quarta-feira, 1 de julho de 2015

O Terremoto da Afetividade

CUIDADO: ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS!!!

por Rev. Fillipe Cotta e Leonardo Verona


O filme “Terremoto, a falha de San Andreas”, é mesmo catastrófico. Para quem aprecia cenas de destruição não ficará decepcionado com o novo filme de The Rock. Mas quem espera personagens maduras e uma trama rica, não encontrará muita coisa.

Ray, o personagem de The Rock, é um bombeiro, piloto de helicóptero, bem-sucedido. Logo de cara o filme mostra Ray e sua equipe fazendo um regaste quase impossível de uma mulher que caiu com seu carro num despenhadeiro. A impressão que temos é que a trama irá girar em torno de salvamentos milagrosos e de grande destruição causada pelo terremoto. Entretanto, ao contrário do que parece a primeira vista, a narrativa do filme não gira em torno do evento cataclísmico, mas em uma "micro narrativa" familiar. O terrível terremoto serve apenas para reconciliar Ray e sua ex-esposa Emma (Carla Gugino) e redimir o bem sucedido bombeiro que no passado não conseguiu impedir que uma de suas filhas morresse afogada. Por conta desse incidente, o casal entrou em um círculo de dor e culpa, sem redenção. Isso porque a redenção não era a graça, mas o socorro heróico do pai, que falhara. Em consequência, o casamento se desfez e a angústia foi suprida por "afeto" fora do casamento. 

Durante o tremor, a filha do The Rock, fica em apuros, quando abandonada por Daniel (Ioan Gruffudd), seu padrasto, que, num ato de egoísmo, a deixa à morte a fim de se salvar. A salvação da menina começa com um ato de amor de um jovem e seu irmão, Ben e Ollie, que decidem voltar e salvar a garota. Num primeiro momento, o ato pode parecer gracioso, de amor sacrificial, revelando amizade e amor ao próximo. Mas não, o filme gira e o herói bonitão se revela apaixonado pela jovem. O amor redentor expresso por ele é também afetivo, do tipo paixão instantânea Hollywoodiana. 

No final, The Rock, numa condição mais adversa, consegue salvar sua filha de um afogamento, sacramentando sua “redenção”, e assim reunindo a família novamente. 

Nessa trama, nada mais importa a não ser o suprimento afetivo constante. Mas o que isso revela sobre a sociedade em que vivemos? 

Não são poucos os filmes, novelas e romances que se utilizam desse mesmo artifício. Isso revela que tem crescido o entendimento de que todas as nossas relações e o próprio sentido da vida é dado pela afetividade, pelas afeições que sentimos. Essa exacerbação do emocional não é só percebida no cinema, mas também na igreja, no mercado corporativo, e até nas políticas públicas. 

Como no filme, que reduziu toda uma catástrofe a uma relação afetiva familiar, observamos a mesma tendência a esse reducionismo narcísico em toda a sociedade ocidental. Por exemplo, o casamento deixa de ser um compromisso ético feito entre um homem e uma mulher e passa a ser uma relação meramente afetiva, que pode ser desfeita quando a afeição não é mais a mesma. Outro exemplo é o consumo baseado na sensação que determinado produto gera no cliente. Na igreja também observamos essa tendência, quando o culto ao Senhor é reduzido a meras experiências de bem-estar estar que são proporcionadas aos membros. E por fim, quando achamos que a nossa história e as nossas experiências afetivas estão no centro do universo, e como muitas vezes achamos isso! 

Ao contrário das tramas hollywoodianas, não devemos pautar a nossa vida e as nossas relações interpessoais meramente pela afetividade, mas colocarmos as afeições no lugar onde elas devem estar. E só conseguiremos fugir desse “terremoto” afetivo quando o centro de nossa vida for Cristo, quando entendermos que a história mais importante não é a nossa, mas a de Cristo. 

Colossenses 1:16 e 17
"pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele.Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste."