profundos conhecimentos teológicos e bíblicos e que está apto para ensinar e aconselhar os fiéis e a ajudar a governar a igreja local.

Esta doutrina nos revela mais sobre nossa função de sacerdote diante de Deus, por isso vale a pena ver um pouco mais o que a bíblia nos diz sobre isso. Para isso, precisamos compreender o papel do sacerdote no Antigo Testamento, o papel de Jesus como nosso sumo sacerdote, e o modo como nós somos chamados à esse sacerdócio diante de Deus.

No antigo testamento, o Sacerdote tinha a função de mediar o relacionamento entre Deus e o povo. Ele deveria ser da tribo de Levi, e era responsável por fazer os sacrifícios e orações a Deus bem como ensinar ao povo sobre a lei de Deus. No novo testamento, vemos uma visão diferente o oficio sacerdotal, onde Jesus Cristo é visto como o nosso sacerdote. Todas as funções do sacerdote no antigo testamento foram cumpridas n’Ele, e transformadas por Ele.  Desta forma, Jesus é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5), tendo cumprido na cruz a redenção necessária para que nos achegássemos a Deus, sendo ao mesmo tempo sacerdote e sacrifício.

Mas então, se Jesus é o nosso sacerdote, como nós podemos ser também sacerdotes? O novo testamento nos diz que em certo sentido, nós também somos chamados a sermos sacerdotes diante de Deus. “Também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo” (1 Pedro 2.5). Somos agora sacerdotes diante de Deus, e nosso sacrifício deve ser a nossa vida, expresso em gratidão, louvor e boas obras. Este sacerdócio se expressa na nossa missão de anunciar o evangelho a toda criatura, e de cumprir o mandato cultural. Ele também se expressa de modo comunitário, sendo todos sacerdotes, podemos então instruir uns aos outros em amor. Ser sacerdote implica necessariamente em serviço.

Desta forma, é possível ver como a doutrina do sacerdócio traz implicações práticas para a vida cristã e para a igreja. Somente resgatando este princípio bíblico é que podemos resgatar também a nossa identidade e a nossa missão no mundo de modo mais pleno: Em cada crente um sacerdote, um servo, um missionário. #SomosTodosSacerdotes.

domingo, 13 de julho de 2014

TIRE ESSE PESO DAS COSTAS

Por André Storck

Ultimamente tenho parado para observar quão difícil é ser um cristão em nossos dias. Não que isso seja uma novidade, pelo contrário, há muito tempo todo cristão que se preze sente na pele o peso advindo da natural repulsa que um viver de acordo com princípios bíblicos gera nas pessoas que se consideram independentes de Cristo.

Contudo, de uns tempos para cá a coisa tem piorado. Acontece que, como se não bastasse a perseguição por parte de uma sociedade avessa à ética cristã, o peso sobre os ombros dos fiéis tem sido aumentado pelos próprios líderes religiosos mal preparados e por falsos mestres.

As chamadas igrejas (ou seitas, como queiram) neopentecostais são as principais responsáveis por esse fenômeno, elas armam uma verdadeira equipe de guerra para cortar pela raiz qualquer iniciativa dos crentes no sentido de estudarem mais a fundo a Bíblia, o que os levaria -por definição - a se libertarem do julgo de superstições e mentiras. A tática do medo e da ameaça é a principal arma dos falsos profetas.

Os ensinamentos não bíblicos espalhados pregam mais ou menos o seguinte para os crentes mais simples que geralmente frequentam esses tipos de igrejas:

“Você deve obedecer tudo que o pastor mandar, você deve votar em quem o pastor mandar, você deve dar o dízimo e ofertas todo mês e você não pode beber álcool ou fumar.”

Esses mandamentos criados e impostos sobre as pessoas são logo seguidos da ameaça de medo e promessa de prosperidade:


“Se você fizer isso o diabo não poderá atacar a sua vida e você irá prosperar na saúde e financeiramente.”

É claro que as regras impostas não são de todo ruins. Isso porque existem pastores que são verdadeiros servos de Deus e buscam apascentar as ovelhas com amor e zelo. Há pastores honestos que não colocam o dinheiro em primeiro lugar, ao contrário, querem cuidar dos fiéis e honrar a Deus. Pastores que disciplinam de acordo com a Palavra as ovelhas que se desviam, sejam elas grandes dizimistas ou desempregadas. A esses homens devemos respeito e reverência.

