segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Reflexão para um tempo de corrupção


   Em momentos difíceis de nossas vidas, seja no âmbito particular, seja no social, enquanto vemos de um lado a maldade e a corrupção prosperarem e, de outro, os justos sofrerem, devemos confiar e colocar nosso olhos no Altíssimo, conforme nos ensina JOÃO CALVINO na passagem abaixo:


   "Ora, o Senhor não somente permite que os seus servos sejam atormentados pelos ímpios, mas também muitas vezes deixa que eles sejam dissipados e destruídos pelos maus. Deixa que os retos desfaleçam nas trevas e no infortúnio, enquanto os ímpios brilham como as estrelas do firmamento [...] Por isso Davi mesmo não esconde o fato de que, se tivermos os olhos postos no presente estado deste mundo, sofreremos com isso forte tentação de deixar-nos vacilar; como se não recebêssemos nenhuma recompensa por nossa integridade. A esse ponto a impiedade prospera e floresce, ao passo que os justos são oprimidos pela ignomínia, pela pobreza, pelo desprezo e outras espécies de calamidade. "Quase me resvalaram os pés"_diz o salmista; "pouco faltou pra que se desviassem os meus passos, pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos". Depois de fazer uma descrição disso, o salmista conclui: "Em só refletir para compreender isso, achei mui pesada tarefa para mim; até que entrei no santuário de Deus e atinei para o fim deles." (Sl. 73).

   Aprendamos, pois, dessa confissão do Salmista que os santos pais sob o Antigo Testamento não ignoravam quão poucas vezes Deus cumpriu, ou plenamente jamais cumpriu, neste mundo presente, as coisas que ele promete aos seus servos. E que por essa causa elevam estes o seu coração ao santuário de Deus, onde encontravam o que lá estava reservado e que não lhes era manifesto nesta vida corruptível. Esse santuário é o juízo final que esperamos, o qual eles se contentavam em entender pela fé, embora não o vissem com os olhos.

    Munidos dessa confiança, fosse o que fosse, que lhes adviesse neste mundo, eles não duvidavam que chegaria o dia em que as promessas de Deus seriam cumpridas [...] Por isso, tendo os olhos postos na eternidade e desprezando o amargor das calamidades presentes que eles viam serem transitórias, glorificavam-se confiantemente nestas palavras: "Jamais permitirás, ó Senhor, que o justo pereça eternamente, mas afundarás o ímpio no abismo da destruição." Sl. 55.

(João Calvino_ As Institutas da Religião Cristã vol. 3 Cap. VII, 15. Editora CEP, São Paulo, 1ª ed. 2006)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O Terremoto da Afetividade

CUIDADO: ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS!!!

por Rev. Fillipe Cotta e Leonardo Verona


O filme “Terremoto, a falha de San Andreas”, é mesmo catastrófico. Para quem aprecia cenas de destruição não ficará decepcionado com o novo filme de The Rock. Mas quem espera personagens maduras e uma trama rica, não encontrará muita coisa.

Ray, o personagem de The Rock, é um bombeiro, piloto de helicóptero, bem-sucedido. Logo de cara o filme mostra Ray e sua equipe fazendo um regaste quase impossível de uma mulher que caiu com seu carro num despenhadeiro. A impressão que temos é que a trama irá girar em torno de salvamentos milagrosos e de grande destruição causada pelo terremoto. Entretanto, ao contrário do que parece a primeira vista, a narrativa do filme não gira em torno do evento cataclísmico, mas em uma "micro narrativa" familiar. O terrível terremoto serve apenas para reconciliar Ray e sua ex-esposa Emma (Carla Gugino) e redimir o bem sucedido bombeiro que no passado não conseguiu impedir que uma de suas filhas morresse afogada. Por conta desse incidente, o casal entrou em um círculo de dor e culpa, sem redenção. Isso porque a redenção não era a graça, mas o socorro heróico do pai, que falhara. Em consequência, o casamento se desfez e a angústia foi suprida por "afeto" fora do casamento. 

Durante o tremor, a filha do The Rock, fica em apuros, quando abandonada por Daniel (Ioan Gruffudd), seu padrasto, que, num ato de egoísmo, a deixa à morte a fim de se salvar. A salvação da menina começa com um ato de amor de um jovem e seu irmão, Ben e Ollie, que decidem voltar e salvar a garota. Num primeiro momento, o ato pode parecer gracioso, de amor sacrificial, revelando amizade e amor ao próximo. Mas não, o filme gira e o herói bonitão se revela apaixonado pela jovem. O amor redentor expresso por ele é também afetivo, do tipo paixão instantânea Hollywoodiana. 

No final, The Rock, numa condição mais adversa, consegue salvar sua filha de um afogamento, sacramentando sua “redenção”, e assim reunindo a família novamente. 

Nessa trama, nada mais importa a não ser o suprimento afetivo constante. Mas o que isso revela sobre a sociedade em que vivemos? 

