quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Reforma, Imprensa e Esfera Pública

por Yuri R. Fernandes

O texto abaixo é trecho de um capitulo da monografia "Religão e Esfera Pública no Facebook", onde há uma reflexão a respeito do papel da Reforma Protestante para a consolidação do que é chamado de Esfera Pública e a respeito do papel da imprensa na Reforma. O trabalho completo pode ser acessado neste link.


Reforma, Imprensa e Esfera Pública


            A Reforma protestante, como já bem abordado por Alister McGrath, apesar de se tratar de um movimento de essência religiosa, não pode ser descolado dos seus aspectos sociais e históricos. O fato é que a Reforma ocorreu em uma época de transição da Idade Média para a Idade Moderna, um contexto histórico marcado por muitas mudanças sociais e politicas, como o surgimento da Burguesia e o surgimento dos Estados Nacionais. Uma das grandes mudanças foi também uma mudança técnica: A prensa gráfica de Gutemberg.
             A prensa gráfica é um dispositivo técnico de impressão que permite uma maior reprodução de textos, imagens e livros. É comum a ideia de que a prensa gráfica mudou o mundo, fazendo parte do trio imprensa-pólvora-Bússula, como observado por Francis Bacon (apud, Brigs e Burke 2004, p.26). Os historiadores Asa Brigs e Peter Burke (2004) atentam para o fato de que muitos pensadores teorizaram sobre o papel desempenhado pela prensa gráfica, descolando a visibilidade do contexto de co-presença, mudando as percepções e os modos de leitura, gerando uma maior preservação do conhecimento e ainda gerando críticas às autoridades estabelecidas. Todas estas mudanças foram por alguns chamada de “A revolução da prensa gráfica”.
            Se por um lado, a prensa gráfica parece ter revolucionado o mundo, por outro os dois historiadores apontam para alguns problemas desta visão. Em primeiro lugar essa revolução não foi uniforme, e durou cerca de 300 anos. Será que uma revolução lenta, poderia ainda sim ser uma revolução? Um segundo ponto é o problema do agente. Todas estas visões colocam o vetor da mudança no meio técnico de comunicação e não na gigantesca cadeia de seres humanos envolvidos no processo, como leitores, escritores e editores e do modo como eles se utilizavam deste aparato técnico.
            Há ainda um terceiro problema. Em geral esta visão não percebe que a inserção do meio impressão gráfica não substituiu as outras formas de comunicação. Há o que Brigs e Burke chamam de “sistema de mídia”, onde a comunicação oral, as formas de culto e situações de co-presença , manuscritos e cartas coexistem com a novidade técnica, sendo alteradas em alguns aspectos, por ela, e conformando esta novidade em outros. Neste sentido, é possível perceber, por exemplo que a comunicação oral, não foi apagada com o surgimento da imprensa, mas antes reforçada, uma vez que era comum que a leitura de livros fosse feita em público, de maneira tal que mesmo aqueles que não sabiam ler (a maioria da população) foram afetados com a inovação.
            Embora a Reforma protestante, até certo ponto, não teria sido possível sem essa inovação da prensa gráfica que disseminou rapidamente a ideia dos reformadores, ela também se inseriu neste contexto midiático complexo de um sistema de mídia: “após a Reforma, o sermão de domingo se tornou parte cada vez mais importante da instrução religiosa, tanto para protestantes quanto pra católicos” (Brigs e Burke , p.36). Estas condições estavam alinhadas com o objetivo da reforma de se comunicar com todos os cristãos, e não apenas os acadêmicos. É notável que foi a prensa gráfica que impediu que, por exemplo, Lutero fosse queimado na fogueira, como aconteceu com Jan Hus, um século antes, uma vez que de nada adiantava para a Igreja Católica eliminar Lutero se os escritos eram volumosos e de fácil acesso, além do preço acessível. “Neste sentido, a impressão gráfica transformou a Reforma em uma revolução permanente” (p.83). Sobre o modo como a prensa Gráfica influenciou a Reforma, Campos (2008) afirma:
Uma revolução na comunicação cristã viria após a descoberta da imprensa no Ocidente, por Gutenberg. Desde então se deu oficialmente, pelo menos no nível teórico, a passagem da hegemonia da oralidade para o da escrita. Conforme Ong (2001: 81 e ss), essa passagem implicou em reestruturação da consciência e das maneiras de se pensar o mundo. A percepção visual começou a predominar sobre a percepção auditiva, os olhos sobre os ouvidos e a boca. Seria, no entanto, nessa “era da imprensa” que a produção, transmissão e recepção da mensagem religiosa iria sofrer a sua primeira grande transformação. Esse processo de transformação foi historiado por Burke (2003) e Chartier (1998, 2002), que também fazem referência aos dilemas representados pelo advento das tecnologias computadorizadas em suas relações com a “era da imprensa”. (p.5)
            As imagens também entraram na batalha religiosa, sendo uma forma bem eficaz de se convencer aqueles que não sabiam ler. Elas constituíram um outro canal para a divulgação das ideias protestantes, um exemplo é a polêmica xilogravura Paixão de Cristo e Anticristo (1521) na qual a vida simples de Jesus é comparada com a opulência e o orgulho do papa. Outra maneira pelas quais os autores (Brigs e Burke) observaram a constituição da reforma foram os arquivos judiciais, que falam de muitos detalhes sobre a recepção de ideias novas, pela maneira como tentavam reprimi-las. Notável é o papel que estes registros dão a Taberna, como um lugar importante para a troca de ideias e boatos.