O princípio bíblico do dízimo também é algo que - de fato - subsiste até os dias de hoje. Cada crente tem o dever de colaborar de bom grado para a manutenção da igreja. Como afirmou o apóstolo Paulo, cada um deve dar de acordo com o que proposto no coração, não por tristeza nem por necessidade, mas porque Deus ama a quem dá com alegria.

E, por fim, os malefícios do fumo em qualquer quantidade e também da ingestão de álcool de forma desregrada são conhecidos de todos. Ensinar a evitá-los ajuda tanto a saúde física quanto financeira dos fiéis.

Então o leitor deve estar se perguntando, onde está o erro? Onde está o peso extra colocado nas costas do povo de Deus?

O erro acontece, na chantagem e na contraproposta oferecida. Acontece quando a igreja começa a acrescentar deveres não prescritos na Bíblia e impô-los aos crentes de maneira muito parecida como fez e ainda faz a Igreja Católica. Acontece ainda quando fazem promessas não bíblicas que não se concretizam,  gerando decepção e levando os mais fracos a cair. Pecam ao colocar sobre as costas das pobres e exploradas ovelhas um peso que Jesus nunca recomendou.

Vejo com tristeza, por exemplo, o ensinamento não bíblico da ideia de “brechas”, segundo a qual o crente teria “poder” de dar autoridade para que o diabo atuasse sobre sua vida. Ora bolas, Deus não abriu mão de sua soberania. Pelo contrário, ele sabia que mesmo após a conversão nós ainda continuaríamos sujeitos a cair em tentação e pecar e, por isso, disse: “a minha Paz vos dou”. Ora a paz que Cristo dá é a certeza da salvação e de sua soberania “Todo o poder me foi dado”. É por isso que a paz de Jesus não é como a paz que o mundo dá, pois a paz do mundo só existe enquanto você seguir certinho todas as regras do mundo (e olhe lá). Por outro lado, a paz de Cristo permanece mesmo depois que você caiu e pecou, porque Ele sabe que isso acontecerá enquanto não formos para o céu. Cristo não perde o controle sobre sua vida depois que você peca. Daí que ele não nos deu a paz como o mundo a dá, ou seja, de forma condicionada. Ele disse em seguida “não se turbe o vosso coração, nem se atemorize”. Você só precisa se arrepender, confessar e voltar a Cristo depois de ter caído.

Mas muitas igrejas usam a tática do medo para manter os irmãos mais simples presos ali, dando o dízimo todo mês e votos nas eleições de dois em dois anos. Dizem: “Se você sair ou mudar de igreja, se você não votar em quem o pastor mandar, se você não der o dízimo dará “legalidade” ou abrirá “brecha” para o diabo entrar em sua vida e acabar com você e sua família”.

São vários os exemplos de ensinamento não bíblicos usados nessa tática do medo: “maldições adquiridas”, “caça a demônios territoriais”, “maldições hereditárias”, “mensagens subliminares” etc.
           
Os crentes que poderiam estar estudando a Bíblia, dando respostas sábias ao mundo, evangelizando, influenciando as artes, as músicas, influenciando no trabalho, nas escolas, na mídia e em muitos outros lugares ficam alienados vivendo com um terrível peso nas costas, um peso de medo e superstição. Vivem por aí "amarrando" demônios de imagens, pessoas e objetos, vivem procurando algum objeto “consagrado” em sua casa que pode estar dando “legalidade” ao inimigo. Veem demônios em tudo ao invés de reconhecer os próprios erros. Vivem correndo e tapando os ouvidos ao ouvirem músicas feitas por não crentes, vivem correndo de festas e confraternizações que tenham álcool, enquanto Jesus fazia o contrário.

Já vi cristãos que deixam de evangelizar porque acham que primeiro tem que “amarrar o demônio que está tapando o ouvido da pessoa”.

Irmãos que tarefas e pesos são esses que Cristo nunca colocou sobre nós? Que coisas são essas que alguns dizem que temos que fazer sem mostrar a base bíblica para tal? Que regrinhas são essas que nem Cristo, nem os profetas e nem os apóstolos seguiram?

