terça-feira, 31 de outubro de 2017

500 anos da reforma: precisamos ser mais católicos!

                                                                                                                Por Yuri Fernandes



O maior erro que um evangélico pode cometer hoje em dia é deixar de ser católico. Calma, não se assuste com essa informação – este está longe de ser um texto a favor do catolicismo romano. Antes, pretendo abordar como a Reforma Protestante confirma o fato de que nossa fé é católica
.
Não precisamos ficar confusos. A palavra católico tem raiz no grego e significa universal. Logo, ser reformado é ser da igreja universal – não, não estamos falando daquela igreja do coraçãozinho com a pomba dentro. Brincadeiras à parte, quando falamos de uma igreja católica, ou universal, estamos falando do fato de que toda a comunidade de redimidos de Cristo do passado, do presente e do futuro fazem parte dessa igreja.

Como é sabido, os reformadores nunca quiseram fundar novas denominações, tanto que o nome do movimento ficou conhecido como Reforma. Foi o Catolicismo Romano, inflexível a esse espírito, que gerou essa consequência. O fato é que a grande crítica dos reformadores não se baseava em o catolicismo romano ser católico de mais, mas porque era católico de menos. Explico: uma vez que o elemento “Roma” passa a dar identidade para a igreja, esta já deixou de ser católica. Logo, ela é católica de menos porque é romana demais. 

Os romanistas atacaram os reformados por abandonarem a tradição da igreja. Mas a questão é que quem de fato se afastou da tradição pura da igreja foram os romanistas! Não foi esse o argumento de Calvino, quando escreveu ao rei Francisco I sobre as acusações de que os reformados desprezavam o conteúdo dos patrísticos, os pais da igreja? Veja só:

Então, contra nós investem com ímpios brados como sendo nós desprezadores e inimigos dos patrísticos. Nós, porém, tão longe estamos de desprezá-los que, se fosse esse nosso presente propósito, de nenhuma dificuldade me seria possível comprovar-lhes com as próprias opiniões a maior parte daquilo que estamos hoje afirmando. (CALVINO, p. 31)

Ora, Calvino sabia que a Igreja existia antes dele. E existia antes do romanismo. Dessa forma, o objetivo dele não era desprezar todo o conhecimento que grandes homens do passado legaram à igreja, mas, antes, retornar à Ele! É por isso que podemos bradar em alta voz: ser reformado é ser católico!

Porque ser católico é crer nas Escrituras como nossa única base de fé. Ser católico é crer que essa Escritura nos conta uma história de redenção da humanidade e que converge para Cristo. Ser católico é crer que esse Cristo pode nos salvar dos nossos pecados. Ser católico é crer que essa salvação é disponível apenas pela graça e somente pela fé. Ser católico é crer que toda a nossa vida nesse mundo é um imenso palco para a glória de Deus!

Nesse sentido, ser católico é crer nos 5 solas. É também crer no credo apostólico como um resumo da nossa fé. É olhar para o passado e perceber a miríade de credos, confissões, catecismos que mesmo falíveis nos foram deixados pelos santos de Deus que passaram nesse mundo. Porque a fé cristã não é minha: é nossa. Só é possível ser cristão no seio da comunidade que existia antes de você e que vai continuar existindo depois de você, e com você na eternidade.

Em tempos onde os evangélicos acham que catecismo é coisa de católico e que o credo é a prece que os católicos usam para espantar mau-olhado (de fato alguns o usam assim), é difícil resgatar essa unidade. É ainda mais difícil viver essa unidade em tempos de igrejas que se descambam para heresias, negando a trindade, tornando-se sabatistas, vendendo o dom da salvação. Essas seitas assim o fazem por terem esquecido a verdade católica da Igreja. Contudo, isso é algo fundamental. Precisamos resgatar nossa herança histórica. Precisamos ser mais católicos.

Referências.
CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. Edição clássica. Ed. Cultura Cristã.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

500 anos da reforma: comemorar o quê?

Por Yuri Fernandes

Jogos Infantis. Pieter Bruegel 1560, Holanda. 



500 anos da reforma. Uma data mais do que especial para todos aqueles que vivem hoje uma fé bíblica e verdadeira, um verdadeiro marco na igreja de Cristo. Mas, enfim, o que celebramos nessa data da Reforma?

É bastante claro que celebramos o Sola Scriptura como uma forma de lembrar do fato de que agora nós temos livre acesso à palavra de Deus. O Sola Fide, o Sola Gratia e o Solus Cristhus, como a grande expressão dessa verdade nos lembrando que a salvação é apenas pela graça, mediante a fé somente em Cristo. Porém um ponto importante é perceber que uma das grandes comemorações que precisamos fazer na Reforma é o resultado de tudo, isto é, uma vida firmada na palavra e com uma segura salvação em Cristo, que resulta em Soli Deo gloria.