            Por estas características e outras foi que Brigs e Burke consideram a reforma protestante como a primeira esfera pública moderna [1]. Ela foi uma evento em que “as elites apelaram para o povo - e nos quais a mídia, sobretudo a imprensa, ajudou a elevar a consciência política”(p.107). Todas estas questões nos levam a refletir rapidamente sobre alguns pontos importantes para o presente trabalho.
            Em primeiro lugar uma vez que a nova mídia e a Reforma protestante surgiram em simultaneamente na sociedade europeia é necessário ver esta relação entre elas de maneira recíproca. Não foi apenas a Reforma que se apropriou do desenvolvimento da imprensa para divulgar as suas ideias e assim provocar uma mudança social. Ao usar a mídia os protestantes também a re-inventaram, explorando as suas possibilidades de uso e de adaptação. Isto é, não é apenas a história da reforma que fica comprometida quando se exclui o fator da imprensa, mas a própria história da imprensa fica comprometida quando a vemos sem o protestantismo.
            Isto nos leva a uma segunda reflexão. A reforma surgiu em uma ambiente midiatizado, isto é, ela nasceu como uma religião midiatizada. Isto não quer dizer que o catolicismo medieval não fosse midiatizado, uma vez que vitrais, sermões, teatros e imagens eram usos comuns para mobilizar as pessoas durante a idade média. Mas é inegável que a imprensa criou uma nova forma de se conceber a mídia e os seus usos. É neste contexto que se diz que o Protestantismo surgiu como uma forma de religião midiatizada, isto é, ele manteve aspectos básicos do cristianismo, mas no tocante ao uso da mídia para argumentar, se posicionar socialmente e evangelizar em um contexto em que apenas a co-presença não era mais suficiente. A reflexão que fica é até que ponto esta característica da Reforma permaneceu ou se descontinuou na medida em que novos meios foram se desenvolvendo e que a sociedade foi se pluralizando.
            Uma terceira reflexão diz respeito à Reforma Protestante como uma esfera pública. Isto implica no trabalho que os reformadores tiveram para gerar uma discussão e por outro lado, para desenvolver um aspecto público da religião. A busca por uma defesa cada vez mais consistente da fé por eles, levou a um aspecto interessante do protestantismo, o confessionalismo. Com os embates com os católicos, foi-se criando diversos documentos, as confissões de fé, que eram resumos e argumentações das principais doutrinas das igrejas. Em muitos destes documentos, já percebemos uma preocupação com o aspecto público da religião. Muitos fazem distinção entre culto público e a vida como um culto, a necessidade dos membros adentrarem formalmente à igreja não apenas pelo batismo mas por uma pública profissão de fé, além é claro de todo o sistema de impressão de sermões, bíblias, folhetos e livros envolvidos no processo. Todas estas impressões transparecem uma percepção de que a publicidade tem consequências, isto é professar a fé publicamente, implica em uma série de responsabilidades. Um bom resumo disto é o que consta no capitulo XX da Confissão de fé de Westminster, uma das principais confissões de fé da época e que é usada até hoje, que trata a respeito da liberdade cristã e da liberdade de consciência:
Se publicarem opiniões ou mantiverem práticas contrárias à luz da natureza ou aos reconhecidos princípios do Cristianismo concernentes à fé, ao culto ou ao procedimento; se publicarem opiniões, ou mantiverem práticas contrárias ao poder da piedade ou que, por sua própria natureza ou pelo modo de publicá-las e mantê-las, são destrutivas da paz externa da Igreja e da ordem que Cristo estabeleceu nela, podem, de justiça ser processados e visitados com as censuras eclesiásticas. (Confissão de Fé de Westminster, cap. XX, parte IV)
            Não é difícil perceber como era levado à sério na época a questão da publicidade. Uma vez que alguém se torna membro de uma igreja professando a fé, faz sentido que esta pessoa mantenha coerência com os princípios que professou também na publicidade. É importante perceber, que a aplicação da disciplina eclesiástica nesta caso só se dá no momento em que há incoerência entre a fé professada e a fé publicada.
            Ao abordar a confissão de fé, é necessário perceber que muitas das diferentes denominações da Reforma, se diferenciam e se destacam uma das outras justamente por estas confissões. É por este motivo que o luteranismo é diferente do Calvinismo e do anglicanismo. A partir de agora, focaremos no desenvolvimento de uma tradição especifica dentro da reforma, àquela que está diretamente relacionado com o objeto de estudo: O Calvinismo. Após esta incursão na história do calvinismo e suas controvérsias, vamos analisar um pouco a história e a conjuntura dos movimentos evangélicos brasileiros, o que nos dará uma base para compreender a página Calvino da Depressão.