Ide e pregai o evangelho, batizai e ensinai. O Espírito Santo se encarrega de convencer o coração e os anjos são os que lutam as batalhas espirituais.

Deus tem levantado em todo o Brasil milhares e milhares de cristãos que em contato com os estudos bíblicos da reforma protestante têm buscado novamente a pureza da igreja, uma igreja que viva somente de acordo com o que a Bíblia diz.  Esses verdadeiros profetas por certo serão perseguidos e terão um peso extra da discriminação dentro da própria igreja, pois o verdadeiro Evangelho liberta e tal libertação não diz respeito só à alma, mas mexe também com a própria estrutura de poder criada por muitos líderes que são voltados para o seu próprio umbigo e precisam do falso evangelho para manter o estipêndio ($).

Mas é nesse contexto que escrevo a todo irmãozinho e irmãzinha em Cristo, para que entreguem esse peso que falsos mestres colocaram sobre suas costas para Jesus, descansem na Paz que só o Senhor pode dar, confira tudo o que te dizem com o que está escrito na Bíblia e meditem nos singelos versos do nosso Mestre:

Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomais sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve. MATEUS 11:28-30 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Quatro lições de culto que aprendi numa missa

por Igor Campos

Em abril deste ano, participei de uma missa em ação de graças pelos 50 anos de casamento de meus tios católicos. Fui criado na Igreja Católica até que em 2004, aos 11 anos, me converti. Dez anos depois, assistindo a essa cerimônia de bodas de ouro, me deparei com positivas surpresas em alguns aspectos litúrgicos e físicos da paróquia.
Em primeiro lugar, preciso destacar que não sou a favor do ecumenismo. O diálogo inter-religioso, a fim de encontrar possíveis pontos de contato, é nocivo e nada traz de benefício à pregação do evangelho de Cristo.
Em segundo lugar, também é necessário lembrar que Igreja Católica já foi a congregação dos crentes em Cristo. Antes que houvesse o rompimento definitivo, os reformadores desejavam retornar à simplicidade do culto cristão primitivo através da correção dos abusos cometidos pela Igreja Romana. 
Em terceiro lugar, nos cabe compreender que com este texto não faço, de forma alguma, vista grossa às heresias contidas na missa católica-romana (oração pelos mortos, idolatria, doutrinas do purgatório e transubstanciação), mas tento refletir em aspectos tão essenciais ao culto que agrada a Deus e que estão cada dia mais ausentes nas igrejas evangélicas brasileiras, inclusive nas igrejas ditas reformadas.

1. Reverência
"O Senhor está no seu Santo Templo; cale-se diante dele toda terra". Hc 2:20.
Dentro da igreja estavam cerca de 200 pessoas, entre adultos e crianças. No entanto, o burburinho era mínimo: não vi conversas paralelas, nem crianças correndo ou pessoas passeando pelos corredores. Lembrei-me imediatamente da minha infância, quando minha mãe sempre chamava minha atenção por conversar na hora da missa. "Missa não é lugar pra conversar", ela dizia. Ainda que houvesse por trás dessa atitude uma crença na doutrina da presença do Cristo físico no Santíssimo Sacramento, que é a hóstia consagrada, minha mãe sabia que estava na casa de Deus e me ensinou a respeitar o momento de culto a Deus de maneira que jamais esqueci. Hoje, em grande parte das igrejas evangélicas, inclusive nas igrejas reformadas, o culto solene se transforma em uma grande feira livre: gente passeando para lá e para cá, risos e conversas em alta voz em momentos de oração, além de crianças correndo entre os bancos e comendo durante a pregação da palavra. Se lermos os dez mandamentos no capítulo 20 de Êxodo veremos a seriedade com que o Senhor trata a adoração a Ele: o culto deve ser somente a Deus, no primeiro mandamento; o culto deve ser em espírito em verdade, e não por meio de imagens e representações, no segundo mandamento; o culto deve ser de verdadeira adoração, sem tomar o nome de Deus em vão, no terceiro mandamento; e que devemos separar um dia para descansar e cultuar ao Senhor, no quarto mandamento. A reverência no culto não deve ser um sentimento receoso pela presença corpórea de Jesus, mas um temor sábio (Pv 9:10) diante da majestade de Deus.

