quinta-feira, 10 de julho de 2014

Quatro lições de culto que aprendi numa missa

por Igor Campos

Em abril deste ano, participei de uma missa em ação de graças pelos 50 anos de casamento de meus tios católicos. Fui criado na Igreja Católica até que em 2004, aos 11 anos, me converti. Dez anos depois, assistindo a essa cerimônia de bodas de ouro, me deparei com positivas surpresas em alguns aspectos litúrgicos e físicos da paróquia.
Em primeiro lugar, preciso destacar que não sou a favor do ecumenismo. O diálogo inter-religioso, a fim de encontrar possíveis pontos de contato, é nocivo e nada traz de benefício à pregação do evangelho de Cristo.
Em segundo lugar, também é necessário lembrar que Igreja Católica já foi a congregação dos crentes em Cristo. Antes que houvesse o rompimento definitivo, os reformadores desejavam retornar à simplicidade do culto cristão primitivo através da correção dos abusos cometidos pela Igreja Romana. 
Em terceiro lugar, nos cabe compreender que com este texto não faço, de forma alguma, vista grossa às heresias contidas na missa católica-romana (oração pelos mortos, idolatria, doutrinas do purgatório e transubstanciação), mas tento refletir em aspectos tão essenciais ao culto que agrada a Deus e que estão cada dia mais ausentes nas igrejas evangélicas brasileiras, inclusive nas igrejas ditas reformadas.

1. Reverência
"O Senhor está no seu Santo Templo; cale-se diante dele toda terra". Hc 2:20.
Dentro da igreja estavam cerca de 200 pessoas, entre adultos e crianças. No entanto, o burburinho era mínimo: não vi conversas paralelas, nem crianças correndo ou pessoas passeando pelos corredores. Lembrei-me imediatamente da minha infância, quando minha mãe sempre chamava minha atenção por conversar na hora da missa. "Missa não é lugar pra conversar", ela dizia. Ainda que houvesse por trás dessa atitude uma crença na doutrina da presença do Cristo físico no Santíssimo Sacramento, que é a hóstia consagrada, minha mãe sabia que estava na casa de Deus e me ensinou a respeitar o momento de culto a Deus de maneira que jamais esqueci. Hoje, em grande parte das igrejas evangélicas, inclusive nas igrejas reformadas, o culto solene se transforma em uma grande feira livre: gente passeando para lá e para cá, risos e conversas em alta voz em momentos de oração, além de crianças correndo entre os bancos e comendo durante a pregação da palavra. Se lermos os dez mandamentos no capítulo 20 de Êxodo veremos a seriedade com que o Senhor trata a adoração a Ele: o culto deve ser somente a Deus, no primeiro mandamento; o culto deve ser em espírito em verdade, e não por meio de imagens e representações, no segundo mandamento; o culto deve ser de verdadeira adoração, sem tomar o nome de Deus em vão, no terceiro mandamento; e que devemos separar um dia para descansar e cultuar ao Senhor, no quarto mandamento. A reverência no culto não deve ser um sentimento receoso pela presença corpórea de Jesus, mas um temor sábio (Pv 9:10) diante da majestade de Deus.

2. Pregação expositiva
A pregação da palavra nos santifica (Jo 17:17). Seguindo o folheto litúrgico da missa, vi o evangelho do dia. Aguardava uma leitura enfadonha e um comentário lido, como de costume em várias paróquias que conheço, quando o padre começou a ler e expor com maestria o texto de Lucas 24:13-35. Iniciou contextualizando o trecho, no qual Jesus aparece para dois discípulos a caminho de Emaús, completou com a incredulidade e ansiedade dos discípulos, o fato deles não terem reconhecido Jesus, e finalizou com uma chamada a viver uma vida com Cristo. Fui tomado de alegria em ver que as pessoas naquela missa estavam ouvindo uma pregação realmente bíblica, enquanto me entristeci pensando em tantas igrejas genuinamente evangélicas onde a Palavra tem perdido o lugar para diálogos motivacionais e de marketing - certa vez, em uma igreja presbiteriana, a pregação do culto foi substituída por uma palestra motivacional com slides sobre alimentação e saúde sob o pretexto do modo de vida de Daniel. Não existe receita que substitua a pregação expositiva da Bíblia. É dessa forma que o Evangelho melhor se apresenta à igreja, que vai sendo amadurecida na doutrina. Permanecendo na autoridade da Escritura, o pregador declara uma verdade recebida em vez de uma mensagem inventada.