[1] Há algumas controvérsias a este respeito. A grande questão é que para Brigs e Burke a esfera pública pode ser temporária ou permanente, o que diferencia o conceito deles e o de Habermas era que este a via apenas como permanente. A reforma foi uma esfera pública temporária, que assim como outros eventos, originaram alguns dos mecanismos que mais tarde iriam gerar um esfera pública permanente.


Referências Bibliográficas:

MCGRATH, Alister. As Origens Intelectuais da Reforma Protestante. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. 304 p.

BRIGGS, Asa.; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. 377 p.

CAMPOS, Leonildo Silveira. Evangélicos e Mídia no Brasil – Uma História de Acertos e Desacertos. In: Rever (Revista de Estudos da Religião). São Paulo, ano 8, set. 2008. Disponível em: <www.pucsp.br/rever/rv32008/tcampos.htm#footnote1nota>. Acesso: 03/04/2010.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

AMIZADE ÉTICA: UM DESAFIO

 Por André Storck

O Brasil é mundialmente conhecido como o país de morada de um povo amigável e simpático. Mas o que parecia ser um ponto positivo em nosso favor tem se revelado a cada dia uma terrível maldição.

Não é de hoje que observamos nossos governantes ascenderem ao poder porque são simpáticos e não pela competência. Os casos de corrupção e desvio de poder ao invés de serem investigados em favor da verdade e da moralidade são varridos para debaixo dos tapetes para proteger os “amigos” e “apadrinhados”.

Em conversa com dois colegas suecos em intercâmbio no Brasil constatei que, de fato, essa fama negativa é patente e já se espalhou, eles observaram sem dificuldades – em menos de 2 meses de intercâmbio - como no Brasil tudo se consegue por meio de conchavos, cochichos ao pé do ouvido e tapinhas nas costas. Essa cultura não vem de Brasília, mas está presente em cada casa do país, o que vemos no Congresso é apenas o reflexo.

Um dos casos que mais me chamou atenção foi a prisão do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Muito embora ele tenha sido filmado recebendo o dinheiro da propina, e o esquema de corrupção em que estava envolvido fosse mais claro que sol ao meio dia, havia dezenas, senão centenas, de partidários gritando palavras de ordem em seu favor na frente do prédio da Justiça no DF. Qual o critério usado para este tipo de apoio senão o partidarismo? A Câmara do Distrito Federal que devia fiscalizar resolveu que não iria sequer investigar, por quê? Por puro corporativismo, amigos do Governador eram maioria lá.

     Vivemos numa sórdida tradição política de proteger um "amigo" mesmo à custa da ética, do profissionalismo e da justiça. Em verdade o próprio conceito de amizade está corrompido. Todo mundo é amigo até o dia em que apontar um erro. O delator do famoso mensalão, Deputado Roberto Jefferson era "amigo" até que resolveu denunciar o escândalo no qual estava envolvido. Essa falsa amizade se faz sempre por interesse, seja para manter um cargo ou simplesmente para não se sentir sozinho ou com poucos amigos. O interesse pessoal sempre está na frente.