2. Pregação expositiva
A pregação da palavra nos santifica (Jo 17:17). Seguindo o folheto litúrgico da missa, vi o evangelho do dia. Aguardava uma leitura enfadonha e um comentário lido, como de costume em várias paróquias que conheço, quando o padre começou a ler e expor com maestria o texto de Lucas 24:13-35. Iniciou contextualizando o trecho, no qual Jesus aparece para dois discípulos a caminho de Emaús, completou com a incredulidade e ansiedade dos discípulos, o fato deles não terem reconhecido Jesus, e finalizou com uma chamada a viver uma vida com Cristo. Fui tomado de alegria em ver que as pessoas naquela missa estavam ouvindo uma pregação realmente bíblica, enquanto me entristeci pensando em tantas igrejas genuinamente evangélicas onde a Palavra tem perdido o lugar para diálogos motivacionais e de marketing - certa vez, em uma igreja presbiteriana, a pregação do culto foi substituída por uma palestra motivacional com slides sobre alimentação e saúde sob o pretexto do modo de vida de Daniel. Não existe receita que substitua a pregação expositiva da Bíblia. É dessa forma que o Evangelho melhor se apresenta à igreja, que vai sendo amadurecida na doutrina. Permanecendo na autoridade da Escritura, o pregador declara uma verdade recebida em vez de uma mensagem inventada.

3. Congregacionalidade
"Os santos são, pela profissão de fé, obrigados a manter santa sociedade e comunhão no culto de Deus e na realização de outros serviços espirituais que contribuam para sua mútua edificação...". Confissão de Fé de Westminster, Capítulo 26, II.
Com congregacionalidade quero me referir ao sentimento coletivo de culto, ainda que cada um preste seu culto a Deus individualmente. Um grande problema é que na missa o padre é o mediador do perdão e sacrifício de Cristo, ou seja, há uma dicotomia entre clero e fiéis que impede a congregação de ter um pleno relacionamento com Deus nesse momento. Mesmo nesse confuso mar de dogmas equivocados, os fiéis, facilitados pelo folheto impresso, cantavam em conjunto os cânticos de louvor - cânticos cristocêntricos! Não houve grupos se apresentando como um show, mas a comunidade, guiada por um humilde dirigente, tributou louvor a Deus com músicas. Em tantos cultos, cristãos buscam fazer do culto uma experiência unicamente pessoal em prejuízo ao culto prestado em comunidade. Fazemos belas apresentações em grupo, com solos instrumentais belíssimos, mas, para isso, deixamos de cantar as músicas em um tom e ritmo que a igreja consiga cantar e acompanhar. Oramos cada um a sua altura, como se fosse uma competição de clamores. Isso não é culto! Prestar a Deus um culto racional (Rm 12:2) passa pelo autocontrole em favor do próximo, para que seja boa e agradável a união dos irmãos.

4. Estética valorizada
Este primeiro ponto não se enquadra especificamente na forma de culto, mas em como o templo, como ambiente de culto público, é concebido. Com um grande número de vitrais, a paróquia era realmente bela. Atrás do altar, havia uma grande parede onde foi esculpida a imagem de Cristo no centro. O mais interessante foi que ao redor da imagem de Cristo, viam-se esculpidas também pessoas orando e trabalhando com calçados - principal fonte de renda da cidade. O culto à Maria e aos santos, observado na Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, fez com que a arte se transformasse em idolatria. Em contraponto, seguimos o caminho contrário: abandonamos as artes figurativas para evitar a idolatria. Afogados no utilitarismo, congregamos, hoje, em grandes caixotes funcionais, sem alguma beleza arquitetônica. Deus foi rigoroso quando mostrou a Moisés como queria o Tabernáculo, com candelabros de ouro e querubins, além de romãs azuis nas vestes do sacerdote (Ex 28:33). Também mostrou como queria o Templo a Davi, com mais romãs e colunas decorativas (2º Cr 3:16-17). Não estou aqui defendendo a construção de templos grandiosos e milionários. Em uma igrejinha do interior, com as janelinhas recém pintadas, podemos ver que há beleza na simplicidade. Contudo, quero chamar a atenção para a importância que Deus dá à beleza e criatividade. Isso nada tem a ver com recursos financeiros, e sim com o exercício da criatividade humana para a glória de Deus.