Não são poucos os filmes, novelas e romances que se utilizam desse mesmo artifício. Isso revela que tem crescido o entendimento de que todas as nossas relações e o próprio sentido da vida é dado pela afetividade, pelas afeições que sentimos. Essa exacerbação do emocional não é só percebida no cinema, mas também na igreja, no mercado corporativo, e até nas políticas públicas. 

Como no filme, que reduziu toda uma catástrofe a uma relação afetiva familiar, observamos a mesma tendência a esse reducionismo narcísico em toda a sociedade ocidental. Por exemplo, o casamento deixa de ser um compromisso ético feito entre um homem e uma mulher e passa a ser uma relação meramente afetiva, que pode ser desfeita quando a afeição não é mais a mesma. Outro exemplo é o consumo baseado na sensação que determinado produto gera no cliente. Na igreja também observamos essa tendência, quando o culto ao Senhor é reduzido a meras experiências de bem-estar estar que são proporcionadas aos membros. E por fim, quando achamos que a nossa história e as nossas experiências afetivas estão no centro do universo, e como muitas vezes achamos isso! 

Ao contrário das tramas hollywoodianas, não devemos pautar a nossa vida e as nossas relações interpessoais meramente pela afetividade, mas colocarmos as afeições no lugar onde elas devem estar. E só conseguiremos fugir desse “terremoto” afetivo quando o centro de nossa vida for Cristo, quando entendermos que a história mais importante não é a nossa, mas a de Cristo. 

Colossenses 1:16 e 17
"pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele.Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste."

terça-feira, 16 de junho de 2015

1º Espiritualidade Total

No próximo sábado, 20 de junho, participaremos do 1º Espiritualidade Total, um evento organizado pela FMPREL - Federação de Mocidades do Presbitério Eldorado em parceria com a Associação Grupo de Estudos de Cosmovisão Calvinista.
O evento consiste em duas palestras sobre a espiritualidade cristã à luz da cosmovisão cristã reformada.
Convide seus amigos e participe conosco!


sexta-feira, 24 de abril de 2015

O esquerdismo e o evangelho

por Alfredo de Souza



Recentemente, um conhecido líder evangélico definiu-se ideologicamente da seguinte maneira: “Sou um pensador independente, de esquerda. Não acredito no neoliberalismo capitalista. Ele produz os excluídos. O Evangelho defende os pobres e os marginalizados".
Causa-me espanto que um homem que se diz “de Deus” seja tão rápido em enfileirar-se nas trincheiras da teologia da libertação, como se ela se constituísse leitura fiel do Evangelho, sem, no entanto, aperceber-se das claras divergências entre ambos. Pelo menos foi o que ficou evidente.
Com base nesta percepção, gostaria de fazer as seguintes considerações:

1. O Evangelho não está restrito a uma classe social. 
Uma das pessoas mais mal compreendidas do mundo é o Senhor Jesus. Em seu nome muitos abusos foram e ainda são praticados. Um deles é restringi-lo à pobreza e à miséria. Na verdade, o Evangelho não defende a pobreza, ele defende unicamente a glória de Deus e a vitória de seu Filho para a salvação dos eleitos, sejam eles riquíssimos, medianos, pobres ou miseráveis financeiramente. Nesse contexto há cinco considerações importantes. Em primeiro lugar, Jesus recebeu e conviveu com ricos, além de freqüentar a casa dos publicanos, indivíduos censuráveis, não por terem recursos financeiros, mas pela maneira como enriqueceram. Em segundo lugar, o próprio conceito de pobreza não está restrito às posses materiais. Mt 5: 3 menciona acerca dos pobres de espírito, enquanto o próprio rei Davi, em meio à sua fortuna, afirmou no Sl 40:17: “Eu sou pobre e necessitado, porém o Senhor cuida de mim; tu és o meu amparo e o meu libertador; não te detenhas, ó Deus meu!” Em terceiro lugar, a defesa bíblica dos pobres ocorre no contexto da Aliança de Deus com o seu povo, ou seja, é o pobre crente que recebe as promessas dos cuidados divinos para a sua penúria. Em quarto lugar, o problema levantado pelas Escrituras não estava na riqueza, mas no apego a ela que promovia o orgulho, o egoísmo e o desprezo pelos necessitados. Em quinto lugar, condicionar as Boas Novas aos pobres, portanto, é permitir que a falta de recursos seja, em si mesma, santificadora do homem. O Evangelho não defende os pobres nem os marginalizados, pois o pobre sem Cristo será condenado, assim como o rico com Cristo será salvo.

2. A esquerda é, em essência, contra a moralidade divina. 
A esquerda defende uma liberdade pecaminosa ao homem. Não importa se se trata do Democratic Party americano, do Bloco de Esquerda português, do Sozialdemokratische Partei Deutschlands alemão ou do PSOL brasileiro, o alvo principal é o mesmo. A luta em favor do aborto, do feminismo, do homossexualismo, do divórcio, da compartimentação radical da sociedade, do uso de células-tronco embrionárias etc. são claramente contra a Lei de Deus. Se, historicamente, alguns segmentos da direita cometeram abusos, os da esquerda, de igual modo, cometeram também. O que determina tal posição é o humanismo em detrimento do teísmo (o mesmo ocorre com a teologia relacional, o neopentecostalismo e, obviamente, a teologia da libertação).