Comemorar a reforma é lembrar que a vida do crente deve ser um sinal vivo e permanente da glória de Deus, não apenas dentro da igreja, mas em todas as áreas da vida. Quando pensamos na Reforma, nossa mente logo ecoa alguns nomes: Lutero, Calvino, Farel, Zuínglio. Mas qual foi o foco do trabalho desses homens? Eles libertaram e ensinaram a palavra de Deus ao povo, para que o povo, munido desse alimento espiritual, pudesse viver para a glória de Deus.

Nesse sentido, comemorar a Reforma não é simplesmente lembrar a vida de Calvino, Lutero, Farel e Zuínglio – homens de Deus, sem dúvidas –, mas também se lembrar das pessoas anônimas que tocadas por esses homens aceitaram o desafio de viver somente para a glória de Deus. Homens que se valeram dos meios técnicos da época – a prensa gráfica – para eternizar as palavras desses gigantes. Homens que trabalhavam glorificando a Deus e partilhando essas boas novas com seus amigos: sapateiros, camponeses, vendedores... Homens que desafiaram as heresias de sua época e pagaram um preço de sangue por isso. Que o digam os huguenotes franceses, que foram massacrados na noite de São Bartolomeu: homens do qual o mundo não foi digno.

Comemorar a Reforma é comemorar o fato de que ela continuou. Houve os puritanos, que mudaram a face da Inglaterra e construíram a nação que hoje chamamos Estados Unidos da América. Mais uma vez diversos nomes surgem em nossa mente: Owen, Bunyan, Baxter. E novamente temos uma série de homens que, inspirados pelo Cristo pregado por eles, provocaram uma revolução no mundo. Revolução que não foi apenas de forma metafórica: o que seria da democracia no mundo sem a Revolução Inglesa?

Comemorar a Reforma é também comemorar os grandes avivamentos. É comemorar o fato de que homens como Edwards, Whitefield, Wesley e Spurgeon pregaram avidamente para o povo, e por meio da ação do Espírito Santo esse mesmo povo decidiu viver para a glória de Deus e transformar aquelas gerações.

Comemorar a Reforma é também comemorar o despertar missionário do século XIX. É comemorar o fato de que homens como Willian Carey, Hudson Taylor e Simonton tinham o grande desejo de ver essa glória de Deus vivenciada em toda Terra. Assim, pela pregação desses homens, podemos ver que hoje existem pessoas comuns que vivem para a glória de Deus em vários cantos do mundo.

É nessa perspectiva que olhamos para a Reforma e vemos que, embora celebremos e lembremos o nome de grandes pregadores e teólogos, a Reforma não é sobre eles. É primeiramente sobre o Deus que eles pregam. Mas é também sobre aqueles que descobrindo o Deus desses homens são motivados pelo Espírito Santo a uma vida que seja para a glória de Deus: na igreja e em todas as outras áreas da vida, aqui e em todos os cantos da Terra.

A Reforma é então a vitória da vocação leiga diante da doutrina católica do sacerdócio da igreja: a vitória da Reforma é o sacerdócio de todos os crentes. Todos nós somos chamados a glorificar a Deus por nossas múltiplas vocações. Todos nós somos chamados a proclamar a virtude daquele que nos tirou das trevas para sua maravilhosa luz (1 Pe 2:9). 
A Reforma é a proclamação de uma vida genuinamente cristã no mundo, em contraste com o monasticismo medieval. É por isso que Bonhoeffer cita o exemplo de Lutero:

O caminho de Lutero para fora do convento e de volta ao mundo constitui o ataque mais incisivo que o mundo sofreu desde os tempos da primeira Igreja. A renúncia do monge ao mundo é brincadeira comparada à renúncia que o mundo experimentou por parte daquele que a ele regressara. O ataque agora era frontal; o discipulado de Jesus passaria a ser vivido no seio do mundo. Aquilo que, em circunstâncias especiais e com as facilidades da vida monástica, era praticado como realização especial passava agora a ser algo necessário, ordenado a cada cristão no mundo. A obediência perfeita ao mandamento de Cristo deveria acontecer na vida profissional de todos os dias. Assim se aprofundou de forma imprevisível o conflito entre a vida do cristão e a do mundo. O cristão atacava o mundo de perto; era uma luta corpo a corpo. (BONHOEFFER, 2004, p 13.).

Isso nos leva a refletir sobre o que então significa ser reformado no mundo de hoje. Talvez tenhamos esquecido essa grande verdade, que é o desafio de viver para a glória de Deus no dia a dia, enquanto trabalhamos e proclamamos a Palavra. É por isso que concordo que precisamos de mais pregadores que, de certa forma, sejam como Calvino, Lutero, Spurgeon e Edwards. Quando tivermos pregadores como eles, teremos também leigos como aqueles de suas épocas: homens que vivam para a glória de Deus, que preguem o evangelho, que proclamem a Deus com suas obras, que vivam com os olhos na eternidade.

Referências:

BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. 8ª ed. Sinodal. 2004.