3. Congregacionalidade
"Os santos são, pela profissão de fé, obrigados a manter santa sociedade e comunhão no culto de Deus e na realização de outros serviços espirituais que contribuam para sua mútua edificação...". Confissão de Fé de Westminster, Capítulo 26, II.
Com congregacionalidade quero me referir ao sentimento coletivo de culto, ainda que cada um preste seu culto a Deus individualmente. Um grande problema é que na missa o padre é o mediador do perdão e sacrifício de Cristo, ou seja, há uma dicotomia entre clero e fiéis que impede a congregação de ter um pleno relacionamento com Deus nesse momento. Mesmo nesse confuso mar de dogmas equivocados, os fiéis, facilitados pelo folheto impresso, cantavam em conjunto os cânticos de louvor - cânticos cristocêntricos! Não houve grupos se apresentando como um show, mas a comunidade, guiada por um humilde dirigente, tributou louvor a Deus com músicas. Em tantos cultos, cristãos buscam fazer do culto uma experiência unicamente pessoal em prejuízo ao culto prestado em comunidade. Fazemos belas apresentações em grupo, com solos instrumentais belíssimos, mas, para isso, deixamos de cantar as músicas em um tom e ritmo que a igreja consiga cantar e acompanhar. Oramos cada um a sua altura, como se fosse uma competição de clamores. Isso não é culto! Prestar a Deus um culto racional (Rm 12:2) passa pelo autocontrole em favor do próximo, para que seja boa e agradável a união dos irmãos.

4. Estética valorizada
Este primeiro ponto não se enquadra especificamente na forma de culto, mas em como o templo, como ambiente de culto público, é concebido. Com um grande número de vitrais, a paróquia era realmente bela. Atrás do altar, havia uma grande parede onde foi esculpida a imagem de Cristo no centro. O mais interessante foi que ao redor da imagem de Cristo, viam-se esculpidas também pessoas orando e trabalhando com calçados - principal fonte de renda da cidade. O culto à Maria e aos santos, observado na Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, fez com que a arte se transformasse em idolatria. Em contraponto, seguimos o caminho contrário: abandonamos as artes figurativas para evitar a idolatria. Afogados no utilitarismo, congregamos, hoje, em grandes caixotes funcionais, sem alguma beleza arquitetônica. Deus foi rigoroso quando mostrou a Moisés como queria o Tabernáculo, com candelabros de ouro e querubins, além de romãs azuis nas vestes do sacerdote (Ex 28:33). Também mostrou como queria o Templo a Davi, com mais romãs e colunas decorativas (2º Cr 3:16-17). Não estou aqui defendendo a construção de templos grandiosos e milionários. Em uma igrejinha do interior, com as janelinhas recém pintadas, podemos ver que há beleza na simplicidade. Contudo, quero chamar a atenção para a importância que Deus dá à beleza e criatividade. Isso nada tem a ver com recursos financeiros, e sim com o exercício da criatividade humana para a glória de Deus.

Como pensava Calvino, toda verdade é verdade de Deus. Em meio a tantos desvios doutrinários da Igreja Católica Apostólica Romana, há ainda verdades de Deus sendo ditas ao coração dos homens. Verdades que me fizeram perceber como estamos em falta com a vontade de Deus para o seu Culto.
Por fim, sendo a salvação pela graça, não nos cabe decretar os católicos condenados. A esses homens cabe ver tais erros por si mesmos e atender ao chamado para o arrependimento.
“Bom é render graças ao Senhor e cantar louvores ao teu nome, ó Altíssimo” (Sl 92.1).


Referências:

1 MOHLER JR., Albert. Três características da pregação expositiva. Disponível em:<http://reforma21.org/artigos/3-caracteristicas-da-pregacao-expositiva.html>.

2 SCHAEFFER, Francis. A arte e a Bíblia. Viçosa: Ultimato, 2010.

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