Como pensava Calvino, toda verdade é verdade de Deus. Em meio a tantos desvios doutrinários da Igreja Católica Apostólica Romana, há ainda verdades de Deus sendo ditas ao coração dos homens. Verdades que me fizeram perceber como estamos em falta com a vontade de Deus para o seu Culto.
Por fim, sendo a salvação pela graça, não nos cabe decretar os católicos condenados. A esses homens cabe ver tais erros por si mesmos e atender ao chamado para o arrependimento.
“Bom é render graças ao Senhor e cantar louvores ao teu nome, ó Altíssimo” (Sl 92.1).


Referências:

1 MOHLER JR., Albert. Três características da pregação expositiva. Disponível em:<http://reforma21.org/artigos/3-caracteristicas-da-pregacao-expositiva.html>.

2 SCHAEFFER, Francis. A arte e a Bíblia. Viçosa: Ultimato, 2010.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

4 anos de GECC

Em 2010, após a III Conferência do L'Abri Brasil: Cristo e Cultura Contemporânea, surgia o Grupo de Estudos de Cosmovisão Calvinista. Passados quatro anos, muito nos alegram os frutos que o grupo rendeu desde então. Agradecemos a Deus pelo sustento que jamais faltou!
Soli Deo gloria.












segunda-feira, 12 de maio de 2014

Lenine, paciência e a raridade da vida

Na contemporaneidade não existe espaço para a paciência. Tudo tem que ser rápido. Atendimentos, entregas, telefonemas, abraços, conversas, beijos, viagens. Nosso tempo é curto para tanto compromisso. Tomar um bom café com a família, uma boa prosa com os amigos e namorar sem pressa são utopias.
No corre-corre do tempo presente, um carro te fecha no trânsito, um colega de trabalho importuna você, professores não divulgam notas, a coxinha vem fria da lanchonete, o pão-de-forma está no lado direito da bancada da cozinha e não no lado esquerdo. Tudo aquilo que contraria a nossa vontade é motivo suficientemente justificável para nos irritar.
Saímos do sério e perdemos a razão por simplesmente não aceitarmos um contraponto, uma opinião diferente ou uma situação que não estava planejada. Esse comportamento irritadiço denota uma visão hedonista da realidade.
Nas Escrituras vemos que Jó esperou com paciência em suas tribulações, Jacó esperou com paciência por sua esposa Raquel e tantos profetas esperaram pacientemente a resposta e a justiça de Deus. Abraham Kuyper diz que a "paciência é um fruto do Espírito, sua semente não está conosco".
Se a paciência está ausente em nós, é tempo de repensar. A vida é oportunidade única e maravilhosa de propagar as maravilhas de Deus através das belezas  por ele criadas. Vida essa que exige de nós paciência. Paciência para aguardar as repostas certas. Paciência para trabalhar por mudanças e também para esperar que elas aconteçam. Paciência para se calar quando preciso e controlar o que fala, que é sempre preciso. Paciência para comer, orar, ler, namorar, trabalhar. Paciência para entender que nossa vida é rara e preciosa demais para viver sem paciência.


 


Será que é tempo
Que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara.


REFERÊNCIA:
[1]  KUYPER, Abraham. Paciência, uma raridade. Disponível em <http://www.monergismo.com/textos/frutos/paciencia-raridade_kuyper.pdf>. Acesso em 04 de abril de 2014.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Será que esperamos demais desta vida?

 por Luiz Cláudio Simões

Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento;
Antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva;
No dia em que tremerem os guardas da casa, e se encurvarem os homens fortes, e cessarem os moedores, por já serem poucos, e se escurecerem os que olham pelas janelas;
E as portas da rua se fecharem por causa do baixo ruído da moedura, e se levantar à voz das aves, e todas as filhas da música se abaterem.
Como também quando temerem o que é alto, e houver espantos no caminho, e florescer a amendoeira, e o gafanhoto for um peso, e perecer o apetite; porque o homem se vai à sua casa eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça;
Antes que se rompa o cordão de prata, e se quebre o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se quebre a roda junto ao poço,
E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.
Vaidade de vaidades, diz o pregador, tudo é vaidade.
Eclesiastes 12:1-8
A maioria dos cristãos que conhecemos tem pavor da morte, não aceitam doenças que nos levarão ao dia da nossa partida, também temem a velhice como se fosse um castigo e tem medo de tocar neste assunto, mas, por que?

