quarta-feira, 6 de agosto de 2014

AMIZADE ÉTICA: UM DESAFIO

 Por André Storck

O Brasil é mundialmente conhecido como o país de morada de um povo amigável e simpático. Mas o que parecia ser um ponto positivo em nosso favor tem se revelado a cada dia uma terrível maldição.

Não é de hoje que observamos nossos governantes ascenderem ao poder porque são simpáticos e não pela competência. Os casos de corrupção e desvio de poder ao invés de serem investigados em favor da verdade e da moralidade são varridos para debaixo dos tapetes para proteger os “amigos” e “apadrinhados”.

Em conversa com dois colegas suecos em intercâmbio no Brasil constatei que, de fato, essa fama negativa é patente e já se espalhou, eles observaram sem dificuldades – em menos de 2 meses de intercâmbio - como no Brasil tudo se consegue por meio de conchavos, cochichos ao pé do ouvido e tapinhas nas costas. Essa cultura não vem de Brasília, mas está presente em cada casa do país, o que vemos no Congresso é apenas o reflexo.

Um dos casos que mais me chamou atenção foi a prisão do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Muito embora ele tenha sido filmado recebendo o dinheiro da propina, e o esquema de corrupção em que estava envolvido fosse mais claro que sol ao meio dia, havia dezenas, senão centenas, de partidários gritando palavras de ordem em seu favor na frente do prédio da Justiça no DF. Qual o critério usado para este tipo de apoio senão o partidarismo? A Câmara do Distrito Federal que devia fiscalizar resolveu que não iria sequer investigar, por quê? Por puro corporativismo, amigos do Governador eram maioria lá.

     Vivemos numa sórdida tradição política de proteger um "amigo" mesmo à custa da ética, do profissionalismo e da justiça. Em verdade o próprio conceito de amizade está corrompido. Todo mundo é amigo até o dia em que apontar um erro. O delator do famoso mensalão, Deputado Roberto Jefferson era "amigo" até que resolveu denunciar o escândalo no qual estava envolvido. Essa falsa amizade se faz sempre por interesse, seja para manter um cargo ou simplesmente para não se sentir sozinho ou com poucos amigos. O interesse pessoal sempre está na frente.

          O corporativismo está disseminado. O Conselho Regional de Medicina que devia investigar o médico que matava pacientes, se omite para proteger o colega. O Conselho da OAB que devia investigar o advogado que sumiu com o dinheiro da viúva não faz nada porque o ladrão “é de casa, é da família” e assim vamos.

No Brasil a lei só vale para o outro, como dizia o antigo provérbio: “aos amigos tudo, aos inimigos, a lei.” Ou seja, diante dos erros e corrupção dos “meus chegados” não faço nada e não deixo que ninguém faça. No máximo dou uma “ajeitada” porque dos meus amigos cuido eu. A justiça não se aplica aos do meu círculo, serve somente para os de fora. Um exemplo atual é a posição do governo federal de não permitir sequer uma investigação sobre o escândalo da Petrobrás, pois os líderes do partido e seus amigos é que estavam no controle da estatal. Não importa se bilhões de reais suados do povo brasileiro foram perdidos, o que importa é manter a camaradagem.

      A podridão do Poder contamina de tal forma os grupos dominantes que a partir de um certo ponto, quando todos já estão com o “rabo preso” ninguém é capaz de exigir uma postura mais honesta e justa. Vejam, por exemplo, os condenados pelo mensalão: antes de irem para a cadeia estavam ocupando cadeiras na mais importante comissão da Câmara dos Deputados: a comissão de constituição e justiça. Nenhum dos 513 deputados federais ousou levantar o dedo e apontar o erro, tudo em prol de manter a “amizade política” e não “se sujar”.

     Enquanto isso, os bilhões desviados em corrupção no país vão matando milhares de cidadãos desamparados diante de uma violência endêmica, saúde em péssimo estado e com a miséria.

Os políticos são eleitos porque são presidente/jogador do meu clube de futebol, pastor da minha igreja, ator de televisão etc. E a observação da Deputada carioca Cidinha Campos vai se confirmando a cada dia: “quanto mais simpático, mais corrupto”.

       Sabemos, diante da perspectiva bíblica, que a corrupção está no nosso código genético, ou seja, faz parte da natureza humana contaminada pelo pecado. E, assim, deixo claro que não faço aqui apologia a nenhuma ideologia partidária. Não há partido que salve, PT, PSDB, PMDB e muito menos o PSOL (rs), todos são compostos de homens, por definição atingidos pela queda adâmica.

Nós cristãos reformados precisamos nos policiar. Estamos constantemente submetidos à tentação de abrirmos mão do que é certo, justo e agradável perante Deus para atender à nossa necessidade de sermos aceitos pelo grupo em que estamos.

       Os valores de sua fé influenciam suas decisões quando tomadas em relação aos seus amigos? Ou você possui dois pesos e duas medidas?

Diante desse cenário, para fazer o que é agradável a Deus, podemos cultivar amizades éticas. São amizades nas quais todos os aspectos e esferas da vida são respeitadas, inclusive a justiça. Precisamos lutar para romper com essa cultura corporativista, a começar pelo nosso círculo de amizade. Um verdadeiro amigo se reconhece exatamente quando no trabalho, na família, na escola e em qualquer outro lugar lhe mostra e te ajuda a corrigir os seus erros e dificuldades. De fato é um desafio, pois nossa tendência natural é à corrupção de abrirmos mão de fazer o certo para proteger a quem amamos.

Na minha experiência pessoal sou abençoado com uma consciência tranqüila e com a alegria de ter ao meu lado amigos que sabem que não podem contar comigo para praticar ou omitir injustiças. Por outro lado, também cometo falhas e, assim, sou duplamente recompensado com amigos honestos que me apontam meus erros e se recusam a darem voto de aprovação.

Que essa proposta possa nos inspirar não somente nas eleições - para votarmos em homens comprometidos com a ética, honestidade e justiça doa a quem doer -, mas que também nos inspire pessoalmente para mudar aos poucos nossa postura individual e semear amizades éticas e saudáveis que serão refletidas, quem sabe um dia, nas estruturas de poder da nossa sociedade. Os jovens serão os líderes de amanhã, mas se não vigiarmos agora o modo como vivemos e tomamos pequenas decisões não seremos capazes de no futuro fazer diferente diante de grandes questões.

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