segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Pokémon ou lá vamos nós!!!

por Rev. Fillipe Mendes

Gente boa, Pokémon voltou e já virou febre. Algumas reações também voltaram por parte de cristãos, e corremos o risco, de maneira imatura como igreja, de coarmos o mosquito e engolirmos o camelo. Explico (vá até o fim do texto comigo):

Toda mitologia é carregada de uma narrativa própria, e aponta para uma construção de "sentido", que só faz sentido dentro daquela atmosfera criada. A cultura pop está recheada de elementos desse tipo. Mitologias grega, celta, egípcia, judaica, entre tantas, acabam compondo as narrativas de filmes, desenhos, séries, animes e games. Essa é uma realidade. Algumas narrativas ficcionais nas telonas, por exemplo, são bem famosas, e criam todo um mundo à parte: um Batman em Gotham, um Super-Man e sua criptonita, vampiros, zumbis, etc. 

Isso não é novo, afinal um João e o pé de feijão já nos falava de um mundo de gigantes. Chapeuzinho vermelho e seu lobo mau, que de tão mau perseguia até os três porquinhos engenhosos. Sem esquecer de a Bela e a Fera, ou da bruxa má de João e Maria, ou mesmo de Branca de Neve e sua trupe de anões. Até mesmo nossos jogos olímpicos não existiriam se Hércules não tivesse cumprido alguns trabalhos impossíveis, obedecendo a deusa Hera.

Com Pokémon não é diferente. Os monstrinhos de bolso, significado do termo Pokémon, fazem parte de uma lista enorme de seres criados, dentro de uma roupagem mitológica japonesa, e se tornaram famosos por um desenho lançado em 1995 por Satoshi Tajiri. Quando criança, Satoshi gostava de brincar de coletar insetos e os guardar. Daí sua ideia amadurecida desenvolveu um desenho, que agora virou um game mega interativo, em que Treinadores coletam os monstrinhos e os coleciona.

Cada Pokémon tem características específicas, e compõem um grupo enorme bichinhos (veja aqui http://pokemondb.net/etymology). Alguns são lagartos, como o Bulbassauro, Venassauro. Répteis com cara de "dinos", tipo o Charizard. Tem até um rato amarelo que grita, o Pikachu. Enfim, trata-se de um mundo ficcional desenvolvido como uma fantasia, e deve ser tratado como.

A ficção pode ser boa ou ruim, depende de como nos apropriamos dela. Sem dúvida alguma, fugir da capacidade humana de inventar e compor histórias imaginativas é quase impossível. Fazemos isso desde a infância, dando nome a ursinhos, bonecas e bonecos, almofadinhas queridas, ou mesmo transformando nosso quarto em florestas e castelos cheios de desafios e aventuras.

Creio que a reação que diz “isso é do demônio” e ponto final é muito simplista e perigosa.Simplista, porque seleciona entra tantas mitologias, antigas ou modernas, algumas que serão rechaçadas e demonizadas, não fazendo isso com todo o resto. Se vai evitar Pokémon, simplesmente nessa base, então evite também Branca de Neve e o feitiço da maçã. Perigosa, porque transforma a ação de Satanás em algo caricaturado e ensina as pessoas a evitar o mal apenas no rótulo da Maionese, da Coca, ou no desenho animado. Não digo que cristãos não devam tomar cuidado com o que veem, leem e ouvem; É PRECISO CAUTELA SIM. Entretanto, é preciso entendermos que as estratégias de Satanás (II Cor 2:11) são mais sutis que isso. Ele é o pai da mentira, não da ficção, e sua ardilosa maldade cega e endurece corações, distanciando-os da Vontade Eterna de Deus. Os deuses do nosso tempo são tantos: sexo, vaidade, intolerância, egoísmo, dinheiro, poder, etc.

Por um lado, não tenho dúvida que cuidados devam ser tomados com um jogo como Pokémon, embora esse cuidado deva ser aplicado a todos os outros tipos de entretenimento. O entretenimento sem discernimento é sim um deus do nosso século, e tem sido adorado por muitos. Não pelos elementos ficcionais ou mitológicos em si, necessariamente, mas, sobretudo, por deixar o tempo ir pelo ralo, em detrimento de uma vida de santidade e devoção a Deus (Ef 5:15-17). Apenas lembre-se: Internet, WhatsApp, Netflix, novela, filme, preguiça, tudo isso entretém e rouba tempo também. Tome cuidado com o vício do entretenimento, ele pode dominar toda sua vida; já tem dominado a de muitos. Isso inclui Pokémon Go, que pode ser um sedativo poderoso para desligar você da realidade. Seja cauteloso.

Por outro lado, entendo que essa onda pode talvez nos dar oportunidades interessantes. O Pokémon Go é um jogo interativo, que se joga fora de casa, e que inclui interação com outras pessoas: interação real, e não apenas virtual. O jogo usa o GPS do seu celular para colocar um Pokémon perto de você, para que você interaja virtualmente. Alguns locais são pontos de encontro para jogadores, que trocam informações, duelam ou saem em “caçadas juntos”. Nessa interação, talvez seja possível tornar a experiência algo proveitosa: pais podem brincar e interagir com seus filhos; uma boa conversa pode nascer de um encontro casual, com possibilidade de se comunicar o evangelho e fazer novas amizades. Pontos de encontro próximos a igrejas podem ser oportunos para um convite a ouvir a Palavra. Bem, em um mundo que tende ao isolamento, com pessoas trancadas em quartos, madruga a dentro, jogando e jogando; ou sentadas sozinhas em lugares lotados, interagindo apenas pelo WhatsApp, um Pokémon Go pode prover “uma sensação momentânea de união”, como disse Travin Max, embora LONGE da verdadeira koinonia que o evangelho nos dá.

Por fim, vale dizer que esse texto NÃO É UMA APOLOGIA ao Pokémon Go, nem um incentivo para que se jogue. Eu mesmo não tenho a menor paciência. Trata-se apenas de uma orientação para que possamos discernir o mal com sabedoria e maturidade. Cada crente deve medir e pesar aquilo que lhe é edificante, e deve fazê-lo com sabedoria (I Co 10:23).

Nossa real satisfação deve estar em Deus, e em sua verdade. Sua Palavra deve ser nosso alimento diário. Não distrações mil e inovações humanas sem fim. Então, se necessário for, EVITE. Se ocasionar qualquer coisa que o afaste de consagrar-se a Deus, NÃO JOGUE. Mas se este não é o caso, faça bom proveito, com entendimento.

Sobre o autor: Pastor da Igreja Presbiteriana de Eldorado e membro do Grupo de Estudos de Cosmovisão Calvinisto.

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