          O corporativismo está disseminado. O Conselho Regional de Medicina que devia investigar o médico que matava pacientes, se omite para proteger o colega. O Conselho da OAB que devia investigar o advogado que sumiu com o dinheiro da viúva não faz nada porque o ladrão “é de casa, é da família” e assim vamos.

No Brasil a lei só vale para o outro, como dizia o antigo provérbio: “aos amigos tudo, aos inimigos, a lei.” Ou seja, diante dos erros e corrupção dos “meus chegados” não faço nada e não deixo que ninguém faça. No máximo dou uma “ajeitada” porque dos meus amigos cuido eu. A justiça não se aplica aos do meu círculo, serve somente para os de fora. Um exemplo atual é a posição do governo federal de não permitir sequer uma investigação sobre o escândalo da Petrobrás, pois os líderes do partido e seus amigos é que estavam no controle da estatal. Não importa se bilhões de reais suados do povo brasileiro foram perdidos, o que importa é manter a camaradagem.

      A podridão do Poder contamina de tal forma os grupos dominantes que a partir de um certo ponto, quando todos já estão com o “rabo preso” ninguém é capaz de exigir uma postura mais honesta e justa. Vejam, por exemplo, os condenados pelo mensalão: antes de irem para a cadeia estavam ocupando cadeiras na mais importante comissão da Câmara dos Deputados: a comissão de constituição e justiça. Nenhum dos 513 deputados federais ousou levantar o dedo e apontar o erro, tudo em prol de manter a “amizade política” e não “se sujar”.

     Enquanto isso, os bilhões desviados em corrupção no país vão matando milhares de cidadãos desamparados diante de uma violência endêmica, saúde em péssimo estado e com a miséria.

Os políticos são eleitos porque são presidente/jogador do meu clube de futebol, pastor da minha igreja, ator de televisão etc. E a observação da Deputada carioca Cidinha Campos vai se confirmando a cada dia: “quanto mais simpático, mais corrupto”.

       Sabemos, diante da perspectiva bíblica, que a corrupção está no nosso código genético, ou seja, faz parte da natureza humana contaminada pelo pecado. E, assim, deixo claro que não faço aqui apologia a nenhuma ideologia partidária. Não há partido que salve, PT, PSDB, PMDB e muito menos o PSOL (rs), todos são compostos de homens, por definição atingidos pela queda adâmica.

Nós cristãos reformados precisamos nos policiar. Estamos constantemente submetidos à tentação de abrirmos mão do que é certo, justo e agradável perante Deus para atender à nossa necessidade de sermos aceitos pelo grupo em que estamos.

       Os valores de sua fé influenciam suas decisões quando tomadas em relação aos seus amigos? Ou você possui dois pesos e duas medidas?

Diante desse cenário, para fazer o que é agradável a Deus, podemos cultivar amizades éticas. São amizades nas quais todos os aspectos e esferas da vida são respeitadas, inclusive a justiça. Precisamos lutar para romper com essa cultura corporativista, a começar pelo nosso círculo de amizade. Um verdadeiro amigo se reconhece exatamente quando no trabalho, na família, na escola e em qualquer outro lugar lhe mostra e te ajuda a corrigir os seus erros e dificuldades. De fato é um desafio, pois nossa tendência natural é à corrupção de abrirmos mão de fazer o certo para proteger a quem amamos.

Na minha experiência pessoal sou abençoado com uma consciência tranqüila e com a alegria de ter ao meu lado amigos que sabem que não podem contar comigo para praticar ou omitir injustiças. Por outro lado, também cometo falhas e, assim, sou duplamente recompensado com amigos honestos que me apontam meus erros e se recusam a darem voto de aprovação.

Que essa proposta possa nos inspirar não somente nas eleições - para votarmos em homens comprometidos com a ética, honestidade e justiça doa a quem doer -, mas que também nos inspire pessoalmente para mudar aos poucos nossa postura individual e semear amizades éticas e saudáveis que serão refletidas, quem sabe um dia, nas estruturas de poder da nossa sociedade. Os jovens serão os líderes de amanhã, mas se não vigiarmos agora o modo como vivemos e tomamos pequenas decisões não seremos capazes de no futuro fazer diferente diante de grandes questões.