Em uma sociedade que o novo tem muito valor, desde um sapato, passando por um automóvel e por fim chegando as pessoas, ser novo é o que importa...
A salvação da ira de DEUS e a vida eterna já deixaram de ser pilares da mensagem do cristianismo, pois afinal somos educados para não morrer.

Morrer é derrota, pois os vencedores segundo este conceito, vivem sempre para vencer, conquistar, alongar fronteiras, voar mais alto, fazer isso e aquilo mais que ontem, e sempre.

Esperam demais desta vida!
Correm demais atrás do vento, desferem golpes no ar, ajuntam demais em celeiros, perseguem demais a benção, decretam, determinam, exigem, querem restituição do que julgam ter perdido, fazem do reino do céu uma loja de departamentos.

Esperam sempre que o melhor de DEUS ainda esta por vir, esquecendo-se que o MELHOR já veio e seu nome já foi dado entre os homens, JESUS CRISTO.

Esquecem do contentamento, da gratidão, da ação de graças, da alegria da salvação, da simplicidade do Evangelho Verdadeiro.

Acreditam que derrotados são os que sofrem perdas, são alvos de calamidades, dos acidentes, das doenças, dos imprevistos, da pobreza, da escassez, do dia da adversidade, do contratempo, do abandono, da falta de amigos. O pior inimigo que esse tipo de pensamento pode ter é a constatação de que estas coisas acontecem também aos que são fiéis e verdadeiros; aos filhos de DEUS.

Mas que evangelho é este senão o falso, que se alastra como fogo em mato seco, fazendo multiplicar o número dos mais que vencedores desta vida, que acreditam que recebem o bem por seus próprios méritos.

Antes, devemos renovar nossa mente com a Verdade das Escrituras, para que de forma real experimentar a vontade soberana de DEUS com gratidão e alegria, mesmo que seja no dia da adversidade.

Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus.
Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra;
Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.
Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória.
Colossenses 3:1-4

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Palestra sobre Arte Cristã

Nesse sábado (dia 08/02/2014) nosso irmão Leonardo Marques Verona, membro fundador do Grupo de Estudos de Cosmovisão Calvinista, ministrará a palestra Arte cristã dentro e fora do templo na Igreja Presbiteriana do Novo Eldorado. Todos estão convidados!

Mais informações sobre a palestra e local:
cosmovisaocalvinista@gmail.com

domingo, 5 de janeiro de 2014

PACTOS COM O DIABO E A QUEBRA DE MALDIÇÕES

Augustus Nicodemus


E quem fez pacto com o diabo, não tem que quebrar as maldições em sua vida, mesmo depois de crente?
Tem sido argumentado que o Brasil é um país místico, cuja grande parte da população tem se envolvido, uma vez ou outra, com o oculto. A quantidade de pessoas envolvidas com espíritos malignos é muito grande, quer através de procura consciente de contato com entidades espirituais, quer através de “inocentes” consultas aos búzios e leitura das linhas das mãos. As implicações de toda esta abertura para o reino das trevas, argumenta-se, é que dificilmente encontraremos nas igrejas pessoas que foram convertidas como adultas, e que não tiveram, ao menos, uma passagem superficial pelo mundo dos espíritos. Tais pessoas estão sujeitas a serem molestadas, oprimidas e mesmo invadidas por estes espíritos, aos quais deram o direito de entrar em suas vidas no passado, se não anularem estes “pactos” que foram feitos com eles, mesmo que inconscientemente.


A pergunta é se o tratamento recomendado nas Escrituras para estas pessoas é a prática de “quebra de maldições”, a anulação de pactos com demônios.

O mundo em que os apóstolos pregaram o Evangelho era infestado pelo ocultismo, e pela idolatria, possivelmente de forma tão intensa quanto o Brasil de hoje. Muitos dos convertidos pelos apóstolos vieram de um passado de ocultismo, artes mágicas e feitiçaria. Entretanto, em nenhum momento os apóstolos consideraram necessário acrescentar ao arrependimento e à fé coisas como quebra de maldições ou anulação de pactos com espíritos.