3. Toda cúpula governamental é abastada. 
Este é outro ponto que os esquerdistas não entendem. Os líderes da esquerda clássica vivenciaram a opulência e o conforto financeiro diante da miséria social. O próprio Fidel Castro é um exemplo clássico disso, sem falar de Hugo Chávez ou Evo Morales. Todos estão encastelados devorando faisões enquanto seus patrícios morrem por migalhas. Mas não são apenas estes que vivenciam o usufruto de bens materiais, até mesmo os homens de Deus sérios que ocuparam cargos públicos gozaram da riqueza e do conforto como foi o caso de Davi, de Salomão, de José e de Daniel.

4. Cuidar dos pobres é uma parte do cumprimento da Lei. 
Há vários textos que alertam o crente quanto ao cuidado aos necessitados. Mas isto não ocorre para que haja uma transformação social radical. Isto é utopia. Aliás, “nunca deixará de haver pobres na terra” (Dt 15: 11). A responsabilidade do crente está em partilhar daquilo que Deus concede generosamente, pois nada é nosso, tudo é dele. A riqueza não deve embrutecer ou criar a sensação de auto-suficiência, pois em tudo dependemos da graça. Por isso, somos obrigados a servir ao próximo, inclusive com o bolso. É nesse contexto que o Evangelho promove mudanças na sociedade, embora isso não seja o alvo principal.
Além de tudo o que acima foi exposto, é preciso ressaltar que o esquerdismo manifesto na Teologia da Libertação lê as Escrituras com um programa de mudança social, isto é, a interpretação que ela faz do Evangelho pretende ser apenas uma justificativa para as práticas políticas voltadas à sociedade. Afinal, para a Teologia da Libertação, a leitura é uma “produção de sentido” onde leitor constrói o significado do texto.

Concluo dizendo que “ser de esquerda” e “ser cristão” estabelece uma grande contradição, cuja síntese – se é que isso exista – sempre prejudicará o Evangelho e contribuirá maciçamente para com a esquerda. Ser cristão é não pertencer ao mundo, é ser peregrino, é ser louco para com os inteligentes deste mundo.

SOLA SCRIPTURA

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Texto de autoria do Pr. Alfredo de Souza, publicado originalmente em seu blog.
Pastor presbiteriano e historiador social. Casado com Sandra e pai de dois filhos: João e Ana.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Os protestos de 15 de março são elitistas?

por Leonardo Verona

Os protestos que tivemos nos últimos dias mostraram de maneira geral a insatisfação da população brasileira com seus governantes. Não é para menos, já que pagamos uma carga alta de tributos (em sua maioria indiretos, que oneram mais o pobre), e não vemos essa arrecadação ser traduzida em serviços públicos de qualidade. Ao contrário, vemos há décadas nossos recursos serem dilapidados, primeiro pela ineficiência e má aplicação dos recursos e segundo pela corrupção generalizada
em nosso país.
Muitos tentaram minimizar os protestos, afirmando ser o “tom” de uma classe só, de uma classe média branca que não quer abrir mão de seus “luxos”. De fato, os institutos de pesquisa, como do Datafolha, mostraram que tanto a manifestação de sexta, como a de domingo tinham um perfil “elitista”, pois grande parte de seus participantes possuíam escolaridade de nível superior (http://app.folha.com/#noticia/531499). Mas, podemos concluir com isso, que a parcela social menos favorecida economicamente (que incluí grande parcela dos negros, discriminados por muito tempo no Brasil), e que não possuem acesso adequado aos serviços públicos básicos (educação, saúde e saneamento), concordam com o modo como os governos tem gerido o país?
É obvio que não! O que ocorre é que esta parcela menos favorecida da população não possuí força e nem voz para gritar e clamar por justiça! Essa grande massa da população brasileira não tem acesso aos canais de participação que nós, pessoas que possuem acesso à internet e a informação temos. Somente o fato de existir uma população assim, privada até mesmo de ter voz, num país que é a 8ª economia mundial e com uma das cargas tributárias mais elevadas do mundo, mostra que as coisas não estão nada bem!
O que vi nesses protestos, não foi uma classe média tentando proteger os seus “luxos”, mas pessoas que possuem acesso a informação e a educação, mostrarem a sua indignação com a ineficiência dos gastos públicos e a corrupção, frente as altas cargas tributárias que são colocadas nos nossos ombros. E isso é um fato até mais marcante para os mais pobres, que são mais  onerados pelos impostos indiretos e pela inflação, mesmo eles não possuindo voz para protestarem.

Logo, o governo, e também os militantes de esquerda e direita, deveriam abandonar o discurso maniqueísta (situação x oposição), partidário (PT x PSDB), e de ódio entre as classes, mas enxergarem o fato inequívoco da má utilização dos recursos públicos (ineficiência e corrupção). E que além dessa parcela informada da população que se manifestou, existe uma grande massa que nem voz possui para protestar.