sábado, 19 de julho de 2014

#SomosTodosSacerdotes

Desde a polêmica da vez em que jogaram uma banana para o jogador Daniel Alves durante uma partida de futebol, em razão da cor da sua pele, uma multidão de fãs do jogador lançaram a Hashtag #SomosTodosMacacos . Outra vez uma pesquisa da IPEA (de caráter bem tendencioso, diga-se de passagem e que depois foi desmentida pelo próprio instituto) causou a indignação ao supostamente revelar que mais da metade do povo brasileiro era favorável ao estupro, gerou outra Hashtag: #EuNaoMereçoSerEstuprada. Para além de legitimar o conteúdo destas hashtags de protestos que crescem dia a dia nas redes sociais, me diverti ao pensar o quanto seria proveitoso se no meio cristão alguém lançasse a campanha: #SomosTodosSacerdotes.

Não é incomum no meio gospel ouvirmos frases como “Não toqueis no ungido do Senhor” se referindo ao falatório de pastores de honestidade duvidosa, histórias de pastores que abusam de suas ovelhas financeiramente e em alguns casos até sexualmente (Vide o Pastor Pedreiro) e pregações como esta do Silas Malafaia, em que ele orienta o seu rebanho a não acusar o seu pastor, mesmo que ele seja um ladrão. Todas estas concepções mostram uma visão extremamente idólatra que muitos crentes em Deus têm de seus pastores, esquecendo-se de que eles são gente como a gente, e colocando-os em uma posição de intermediários de seu relacionamento com Deus.

É claro que os pastores têm uma importância fundamental para a igreja local. Juntamente com os presbíteros, são eles os responsáveis pelo ensino na igreja, pelo direcionamento espiritual das ovelhas e pela organização eclesiástica. O pastorado é desta forma uma vocação legítima, boa e agradável  a Deus, bem como expressa nas escrituras. Os crentes devem sim se sujeitar à autoridade do pastor e dos presbíteros naquilo em que eles possuem autoridade. Onde então se encontra o problema? Primeiramente eu vejo que em muitos destes casos o problema está nos próprios pastores, que abusam de sua autoridade para tentar lucrar em cima de sua congregação, ou para dominar sobre esferas da vida das pessoas que não lhe dizem respeito. Um segundo problema é que nós perdemos uma dimensão da doutrina cristã reformada, que deturpa a imagem que nós temos de nós mesmos e dos nossos pastores: O Sacerdócio Universal de Todos os Crentes.

A doutrina do sacerdócio universal coloca os crentes em pé de igualdade uns com os outros. Não há maior e menor no Reino de Deus sendo que todos nós podemos nos colocar diante de Deus como sacerdotes. Estamos todos nós, o tempo inteiro e em qualquer atividade perante Deus. Desta forma, a reforma protestante revolucionou os conceitos da religião medieval abolindo o fosso que separava o clero dos fiéis, e tornando todas as vocações dignas diante de Deus. Assim, o pastor na visão da reformada não é um sacerdote que serve de mediador espiritual entre Deus e os homens, mas um cristão com profundos conhecimentos teológicos e bíblicos e que está apto para ensinar e aconselhar os fiéis e a ajudar a governar a igreja local.

Esta doutrina nos revela mais sobre nossa função de sacerdote diante de Deus, por isso vale a pena ver um pouco mais o que a bíblia nos diz sobre isso. Para isso, precisamos compreender o papel do sacerdote no Antigo Testamento, o papel de Jesus como nosso sumo sacerdote, e o modo como nós somos chamados à esse sacerdócio diante de Deus.

No antigo testamento, o Sacerdote tinha a função de mediar o relacionamento entre Deus e o povo. Ele deveria ser da tribo de Levi, e era responsável por fazer os sacrifícios e orações a Deus bem como ensinar ao povo sobre a lei de Deus. No novo testamento, vemos uma visão diferente o oficio sacerdotal, onde Jesus Cristo é visto como o nosso sacerdote. Todas as funções do sacerdote no antigo testamento foram cumpridas n’Ele, e transformadas por Ele.  Desta forma, Jesus é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5), tendo cumprido na cruz a redenção necessária para que nos achegássemos a Deus, sendo ao mesmo tempo sacerdote e sacrifício.

Mas então, se Jesus é o nosso sacerdote, como nós podemos ser também sacerdotes? O novo testamento nos diz que em certo sentido, nós também somos chamados a sermos sacerdotes diante de Deus. “Também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo” (1 Pedro 2.5). Somos agora sacerdotes diante de Deus, e nosso sacrifício deve ser a nossa vida, expresso em gratidão, louvor e boas obras. Este sacerdócio se expressa na nossa missão de anunciar o evangelho a toda criatura, e de cumprir o mandato cultural. Ele também se expressa de modo comunitário, sendo todos sacerdotes, podemos então instruir uns aos outros em amor. Ser sacerdote implica necessariamente em serviço.

Desta forma, é possível ver como a doutrina do sacerdócio traz implicações práticas para a vida cristã e para a igreja. Somente resgatando este princípio bíblico é que podemos resgatar também a nossa identidade e a nossa missão no mundo de modo mais pleno: Em cada crente um sacerdote, um servo, um missionário. #SomosTodosSacerdotes.

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