Um dos locais mais infestados era Éfeso. A cidade era conhecida como um centro de artes mágicas, e pelo culto da deusa Artemis (Diana). Esta deusa da mitologia grega era conhecida como a deusa do submundo, que controlava espíritos da natureza e dos animais selvagens. Sua imagem era coberta com os símbolos do Zodíaco, para lembrar aos adoradores de Éfeso que ela era uma divindade cósmica, com controle sobre os espíritos determinantes do destino. 

Quando Paulo ali pregou o Evangelho, muitos efésios converteram-se a Cristo, boa parte dos quais havia se envolvido com artes mágicas, e certamente com o culto a Diana (Atos 19.18-20, 26-27). Como testemunho público de que já haviam sido libertos e resgatados pelo poder do Espírito Santo, vieram a público queimar seus livros de magia negra. Não foi pelo atear fogo naqueles livros que ganharam sua plena libertação. Eles já haviam sido libertados, quando creram (At 19.18). 

Mais tarde, quando lhes escreveu a carta que conhecemos como Efésios, o apóstolo Paulo não sentiu nenhuma necessidade de instrui-los a quebrar maldições que fossem resultado de pactos ainda pendentes com o antigo culto aos demônios com que se envolveram no passado

Antes, em sua primeira viagem missionária, Paulo havia levado à Cristo o procônsul Sérgio Paulo, na ilha de Patmos (Atos 13.4-12). Sérgio Paulo havia se envolvido com artes mágicas, pois tinha ao seu lado um judeu mágico, um bruxo, chamado Barjesus. Possivelmente era seu conselheiro espiritual, conforme prática antiga — e bem moderna! — de oficiais e governadores de consultar videntes para tomar resoluções. Após a conversão de Sérgio Paulo, o apóstolo nada lhe recomendou em termos de quebrar os pactos antigos feitos com os espíritos malignos através dos serviços do bruxo.

Um outro exemplo de como os apóstolos tratavam convertidos que vinham do ocultismo é o relato da conversão dos samaritanos em Atos 8. Lemos ali que os samaritanos em pêso seguiam a Simão Mago, um bruxo que praticava artes mágicas, e que era o líder espiritual da cidade, ou da região (Atos 8.9-11). Certamente a maioria dos moradores da cidade já havia, uma vez ou outra, se envolvido com Simão, através de consultas, “trabalhos”, invocação de mortos, e outras práticas ocultas populares daquela época. Quando Felipe ali chegou pregando o Evangelho no poder do Espírito, muitos deles deram-lhe crédito, e foram convertidos a Cristo. Felipe os batizou (Atos 8.12). O próprio bruxo foi batizado (8.13). 

Mais tarde, os apóstolos vieram de Jerusalém examinar estes convertidos. Nada acrecentaram ao que Felipe já havia feito, a não ser orar para que os convertidos recebessem o Espírito Santo — procedimento necessário para que ficasse claro que, à semelhança dos Judeus no dia de Pentecostes, outros povos podiam também ser aceitos na Igreja de Cristo (At 8.16-17). Nenhuma palavra sobre o passado deles na feitiçaria! Nenhuma instrução a Felipe para que anulasse os pactos demoníacos daquela gente! Os apóstolos consideraram que a obra de Cristo nos samaritanos, convertendo-os, era suficiente para romper os laços antigos de pecado, ignorância, superstição e incredulidade.
E mesmo quando o bruxo deu sinais de que ainda estava “amarrado” ao seu passado, a orientação de Pedro foi: “arrepende-te e ora ao Senhor” (Atos 8.22). Pedro viu que Simão estava ainda “em fel de iniquidade e laço de amargura” (Atos 8. 23), mas não julgou que a solução seria “anular” os compromissos do bruxo com o mundo dos espíritos. A solução era um verdadeiro arrependimento e oração ao Senhor.
As tendências destas ênfases da “batalha espiritual”, portanto, acaba sendo a de diminuir o poder e a eficácia da suficiência de Cristo na vida do crente, ao introduzir a necessidade de coisas como a quebra de maldições hereditárias como condição para que o crente verdadeiro usufrua plenamente das bênçãos que Deus lhe tem reservado em Cristo.

FONTE: http://tempora-mores.blogspot.com.br/2014/01/e-quem-fez-pacto-com-o-diabo-nao-tem.html